João Andrade One Hundred

Apaixonado pelas ultra-distâncias, mas também pela corrida de montanha, João Andrade quer transmitir essa paixão a outros atletas, ajudando não só à sua formação, através dos chamados training camps, como também à sua profissionalização mediante o pagamento de prémios. Entre muitas outras ideias…

Falando de prazos… 2021 não será uma meta demasiado próxima para montar um projeto desta envergadura? Em que ponto estão as negociações com os locais onde decorrerão as etapas? E com as principais figuras das ultra-maratonas de montanha?
As negociações estão avançadas sob o ponto de vista dos parceiros e sentimo-nos honrados e entusiasmados com a resposta que temos observado nos diferentes países. A questão principal aqui será o quanto a situação atual relativa ao Covid-19 e as medidas adotadas nos diferentes países poderá atrasar ou não alguns dos nossos planos. Apesar disso, temos 2020 para trabalhar e preparar tudo para provas que se irão realizar daqui a um ano, sendo que já arrastamos um imenso trabalho desenvolvido pela nossa equipa desde abril de 2019. Em suma, aquando do lançamento da primeira grande prova do circuito, ela estará assente em dois anos completos de trabalho.

LEIA TAMBÉM
João Andrade: «Para a Badwater 135, estou a treinar entre 160 e 200 km semanais»

Outro aspecto muito interessante são, sem dúvida, os training camps. O que nos pode adiantar sobre esse conceito? Qual o público-alvo e o tipo de serviços oferecidos? E preços?
O conceito baseia-se na criação da experiência de preparação para as nossas provas, criando campos de treino intensivo para atletas mais avançados e amadores, de forma a criar sinergias e troca de experiências capazes de elevar o melhor de cada um dos participantes nos seus percursos de preparação para uma prova One Hundred. Iremos provocar nestes 4 a 5 dias de treino a interseção com locais emblemáticos e únicos, a participação de referências mundiais da corrida e as próprias marcas ligadas à modalidade. Apesar de parecer, isto não tem qualquer motivação económica, mas sim técnica: se um responsável por uma marca de sapatilhas nos elucidar acerca dos seus modelos e os prós e contras de cada um deles, podemos tomar melhores opções aquando da escolha para uma determinada distância. Hoje em dia, eu começo a correr e vejo que o meu vizinho utiliza uma determinada marca, eu vou atrás e sem sequer escolher um modelo específico para as distâncias que corro, vou usar o mesmo para todas, para treino, etc. É só e apenas um ponto por onde pode despontar uma lesão que pode condicionar até a conclusão de uma prova OH. E não podemos deixar que os nossos atletas não cumpram esse sonho! Depois, teremos outros serviços mais vulgares em outros training camps, mas servidos de uma forma interativa e lúdica. Queremos que os participantes tenham a melhor experiência e, para isso, que sejam eles a tomar decisões acerca do que é importante em cada um dos dias. Os valores variam um pouco com a localização, acomodação, etc., mas, no geral, as projeções que temos são bastante atrativas, pois, à medida que procuramos instalações hoteleiras mais próximas do epicentro da ação, as ofertas acabam por vezes por serem mais económicas!

O João Andrade também já divulgou que pretende fazer o primeiro training camp ainda este ano em Portugal. Fale-nos sobre isso.
Na verdade, estamos a planear um training camp a ser realizado no Monte Etna, na Sicília, Itália, para outubro, liderado pelo grande Mauro Prosperi, ultramaratonista italiano, treinador de endurance e medalhista de ouro olímpico. O Mauro é o responsável pelos nossos OH Training Camps e convido todos a assistirem o seu documentário Lost in the Desert da série Losers, do Netlix, pois é um verdadeiro exemplo de superação humana. O que estamos a preparar para Portugal é uma Special Stage na região do Douro que, na prática, irá introduzir um novo tipo de competição que será parte integrante das provas de 100 e 50 milhas do circuito. Para já não posso adiantar mais, mas, mal nos seja possível, iremos anunciar todos os detalhes sobre o evento. O lançamento está apenas pendente das medidas do Governo relativamente à realização de provas em Portugal, o que estamos a acompanhar bem de perto.

