Vencedor do “Oh Meu Deus”, prova de 100 milhas (160 km) pela Serra da Estrela, Luís Oliveira revela como encontrou o Trail na sua vida. Ou o contrário…

Evidentemente que correr 100 milhas (160 km) é um marco para qualquer corredor, como certamente será para o Luís oliveira. O que mais o fascina nas longas distâncias?
O espírito de sobrevivência, o grau elevado de exigência, a necessidade de encontrar soluções, apenas soluções para resolver as contrariedades, que são por vezes imensas. Transporto essa forma de estar, espírito de sobrevivência, resiliência e o encarar as dificuldades com soluções, para a minha vida no dia a dia.
Vou para uma prova com os bolsos cheios de fichas e divirto-me, mesmo quando tudo corre mal, como aconteceu no Ehunmilak 2017, quando rebentei com os dois pés e caminhei os últimos 40k sem conseguir correr, tão fortes eram as dores.
Há também o espírito da prova. Nas 100 milhas há uma forma de estar entre atletas, com humildade, amizade, espírito de entre ajuda. Tudo instantâneo e que fica para sempre. Conheço muitos atletas nestas provas que marcam e ficamos amigos, com um elevado respeito uns pelos outros em virtude do que vivemos e partilhamos, sobretudo durante os momentos difíceis das provas.

E quando o Luís Oliveira foi chamado para as milhas do Trail? Fizeste a passagem normal, do asfalto para a montanha?
Fui chamado para o Trail pelo Rui Gomes. Um atleta aqui de Viseu, que já conhecia de vista do tempo de escola. Conheci-o na minha primeira Maratona de estrada, no Porto, em 2013. Pedi-lhe ajuda e dicas para melhorar a corrida para aquelas provas, mas ele disse estar mais virado para o Trail. Nunca tinha ouvido falar… Em dezembro de 2013, participei no Christmas Night Trail de Cantanhede, fiquei drogado. Em 2014 fiz 28 provas e não fiz mais porque trabalho por turnos e tenho família. Fiz perguntas, muitas perguntas para poder compreender os enfartamentos que trazia das provas. Melhorei os meus treinos na preparação para o Euhnmilak 2017, chegando a treinar acompanhado com um treinador, José Carlos Santos, durante 10 meses. Desde esse período continuo a aprender tanto quanto consigo. Felizmente, o corpo tem correspondido.

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E o que o Trail tem que o asfalto não tem?
Para mim, o Trail é mais completo, difícil, entusiasmante, motivante e menos monótono que o asfalto. Correr em alcatrão acaba até por ser mais perigoso que certos trilhos mais técnicos devido à inconsciência dos automobilistas. Quando tenho por vezes de correr por estradas vou sempre alerta com o trânsito. No Trail isso não acontece,  muito embora os níveis de concentração também sejam elevados.
Correr com desníveis que só lembra às organizações das provas, por dentro de rios,  lama, aldeias abandonadas, florestas e tantos outros locais  em perfeito contato com a natureza e a biodiversidade existente torna para mim o Trail  mais completo e viciante que correr em alcatrão.

Acredita que este triunfo poderá marcar um antes e um depois na sua carreira?
Para já está a ser muito agradável receber o carinho de tantas pessoas anónimas e, em especial, dos amigos pessoais e colegas de trabalho.
A única marca que para já existe e que marca a diferença do Luís antes da prova e depois da vitória são os 2 kg que perdi. Estou mais levezinho!
Para a minha carreira é agradável este atingir de objetivo, mais um sonho realizado. De resto é continuar a correr porque gosto de correr, de treinar todos os dias, a menos que não consiga mesmo. Sinto-me bem ao fazê-lo e quando não corro nem eu me aturo. Outros objetivos passam apenas pela possibilidade de participação em algumas provas dentro e fora do país que estão na lista de “para o ano tentar ir”.

Evidentemente que é importante ter uma equipa por trás neste triunfo, correto?
A equipa Viseu Trail é 100% amadora. Temos representado, na nossa camisola, dois dos símbolos da cidade de Viseu: o Museu Grão Vasco e a Sé de Viseu. Connosco temos também o enorme apoio, financeiro, moral e motivador, de algumas empresas da cidade e região, que estão sublimadas na nossa camisola, concretamente a Sofrapa, In.dustria – Arquitetura & Construção, La Cucina, Flashme, Fotografia e video de casamento, CasaMoldura, Pastelaria Pascoal 2005, Seridois, Fotoviseense e Auto Santa Luzia.

FOTOS: Organização Oh Meu Deus / Matias Novo