Recentemente campeã nacional de Ultra Trail, Mariana Machado tem revelado nos últimos dias, na sua página do Facebook, conhecimento imprescindível sobre a modalidade, conselhos muito raros de termos disponíveis de forma tão facilmente acessível. Um verdadeiro serviço público da fisioterapeuta, osteopata e também atleta em tempos de quarentena.

Como surgiu a ideia de fornecer informação sobre o Trail na sua página do Facebook?
Sou uma apaixonada, diria mesmo viciada em desporto e tudo o que ele representa, principalmente na relação com a minha atividade profissional como fisioterapeuta/osteopata. Por isso, fascina-me tudo o que seja aprender, descobrir, investigar e descobrir novos métodos de tratamento ou prevenção de lesões e aumento de performance. Esta necessidade aumentou quando me deparei com uma lesão mais complicada que aquilo que inicialmente pensei e, durante videoconferências e conversas sobre a minha lesão (causa, relação, sintomas, tratamento, prevenção, etc.) com colegas meus de profissão, como o Eduardo Merino e o João Baptista, apercebi-me o quanto é importante saber o que vai para além do “simples” gesto de correr no Trail e o que a Ciência e a análise de pessoas como fisioterapeutas, fisiologistas, médicos e técnicos de Desporto podem oferecer aos atletas e praticantes de corrida e Trail.
O nosso cérebro pode assimilar 90% da informação a ensinar aos outros, 80% a fazer, 70% a debater e 50% a ler, ver e ouvir. Por isso, é importante aprender e transmitir conhecimento.

E como tem sido a reação das pessoas sobre este conhecimento por parte da Mariana Machado?
Sinceramente, quando decidi partilhar a informação que descobri, nunca pensei abranger tanto público, isto porque a minha ideia era simplesmente mostrar que é muito importante fazermos um trabalho extra além de correr em treinos e que não podemos querer subir os “degraus todos da muralha” sem nenhuma consequência para o nosso corpo. Esta partilha tem sido mesmo muito enriquecedora porque, não podendo ajudar presencialmente as pessoas e os meus utentes, tenho-me sentido útil a ajudar os praticantes de Trail e a aprender com aquilo que leio e com a opinião de cada um. Sempre pensei “com tanto texto, quase ninguém vai ler”, mas estes dias de quarentena estão a modificar pensamentos.

Há uma estratégia de publicações da Mariana Machado sobre esse conhecimento? Por exemplo, esta semana vou abordar força, na outra resistência?
Inicialmente comecei por pesquisar e falar sobre uma das lesões mais prevalentes na sociedade e que ainda vejo “diagnósticos e tratamentos” incorretos (Tendinopatias). Depois, com a reação que tive, e visto que estava já a ler artigos sobre Trail, decidi repartir pelos temas que pensei serem mais relevantes para todos os praticantes e profissionais que os acompanham. Ou seja, explicar o que é o Trail e o que já está cientificamente investigado, lesões mais prevalentes para as sabermos prevenir e tratar, importância do treino de força para a corrida, o que vai para além do atleta físico (mente, psico-emocional) e depois toda a análise biomecânica e fisiológica do gesto técnico em descidas e subidas.

Acredita que ainda há um grande desconhecimento das questões científicas da corrida no Mundo do Trail?
Sim, acredito! Numa das primeiras conversas que tive com o Eduardo falámos sobre isso e até trocámos artigos que tínhamos descoberto, já que ainda são muito poucos aqueles que falam especificamente de Trail e que podemos dar a devida credibilidade, tendo em conta o número de participantes no estudo e os métodos de investigação.
Por exemplo, a maioria analisa a biomecânica da subida e descida numa passadeira. Claro que isso não consegue analisar a realidade dentro de uma prova…
Esta carência de estudos aumentou a minha vontade de realizar cá em Portugal um estudo, visto que ainda não há nenhum, e que todos nós podemos dar uma ajuda para colmatar os défices desta modalidade no nosso país.

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Mas tem particular atenção a estas questões nas provas? Quais os principais erros individuais que analisa em competição, por exemplo?
Em um dos fóruns que participei, dentro da comunidade dos fisioterapeutas em que falámos de Trail, deparei-me sobre a necessidade que há em transmitirmos aos atletas que não se deve treinar quilómetros e quilómetros sem descanso, sem uma boa alimentação, sem um bom trabalho de força e mobilidade, isto numa forma simples de falar (nada melhor que praticar a modalidade para conhecer os pormenores que irão ajudar no tratamento e prevenção de lesões). Além disso, o profissional deve estar apto para aconselhar a prática de outras modalidades e arranjar alternativas quando se torna prejudicial para a lesão continuar a correr.