O projeto One Hundred World Series conta também sobre uma vertente de sustentabilidade. Pode explicar-nos?
O conjunto de ações será pautado na nossa visão, missão e valores. Teremos diferentes estratégias centradas no nosso propósito. Inicialmente, iremos direcionar o nosso foco em não causar qualquer impacto ao meio ambiente e em conscientizar o público sobre a importância da sustentabilidade, fomentar a prática desportiva, promover a prática do fair-play e do espírito desportivo. Queremos também humanizar a relação da nossa marca com o público através da busca de metodologias e programas que facilitem o acesso à prática do Mountain Trail.

Quanto a patrocinadores, já têm um quadro definido? Quais? E de que forma será canalizado o patrocínio?
Temos um quadro definido para os diferentes tipos de evento e está pensado não só para a buscar de recursos para a organização da melhor prova possível, mas também na participação em prémios para os atletas e na fomentação da criação de equipas e a sua relação com agentes desportivos que possa ajudar a criar condições para mais atletas e equipas serem patrocinados, também conferindo uma plataforma de exposição mais abrangente para as marcas. Um dos maiores problemas que vemos hoje, dentro da nossa análise, não é a exposição que os eventos de corrida de montanha facilitam, mas o entendimento das organizações da definição, controlo e medição das métricas de marketing para que estas sejam mais facilmente compreendidas pelos patrocinadores que buscam entender melhor qual o ROI (Retorno do Investimento) do patrocínio e promoção da prova, equipa ou atleta nas várias plataformas de comunicação físicas e digitais.

Na divulgação do projeto, o João revelou também que o campeonato será realizado segundo um formato novo de competição. O que pode revelar sobre esse tema?
Esse tema está a suscitar bastante interesse e, neste momento, posso apenas adiantar que estamos a prever e a preparar com dedicação e empenho o lançamento da prova piloto (One Hundred Special Stage) desse novo formato de competição aqui em Portugal, ainda este ano se as condições assim o permitirem. Este formato será depois integrado nas provas One Hundred World Series.

Finalmente, outra ideia transmitida na divulgação do projeto é a intenção de criar rankings próprios, independentes dos elaborados por organismos já instituídos, como a International Sky Running Federation. Porquê? Não teme, por exemplo, que essa separação possa vir a funcionar como um obstáculo a mais na afirmação e credibilização do projeto?
A afirmação e credibilização será conquistada com trabalho, com experiências inovadoras e apelativas aos corredores, público, ao longo do tempo. Sabemos que a afirmação e confiança numa marca conquista-se todos os dias e que a consistência no tempo é o que cria uma imagem e identidade. Assim, para nós, o mais importante é que o nosso sistema represente aquilo que pretendemos trazer para a modalidade na criação do ecossistema que mencionei anteriormente. Mais do que tudo, quando consideramos que algumas associações atuais certificam provas de estrada e de praia como trail, e que outras não se adequam pelas suas regras ao tipo de prova que queremos criar, não nos restou outra opção a não ser sermos fiéis aos nossos princípios. Assim, estamos a criar a modalidade de Mountain Trail que é tão só e apenas a especialização da corrida de montanha. Não falo só de desnível ao começar num ponto baixo e a terminar noutro mais alto e com limitação em coeficientes de cálculo de altimetria e distância como outras entidades o fazem, o que estamos a fazer é completamente novo e este será o circuito mundial de Mountain Trail. Estamos focados na persecução da melhor experiência para todos os envolvidos e não em acomodar vários modelos para uma prática capitalista neste sentido de servir a todos sobre uma insígnia ou selo. O nosso foco é claro e para isso estamos a criar um novo molde. Quando falamos em profissionalismo, temos de pensar em anti-doping e muitos outros fatores e num mundo de competição temos de ter métricas comparáveis em provas de um campeonato / circuito. Este é o nosso foco e claro que iremos trabalhar junto das entidades e federações em cada país para fazer deste objetivo uma realidade.

Leia aqui a primeira parte da entrevista.