Luís Oliveira, que acabou de vencer uma das provas mais duras do calendário nacional, o “Oh Meu Deus” (100 milhas/160 km), pede mais responsabilidade às organizações das provas, mas também aos atletas.

Recentemente, na China, 21 atletas morreram numa prova de longa distância devido, ao que tudo indica, um erro (ou vários) da organização. Como analisa estas provas no nosso país? Acredita que as organizações oferecem a segurança necessária para os atletas?
Por vezes quer-me parecer que certas provas são organizadas por perfeitos apaixonados pela modalidade, o Trail. Querem mostrar o que de melhor tem a região, tornar a prova o mais difícil possível. Depois, o resultado são percursos com graus de dificuldade elevado, sem acessos fáceis e rápidos ao pronto-socorro.
Parece que existe a fórmula do resguardo no regulamento… “Em caso de necessidade de resgate deve o atleta ter capacidade para aguardar porque pode demorar mais do que o previsto, etc.”
O problema é que, em certos locais, o resgate tem que ser com equipas de resgate de grande ângulo. E se houver lesão grave com necessidade de transporte de maca? Já fiz provas em que tive a consciência de que, se alguém se magoasse, não seria fácil o socorro.
Por isso, não na generalidade, mas em alguns casos, e na minha opinião, há provas em demasia em que as organizações arriscam a mais. Devido aos custos que representa contratar corpos de bombeiros ou unidades privadas como o Gobs, seguros e todos os meios necessários ao bom sucesso de uma busca e/ou resgate, as organizações não têm como suportar os custos e não têm ninguém devidamente pronto em locais específicos para mais rápido e mais fácil efetuarem o socorro.
É mais fácil o aliviar de responsabilidade no regulamento, incluindo para isso o atleta na partilha de responsabilidades.
A título de exemplo: no Ultra Trail Somiedo 2018, no Parque Natural Somiedo, durante a prova esteve sempre disponível no ar um helicóptero com equipas de busca e resgate. Em caso de necessidade, o atleta podia acionar o meio em seu auxílio. Caso o fizesse sem real necessidade, tinha que pagar o resgate do seu bolso (um valor muito alto que estava disponível no regulamento).

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E na opinião do Luís Oliveira, até que ponto a culpa não está nos próprios atletas, que, muitas vezes, corre estas distâncias sem ter uma preparação adequada?
É interessante esta abordagem. 
Sou da opinião que o que falta, sobretudo, é a ausência de cultura de montanha aos atletas de trail portugueses. Portugal não tem alta montanha, não tem uma região económica de alta montanha, nem vivência de populações de alta montanha.
Na minha ida ao País Basco para participar no Euhnmilak 2017, observei famílias de três gerações a subir a montanha, grupos de adolescentes a percorrer a montanha,  todos eles equipados com telemóvel por GPS, GPS, tracks nos relógios,  calçado e roupa técnica, equipamentos de socorro em caso de alteração de condições climatéricas adversas, etc. Fiquei envergonhado. Eu levava uma ligadura, uma manta térmica, um telemóvel com rede MEO e um impermeável da Berg.
Esta ausência de conhecimentos obrigatórios de montanha, associado às dificuldades económicas que representam comprar equipamentos técnicos de montanha, deixam os atletas entregues ao S. Pedro.
Já assisti, no Estrela Grande Trail 2016, atletas a discutir com elementos da organização por ser obrigatório frontal e impermeável porque era peso extra e as previsões meteorológicas eram de Sol e temperaturas de 30°. Os elementos da organização tentavam explicar as características específicas do clima na Serra da Estrela, mas sem sucesso. Durante a prova tivemos um temporal. Eu tive que vestir o meu impermeável… 
Em 2016, nos 111k do Sicó, nevou. Andei lá com um corta vento. Passei super mal. Fiquei com dormência nos dedos das mãos até perto de maio. A prova foi em fevereiro.

Luís Oliveira acredita que os atletas necessitam de ter consciência do perigo de certas provas
Luís Oliveira acredita que os atletas necessitam de ter consciência do perigo de certas provas

Esta foto da garrafa entregue em 2017 é de 2016, durante a prova. No alto do Monte Sicó a nevar forte, eu sou o de trás,  de calções e corta-vento preto. À nossa frente estavam bombeiros. Eu perguntei:
«A prova está cancelada?»
«Cancelada?», responderam. «Nada disso. Sigam. O abastecimento é a 2 km.»
Terminei a prova e aprendi uma dura, muito dura mas grande lição.
Concordo na responsabilização dos atletas, mas com a condição, obrigação, de formação em provas de montanha. Tem? «Pode inscrever-se.» Não tem? «Vá fazer, se faz favor.»
Às organizações, como a Ronda del Cims 2019, exigiam um mínimo de experiência numa prova no último ano.
Nós, atletas, temos que ser responsáveis. É a nossa saúde, a nossa segurança e a que quem for em nosso auxílio que está em jogo.
E a vida não é um jogo.

FOTOSOrganização Oh Meu Deus