Durante três anos, João Andrade sonhou e trabalhou para correr uma das provas mais difíceis do mundo, a Ultramaratona Badwater 135, prova com 217 km (começa a 80 metros abaixo do nível do mar e termina a uma altitude de 2548 metros) e com temperaturas a rondar 55º C. Esta quarta-feira e amanhã vamos falar de dois temas: como João Andrade encontrou a corrida e como está a sua preparação para a prova norte-americana, agendada para 7 de julho.

É um empreendedor de sucesso, CEO de várias empresas, uma das quais cotada na Bolsa de Londres. Como foi que a corrida surgiu na sua vida?
A corrida surgiu na minha vida recentemente, mais concretamente no final de 2016, quando, após mais de uma década a criar empresas, me encontrava na posição de CEO da WideCells Group PLC, empresa do setor das células estaminais que eu havia fundado em 2012.
Em julho de 2016 eu tinha vivido a experiência única de abrir a Bolsa de Londres pelas 8h00 do dia 27 de Julho de 2016, havia acabado de me tornar no primeiro português a entrar na Bolsa de Londres e logo no mercado principal. Isso deveria por si só me deixar muito satisfeito, e deixou, pois foi uma grande aprendizagem e trouxe benefícios para muitos.
Só que, e a nível mais individual, a jornada empreendedora tinha-se tornado numa verdadeira obsessão sem conta, peso e medida. Os meus dias de trabalho não tinham menos de 16 a 18 horas e, nesse meu mundo, fazer “diretas” a trabalhar num avião ou no escritório eram uma constante. Mas eu sabia que isto estava profundamente errado e o pouco tempo que eu tinha livre era exclusivamente dedicado à minha esposa Vivian e aos nossos três filhos. Tudo o resto havia sido excluído completamente da minha vida… Quando ganhei consciência real sobre o rumo que a minha vida estava tomar, procurei logo encontrar uma nova solução e novos objetivos. Em termos práticos, o meu primeiro objetivo foi encontrar um novo objetivo que me permitisse redirecionar a minha vida para um novo patamar de conhecimento e desenvolvimento, deixando para trás tudo aquilo que estava errado. Assim, no domingo anterior ao Natal de 2016, deparei-me com um vídeo do Youtube acerca da Ultramaratona mais difícil do mundo, a inigualável Badwater 135. Este vídeo, de 4 minutos, mostrava atletas a ultrapassarem dificuldades extremas para conseguirem atravessar os 271 km do Vale da Morte debaixo de 55 graus Celsius em menos de 48 horas. Este foi um momento «Ahaaa!»…
Imediatamente disse à minha mulher: «Quero correr esta prova em 2020. O que achas?» Ela imediatamente disse «sim» e assim começou esta grande jornada.

Este não é o vídeo que alterou a vida de João Andrade, mas demonstra na perfeição o que significa correr a Ultramaratona Badwater 135

Sendo uma pessoa extremamente ocupada, foi fácil encontrar tempo, mas também motivação, para tornar a corrida uma parte da sua vida?
Eu acredito que um empreendedor e um ultramaratonista são pessoas que têm de ter uma grande capacidade de gestão de problemas e de tempo. Não posso dizer que foi fácil encontrar tempo, mas se fosse fácil também não o faria. A motivação foi desde o início ser um dos 100 atletas selecionados para correr a Badwater em 2020. Mas, no dia-a-dia, não podemos depender de motivações para treinar e preparando provas extremas de mais de 200 km. Treina-se quando se quer e quando não se quer, pois o nosso crescimento e desenvolvimento como pessoas e atletas surge daí. É ótimo ter dias bons, cheios de motivação, mas os dias menos bons aparecem e temos de prosseguir na mesma com a nossa vida, as nossas tarefas, os nossos treinos e os nossos planos. E, depois da Badwater, haverá outros desafios. Tal como disse Fernando Pessoa, e que se aplica muito bem a como a corrida entrou na minha vida, «Primeiro estranha-se e depois entranha-se».

