Como acontece com grande parte dos portugueses, também Mariana Machado está confinada em casa sem correr devido a pandemia da Covid-19. E a verdade é que a campeã nacional de Ultra Trail já sabe o que vai fazer mal termine a quarentena…

Mudando de assunto, como a atleta e a cidadã Mariana Machado tem vivido a quarentena provocada pela Covid-19? Como é, em termos gerais, o seu dia-a-dia?
Para uma pessoa que se considerava workaholic e que tinha uma rotina diária acelerada, foi um choque e um murro muito grande na minha cabeça um mês de férias forçadas em casa. Mas logo desenvolvi objetivos a curto prazo para esta fase e peguei em projetos que já idealizava mas que não tinha tempo para os realizar. Somos animais, por isso temos de nos adaptar às diferentes fases da vida e fazer de um obstáculo uma oportunidade. Mantenho as minhas rotinas antes do Covid-19: levantar muito cedo e dormir cedo e comer às mesmas horas (agora na companhia da família que era algo que não estava habituada e é muito bom). As horas que eu estava no consultório são as horas em que estou a aprender, a estudar, a tentar falar com colegas e pacientes e a descobrir novas temáticas como a culinária, que é uma área que gosto muito, e o mindfulness.

Mas a Mariana Machado tem treinado em casa ou sai para correr?
Saí a primeira semana e foi um dia para andar de bicicleta numa ciclovia. Fora isso, mantenho treinos em casa, de força, mobilidade e ando de bicicleta no rolo. Neste momento estou a aproveitar para trabalhar os défices de força que tenho e a recuperar a lesão, com autotratamento e tudo que posso fazer em casa.

Acredita que o corredor de Trail sente mais falta da corrida do que o corredor da cidade?
Pelo que tenho visto, agora todos gostam de correr ou caminhar na serra ou monte… Isso é muito bom, só espero que se mantenha esta motivação em praticar exercício e desfrutar o que a Natureza tem para dar. Sei que muitos vão para a serra porque é uma forma mais fácil de distanciamento social e de não serem controlados, mas espero que o façam sozinhos ou em duplas como o decreto refere. E o praticante de Trail tem essa sorte, já estamos habituados a correr, tanto sozinhos como acompanhados na serra. E sentimo-nos felizes! Agora, vejo os nossos vizinhos espanhóis a sofrer e até eu sofro de os ver, fechados em casa a correr em passadeiras ou a fazer bicicleta, sem usufruir do desporto que amam ao ar livre.

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Mal termine a quarentena, onde pretende correr de imediato?
Mal consiga, quero ir para uma serra correr muitas horas, simplesmente correr sem olhar a ritmos e tempos.

O que mais sente saudade do mundo pré-pandemia?
De me levantar muito cedo, treinar e ver o amanhecer enquanto corro. Terminado o treino, sentir-me satisfeita e preparada para mais um dia de trabalho, em que lido, falo, toco nas pessoas para as ajudar.

Acredita que vamos mudar a nossa perceção da própria corrida após a pandemia?
Acredito que vai haver ainda mais gente a praticar Trail e a correr diariamente, pelo menos já não serão os maluquinhos do Trail só a correr.

O que correr significa para a Mariana Machado? Com este período de quarentena, acredita que esse significado foi alterado?
A corrida é o que gosto de fazer e o que fazia todos os dias. Porém, consciencializei-me de que, no momento atual, somos tão frágeis e tão egoístas ao mesmo tempo. Queixamo-nos quando não podemos ir treinar ou estamos lesionados e ao nosso lado temos pessoas que perderam a família, outros que não dormem nem vão a casa para ajudar os doentes… Isto sim que são problemas! Fez-me ver que, além da corrida, há outra vida e que devemos dar muito valor ao facto de estarmos vivos, sermos saudáveis e termos a capacidade para correr.

Se pudesse escolher uma prova, seja ela em Portugal ou no mundo, qual prova gostaria de ser a sua primeira pós-pandemia?
Tive muita pena de não correr na Lousã e no Faial, em Maio. Pós-pandemia, gostava muito de participar na Freita, uma serra que nunca corri e que gostava de conhecer. Aproveito para deixar a dica de que iremos entrar em crise económica, como todos prevemos, e penso que devemos dar valor e ajudar o que é nacional. Claro que há provas de sonho, como Zegama, UTMB e outras lá fora, e que é uma oportunidade única de estarmos presentes, mas também vamos tentar, pelo menos este ano e o próximo, competir e participar nas provas portuguesas.
Queria também aproveitar e deixar um conselho a todas as pessoas que amam este desporto: se querem continuar a amar e a praticar, por favor não o façam como se um ano de provas seja o vosso último ano. O corpo humano não tem peças suplentes que se possam substituir, tem limites e falhas que mais cedo ou mais tarde vão aparecer. Cabe a cada um de nós cuidar e há sempre bons profissionais que nos podem ajudar, tanto a nível de saúde, treino específico e nutrição.

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