João Ferreira foi um dos destaques do recente Ironaman 70.3 Cascais, já que o português terminou no 11.º lugar da classificação geral numa prova que contou com medalhados olímpicos e mundiais. Uma prova de que o triatlo, com mais apoios, poderia alcançar mais voos nas competições internacionais, colocando Portugal no centro da modalidade.

O melhor português em Cascais. Era o que pretendia a nível nacional?
O objetivo, quando alinho à partida, é sempre conseguir o melhor resultado possível, é para isso que treino todos os dias.

E a sua classificação final, 11.º colocado, ficou satisfeito com ela?
Fiquei satisfeito com a minha prestação e com a minha prova. Tive um bom dia perante atletas que alinharam à partida que já foram medalhados em Jogos Olímpicos e Mundiais.

Essa posição reflete, de certo modo, o lugar do triatlo nacional a nível mundial? Ou seja, estamos na média em termos de performance? Não na elite, mas também não nos lugares mais modestos?
Tenho-me vindo a afirmar cada vez mais na longa distância, bem como o outro português em prova, o Filipe Azevedo. Nas distâncias mais curtas também temos tido um enorme talento com nomes como o do Ricardo Batista e o Vasco Vilaça. Em Portugal fazemos muito para o suporte que temos. É pena os apoios serem tão escassos.

Poderia falar um pouco da sua prova? Como decorreu?
Tive uma prova muito regular nos três segmentos, sendo que uma prova de longa distância é muito mais que nadar, pedalar e correr. Devemos ter muito cuidado com a alimentação durante e antes da prova e são muitas horas de trabalho por trás do dia “D”. Numa startlist com medalhados olímpicos e mundiais, posso dizer que discutir a prova com eles do início ao fim deixou-me satisfeito.

Quais foram os pontos positivos e negativos da sua prova segundo a sua perceção?

  • Pontos positivos
    Claramente o apoio dos portugueses ao longo de todo o percurso, algo que ainda hoje me deixa arrepiado
  • Pontos negativos
    Não estão diretamente dirigidos para a prova, mas vão ao encontro do que mencionei acima e que é uma causa que luto todos os dias, que um dia a longa distância e o triatlo em Portugal tenham os apoios que os atletas merecem e se esforçam diariamente.

E da prova em si? Há aspetos negativos e positivos a destacar?
A prova está extremamente bem organizada e seria um orgulho para mim e para os portugueses a organização da IRONMAN Portugal trazer uma startlist profissional à distância Full no ano que se segue.

Que opinião tem do percurso escolhido?
Está muito bem conseguido. Dureza qb e rápido, com uma vista fabulosa.

Qual a importância de Portugal organizar um evento com a distância rainha do Ironman?
É excelente para a economia local, para os portugueses, para os triatletas em si. Não vejo qualquer ponto negativo. Esperemos que uma vez em Portugal a prova já não saia de cá. Penso que é esse o desejo de todos os portugueses. O triatlo é festa!

A chegada de João Ferreira no Ironman 70.3 Cascais
A chegada de João Ferreira no Ironman 70.3 Cascais

E como analisa esta onda de triatletas em Portugal?
É uma modalidade que tem crescido muito em Portugal. No que me diz respeito, apenas tenho que dar um conselho aos muitos portugueses e atletas que ainda querem experimentar um IRONMAN: mantenham a calma, contactem algum treinador ou equipa que vos ajude e treinem minimamente porque é uma prova com muito desgaste para o corpo. Não é de um dia para o outro que se faz um IRONMAN.

Falou há pouco do público. Foi realmente algo muito especial?
É sempre muito especial competir em Portugal e sentir-me acarinhado pelos portugueses. Foi realmente algo único o que se viveu em Cascais no último fim de semana!

E como o triatlo surgiu na sua vida?
O triatlo surgiu na minha vida há cerca de 10/11 anos, quando decidi desistir do futebol (joguei durante 12 anos) e segui o caminho que a minha irmã levava. Inscrevi-me no clube de natação que ela frequentava e, passado uns meses, experimentei o meu primeiro triatlo, ainda em distância super sprint. Nunca mais quis outra coisa…

Poderia fazer um pequeno resumo da sua carreira na modalidade?
Comecei no triatlo em 2010 no Clube de Natação do Tejo, na Barquinha. Em 2011 consegui uma excelente prestação numa prova de seleção que a federação organizou em Aveiro, o que me levou uns meses mais tarde a ser convocado pela primeira vez à seleção nacional. Nesse mesmo ano, com 17 anos, fui convidado para ir viver para o Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho. Estive lá três anos. Foi espetacular, uma experiência única. Após o CAR (Centro de Alto Rendimento) de Montemor-o-Velho fechar as suas portas, segui destino para o CAR do Jamor, onde estive mais dois anos.  Nestes anos todos representei Portugal a nível europeu e mundial. Ao fim de 6/7 anos de triatlo, decidi dedicar-me à longa distância. Sempre foi o meu sonho estar presente no Campeonato do Mundo de IRONMAN, no Hawai, como profissional. Um dia estarei lá, tenho a certeza, e é atrás desse sonho que ainda corro e trabalho diariamente. Tenho evoluído bastante e vou continuar. O triatlo, para mim, é vida.

E os seus treinos? Como é a sua semana típica?
As semanas variam muito entre 15-30h semanais de treino, consoante se estou numa semana de descanso (prova) ou numa semana de carga. Não é fácil pois tenho uma profissão a tempo inteiro e trabalho por turnos. Tem que ser tudo gerido muito bem.

Muitos atletas da corrida reclamam de tempo para treinar. Como arranjar tempo para treinar três modalidades?
Como referi, trabalho por turnos, na PSP. Não é fácil, é muito desgastante. Por exemplo: olhar para a starlist do IRONMAN Cascais e verificar que praticamente sou o único atleta que não é totalmente profissional. Mas pronto, como se diz, «tenho que ir à luta com as armas que tenho» e esperar que algum dia tenha os apoios desejados em Portugal.

E como concilia os treinos com o seu trabalho na PSP?
Ao trabalho não posso faltar, trabalho como um trabalhador normal. Retiro horas do meu descanso para ir treinar. Não é o ideal, mas é o que consigo fazer para evoluir.

Os tempos de João Ferreira no Ironman 70.3 Cascais
Os tempos de João Ferreira no Ironman 70.3 Cascais

E estar na PSP é benéfico para a sua carreira como triatleta? Há pontos de ligação entre estas duas atividades?
As forças armadas em Portugal não são como em certos países. Vou dar o exemplo de vários atletas, por exemplo, italianos ou brasileiros. São formados nas forças armadas, mas o Estado financia a carreira deles e apoia-os como atletas. Assim que terminam a carreira como atletas, voltam ao serviço. Aqui não! Temos de trabalhar e treinar em simultâneo. Em bom português, eu sou o típico atleta amador que pretende ser alguém na modalidade e se procura bater com os profissionais.

Por fim, o que o tritalo tem de tão especial?
O Triatlo é único! É lindo! Posso dizer que faz parte de mim, faz parte da minha vida.

FOTO: Facebook