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No seu dia-a-dia, na sua vida profissional e até pessoal, que ensinamentos ou vantagens consegue retirar da corrida que depois aplica nesses domínios?
Uma das melhores frases para mim é a do psicólogo canadiano Jordan Peterson, que certa vez disse: «O propósito da vida é encontrar o maior fardo que você possa carregar e carregá-lo». A Ultramaratona é um desafio físico e mental que nos leva ao “vazio” e é aí que temos encontro marcado com nós mesmos. Quando conseguimos enfrentar os nossos medos e inseguranças e conseguimos vencer todos os planos que a nossa mente tem preparada para nos tentar fazer parar, nós crescemos. E este crescimento aplica-se em toda a nossa vida. Ao aprendermos a gerir as nossas emoções somos mais capazes de tomar decisões acertadas, mas principalmente de desfrutar das várias emoções e sensações que a vida humana nos proporciona. Assim, a corrida aplicou-se literalmente na minha vida profissional. No início de 2019 saí da minha empresa anterior em simultâneo com a entrada de um grande investidor para me dedicar à organização de provas de Ultramaratona e corrida em montanha, com a criação da minha nova empresa, a One Hundred, sediada em Londres e absolutamente pioneira na criação do circuito mundial de Ultramaratonas de Mountain Trail, com lançamento para breve nas distâncias de referência 100, 50, 25 e 10 milhas, que irão incluir desafios altamente inovadores, assim como todo um ecossistema de vários serviços complementares, desde o treino, nutrição desportiva, avaliação de performance, pesquisa, campos de treino em montanha, coordenação com patrocinadores para apoio a atletas, introdução de antidoping em escala e a introdução de prémios monetários para recompensar grandes atletas que se dedicam de forma incrível a este desporto, que é dos que mais cresce em todo o mundo. Realmente, a corrida teve um impacto tremendamente positivo na minha vida e espero poder levar a corrida a muitas pessoas por todo o mundo para poderem também elas aprender com a corrida, tal como eu aprendi.

Para chegar a Ultramaratona Badwater 135, João Andrade tem nas pernas algumas das provas mais difíceis do mundo
Para chegar a Ultramaratona Badwater 135, João Andrade tem nas pernas algumas das provas mais difíceis do mundo

Ainda relativamente à corrida, foram sempre as longas distâncias que, desde o início, mais o atraíram?
Eu sempre me senti atraído por objetivos que parecem à partida inalcançáveis, pois o crescimento que temos de ter para os concretizar é proporcional ao tamanho do desafio. Assim, as longas distâncias foram imediatamente o que me atraíram, especificamente a prova Badwater 135.

Até hoje, quais as provas que mais gostou de participar? E quais as mais difíceis?
As provas que mais gostei de participar foram a PT 281+ Ultramarathon, que é uma prova extremamente bem organizada em Portugal e uma das maiores distâncias do mundo. Esta foi sem qualquer sombra de dúvida a prova mais difícil que participei e que exigiu tudo de mim. Foram mais de 281 km, cerca de 7 maratonas seguidas, com cerca de 8000 metros de Desnível Positivo em trilhos pedestres na Beira Baixa debaixo de temperaturas altíssimas no mês julho de 2019. A outra prova foi a BR 135 Ultramarathon no Brasil, que participei no início deste ano, em que fui o segundo português a concluir a prova com sucesso. Esta é uma prova de 217 km, com Desnível Positivo de cerca de 7000 metros debaixo de temperaturas e humidade muito altas na Serra da Mantiqueira, no estado de Minas Gerais. Gostei bastante de participar na Badwater Cape Fear, na Carolina do Norte, em que tirei um 5.º lugar na geral, uma prova de 84 km que atravessa um conjunto de praias na Ilha Bald Head e que inspirou o livro «Um Porto Seguro. Nunca é Tarde para Recomeçar», de Nicholas Sparks.