Após um 2020 complicado para todos, queríamos começar o ano com o exemplo de superação de Luís Ribeiro, um exemplo que serve de espelho para todos. Diagnosticado aos 14 anos com insuficiência renal, aos 35 anos começou a fazer tratamentos de hemodiálise. Razão mais do que suficiente para ficar desanimado? Não para Luís Ribeiro, hoje com 46 anos. Por exemplo, durante o confinamento do ano passado, correu 32 km na sua sala. No seu curriculum tem ainda participações em algumas das provas mais emblemáticas de Portugal, como a São Silvestre de Lisboa e a Ponte 25 de Abril, mas também na Peninha Sky Race ou o Trilhos de Belas. O seu sonho? Correr o Trail da Peneda-Gerês e o Grande Trail Serra D’Arga. Talvez em 2021…

O Luís sofre de insuficiência renal. Como foi descobrir um problema como esse, aos 14 anos?
Na altura não teve grande impacto na minha vida pois ainda não tinha necessidade de fazer tratamento ou medicação. Apenas precisava de acompanhamento médico para ver a evolução da doença.

Mas, aos 35 anos, começou a fazer hemodiálise. Foi também nessa altura que descobriu a corrida?
Eu já praticava desporto, concretamente futsal, mas os tratamentos de diálise peritoneal implicavam que tivesse um cateter na barriga e, com a transpiração, não era confortável para correr. Só comecei efetivamente a correr quando deixei de ter o cateter em 2014, logo após o primeiro transplante. Comecei a correr à hora do almoço com os colegas do trabalho.

Entretanto, foi submetido a dois transplantes. Pode falar-nos um pouco sobre essa situação e de que forma se repercute na sua atividade física?
O primeiro transplante foi realizado em Coimbra. No entanto, 24 horas depois, surgiram complicações com o rim, as quais me levaram a ficar internado nos cuidados intensivos com prognóstico muito reservado. Foi nessa altura que deixei de fazer diálise peritoneal e iniciei a hemodiálise. O rim transplantado acabou por ser extraído e, 32 dias depois, regressei a casa.
Após 2 anos e meio voltei a ser transplantado em Lisboa e o rim “sobreviveu” cerca de dois anos. Surgiu uma rejeição e este foi extraído, também para não comprometer a minha saúde e vida.
A atividade física na minha vida acaba por ser muito importante, já que um doente renal faz a retenção de todos os líquidos no seu corpo e a transpiração auxilia nesse sentido. É a partir do primeiro transplante que passo a levar a corrida mais a sério.

Tomando todas estas situações em conta (insuficiência renal, hemodiálise, transplantes…), como é conjugar tudo isto com a corrida, esta última encarada numa perspectiva de evolução?
Quando comecei a correr apenas tinha o objetivo de me sentir bem e melhorar a minha qualidade de vida para os tratamentos de hemodiálise. Mas, neste momento, a corrida é mais do que isso, já faz parte de mim e, independentemente da doença, corro por prazer e com o intuito de me superar.

Alguma vez lhe aconteceu chegar à conclusão de que não iria ser possível concluir uma prova ou desafio por causa da doença? E como lidou como uma situação do género?
Até ao momento a doença nunca me impediu de concluir qualquer prova ou desafio. O facto de fazer tratamento durante a noite deixa-me livre para as provas e desafios, como por exemplo uma Meia-maratona e, durante a pandemia, um treino de 32 km na minha sala em 4 horas.

Falando de treinos… Que tipos de treinos faz? E com que periodicidade?
Desde que comecei a frequentar o Centro de Marcha e Corrida de Odivelas passei a ter treinos mais específicos, como técnica de corrida e reforço muscular, o que me levou a evoluir.  Costumo treinar uma média de 5 vezes por semana, quer no centro, quer sozinho.

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E que tipo de provas o Luís Ribeiro prefere? Estrada, Trail, pista? E distâncias?
Gosto de estrada e Trail, pista nunca fiz.  Quanto a distâncias, em estrada 10 km ou Meia-maratona: em Trail já me sinto mais preparado para ir aumentando a distância.  Estes dois tipos de prova são os que mais tenho feito e que gosto.

Mas tem por hábito participar em provas oficiais? E quais as que já correu, as que mais o marcaram?
Tenho por hábito participar em provas organizadas em que profissionais e amadores correm. Já fiz várias: São Silvestre de Lisboa, Corrida do Tejo, Corrida de Santo António, Ponte 25 de Abril, Ponte Vasco da Gama, etc. No Trail, já corri a Peninha Sky Race, Trail das Cascatas, de Lousã, Bellas, etc.
As que mais me marcaram foram a São Silvestre de Lisboa e a Meia-maratona de Lisboa. No Trail, a minha primeira SkyRace, na Peninha.

Segundo julgo saber, o Luís tem o sonho de correr duas provas em particular: o Trail da Peneda-Gerês e o Trail da Serra Arga. Podemos saber quais os motivos? E já tem uma data concreta para a realização desses sonhos?
A razão pela qual tenho como objetivo fazer estas duas provas prende-se com o facto de ser uma zona do país que gosto muito, onde passo as férias todos os anos.  Não tenho uma data concreta, na minha vida os planos não podem ser a longo prazo. Gostaria de as fazer o mais breve possível tendo em conta a minha situação na doença e a logística exigida em relação aos tratamentos de hemodiálise.

Fora de Portugal, o Luís Ribeiro gostava de correr alguma prova em particular?
Sim, o Ultra Trail de Mont Blanc. Pelo desafio, pela prova, pela curiosidade. Mas antes quero tentar fazer os melhores trails em Portugal.
Quanto a estrada, as Meias mais conhecidas em Espanha.

Que mensagem gostaria de deixar a outras pessoas que se debatem com a mesma situação médica do Luís Ribeiro? Recomendar-lhes-ia a corrida?
Apesar da doença, não nos devemos focar só nela. Temos que nos adaptar e tentar ter uma vida normal. Pode-se viver para além da doença. O desporto é importante para o corpo e para a mente. A corrida recomendo a todos, mas desde que a situação de cada um e a opinião do médico a permita.