João Andrade

Empresário e empreendedor de sucesso, João Andrade é também um homem de desafios que um dia se apaixonou perdidamente pela corrida e ultra-distâncias, razão pela qual decidiu agora colocar de pé o maior dos desafios: ajudar a afirmar o Mountain Trail no mundo, estruturando e profissionalizando a modalidade. Um projeto que, definitivamente, vale a pena conhecer!

Como surgiu a ideia de criar a One Hundred? Quais os objetivos?
Eu sou um empreendedor há bastantes anos, assim como o meu co-fundador Tiago Aragão, e ambos sabemos que construir empresas é de certa forma muito parecido com o desporto de endurance. Construir uma empresa disruptiva é um verdadeiro teste às capacidades de resiliência do ser humano.  A One Hundred foi criada no seguimento deste conceito. Nasce de um desejo profundo e genuíno de criar um ecossistema para o desporto de Mountain Trail, que facilite o profissionalismo, mas que abra também portas para que mais pessoas possam participar nesta modalidade de forma recreativa ou amadora. Estamos a falar de um dos desportos em maior crescimento em que não existe um verdadeiro circuito mundial que promova uma competição baseada em pontos de referência. Isto inclui aspetos muito simples, porém importantes, como as variáveis distância e altimetria. Situação que não facilita a competitividade e avanço da performance desportiva, que naturalmente surge pela comparação entre atletas e consigo próprio. Cada organização tende a focar-se na prestação de um punhado de serviços, mas a One Hundred nasce para unir os vários pontos importantes neste desporto e para poder elevá-lo a outro nível de participação em massa, com o devido respeito pela montanha. No entanto, é também para nós um objetivo criar um verdadeiro espetáculo que possa ser transmitido para uma audiência global – será o ponto-chave na oferta que desenhamos. Existe um sem número de pessoas que ainda não foi exposta ao grande fenómeno do ultramaratonismo e às emoções que são experienciadas por grandes atletas. Quando críamos a tagline Find Your Summit pretendemos representar desta forma o desafio do atleta na busca da superação e desenvolvimento pessoal e da resposta às perguntas que ele faz a ele próprio. E que só ele mesmo saberá quais são”! Para nós este é o grande desafio e, tal como correr 100 milhas, construir a One Hundred será uma grande ultramaratona, com muitas metas para serem cruzadas no futuro.

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Um dos pressupostos do projeto é tornar as ultra-maratonas de montanha um produto mais apetecível para o espetador. De que forma?
Temos aqui algumas componentes importantes. Um é o recurso a tecnologias que, na verdade, já são utilizadas noutros desportos ao nível de broadcast, live-streaming, gps-tracking, mas adaptada à corrida de montanha. Para isso contamos com uma equipa e parceiros a trabalhar num esforço conjunto, liderados pelo Leonardo Fontenele, nosso acionista e responsável pelas experiências e arquitetura de conteúdos da One Hundred. O Leonardo traz uma caixa de ferramentas e um background sem precedentes na criação de experiências para o público, tendo trabalhado em grandes projetos para a Disney Imageneering e empresas como a Coca-Cola, M&M, Volkswagen, Ferrari, entre outras. O modelo tem de passar por criar um formato de transmissão que seja mais facilmente digerido pelo espectador, um aspeto fundamental quando se quer levar uma prova que pode demorar bem mais de 24 horas ao espetador que está no evento ou no conforto da sua casa a assistir a sua equipa e/ou o seu atleta favorito.

Outro dos pressupostos é ajudar à profissionalização dos atletas. Será isso possível apenas com os prize money de quatro/cinco provas? Em que valores está a pensar?
Para se ajudar à profissionalização dos atletas, o prize money é tão só e apenas a ponta do iceberg, apesar de ser um ponto importante para o próximo passo neste desporto. O novo formato de transmissão, a forma clara de gerar pontuação e comparativos, a possibilidade de gerar rankings dos melhores, tudo isso irá criar novos ídolos que sejam significativos e relevantes para o grande público. Com uma vasta audiência consegue-se aumentar a contribuição dos patrocinadores em escala, trazer mais investimento, levar ao desenvolvimento de equipas dedicadas que possam suportar os seus custos, bem como os salários e contribuições para os atletas. É preciso criar o ecossistema que mencionei e um circuito mundial com referências claras que fomentem a competição para promover o alargar dos limites da performance e, ao mesmo tempo, inspirar mais pessoas a fazer desporto e a procurar um estilo de vida mais saudável. Contudo, isto não pode ser criado no curto-prazo, as grandes empreitadas têm sempre de ser vistas a longo-prazo. Estamos aqui para correr uma ultramaratona e a “prova” ainda está a começar.

Um dos vários aspetos interessantes do projecto é, desde logo, o criar, de raiz, um circuito mundial de ultra-maratonas de montanha, o também referido One Hundred World Series. E porquê começar por Itália e Brasil?
Estes são os palcos que escolhemos por razões que variam desde a escolha dos parceiros locais para a coordenação e organização da prova, mas também pelas belas montanhas e trilhos inexplorados em provas de larga dimensão como as de 100 milhas. É importante para nós que as provas não recorram a loops e que o percurso leve os atletas e a audiência a grandes maravilhas da natureza sem repetir seções do percurso. Temos algumas guidelines para trilhos de montanha que se encaixam no perfil One Hundred e cada localização passa pelo nosso processo de seleção e revisão do nosso comité interno. Agora, não podemos esquecer a facilidade de acesso ao local da prova, a acomodação e as experiências turísticas, incluindo a cultura e a gastronomia. Por fim, temos claro os apoios provenientes de cada local, que podem ajudar à criação da melhor experiência possível para todos os envolvidos no curto, médio e longo-prazo.

O EUA, o Reino Unido e a África do Sul são igualmente etapas desejadas, mas para 2022. Porquê estes países? Nos EUA, a preferência vai para o Colorado, e no Reino Unido e África do Sul?
O Colorado é um palco de referência para este e outros desportos de montanha e onde fica situado o maior centro de treino em altitude no mundo. Este é um local de eleição para uma prova nos EUA e esta é a nossa intenção estratégica. Eu e outros colegas da equipa temos uma vasta experiência profissional no Reino Unido, onde eu pessoalmente trabalho nestes últimos 12 anos, e onde hoje está sediada a nossa holding One Hundred Group Ltd. Existem montanhas magnificas no Reino Unido e a nossa aposta passa pela variedade de montanhas que podemos encontrar em Itália, Brasil, EUA, UK e mesmo na África do Sul, que vemos como o palco para a nossa prova no continente africano. Mas mesmo com essa variedade procuramos referências e pontos em comum nas diferentes localizações, mesmo sabendo que falamos de locais icónicos. É um desafio aproximar as experiências One Hundred nas diferentes montanhas, mas é um compromisso de qualidade que queremos ter com os nossos participantes. A escolha exata de alguma destas localizações para futuro está em decurso pelos nossos comités locais. Temos sempre de levar em consideração que, apesar de termos consciência de que iremos começar com passos pequenos, que estes sejam dados no caminho da construção de eventos que requerem infraestruturas que permitam a participação de milhares de pessoas com toda a segurança, mas com a certeza da preservação da montanha.

Quanto a distâncias, a previsão é que todas as etapas do circuito tenham quatro provas: de 100, 50, 25 e 10 milhas. Qual a razão desta definição?
Queremos mudar o paradigma e encontrar uma referência que a nosso ver está em falta no Mountain Trail. É importante para nós introduzir uma oferta baseada na correta preparação do atleta para as provas e a sua evolução e respetiva especialização na distância da sua preferência. Um atleta poderá começar pelas provas de 10 milhas e ir fazendo a sua progressão até um dia encarar a participação numa prova de 100 milhas. Mas este formato também permite que o atleta que tenha preferência pela distância de 25 milhas (mais rápida) possa se focar em obter a melhor performance e experiência nesta série do circuito. Deste modo oferecemos uma oferta ampla e progressiva para os vários gostos e preferências. Se pensarmos no Ironman, temos claras referências de distância, mas as provas acabam por ser diferentes em cada local.

Pensando num projeto já consolidado, qual o número ideal de provas? Onde? E número de atletas, até para garantir a viabilidade do projeto?
Este é um investimento de longo-prazo e a minha experiência e de outros membros da equipa é a de angariação de fundos para montar empresas disruptivas que possam crescer em escala e ter um impacto profundamente positivo no mundo. O mais importante é a criação da experiência porque os modelos mostram-nos que se fizermos a maior parte das coisas bem, podemos fazer a One Hundred crescer forte e saudável. Posto isto, o número ideal numa projeção a 5 anos poderá ser de cinco a oito provas, mas tenho a certeza de que iremos aprender muito nesta jornada e que uma boa estratégia deve conter margem para adaptações, mas ser fiel aos seus princípios até ao fim. O número de atletas deverá começar por algumas centenas e evoluir a longo prazo para alguns milhares.

Na terça-feira, não perca a continuação desta entrevista.