Hugo Falcão, hoje com 42 anos, pesava 123,5 kg em 2018. Hoje, pesa 81 kg. A mudança aconteceu como sempre acontece, com o simples desejo e desafio de querer mudar. Neste caminho de três anos, criou o projeto Obesidade Zero.

«Nunca tinha sido gordo na juventude, nem tão pouco obeso, mas depois dos 25, 30 anos, deixei de praticar qualquer atividade física, passei a alimentar-me mal e o peso foi subindo sem qualquer controlo», recorda Hugo Falcão nesta entrevista, que está dividida em duas partes. A segunda parte será publicada no domingo.

Como é que começou o projeto Obesidade Zero?
O projeto nasce da necessidade de mudança.
O corpo tinha que passar por um “tratamento de choque” para que pudesse existir essa mudança e assim chegar ao lugar onde cheguei hoje.
Um dia, recebi a notícia do falecimento de uma pessoa minha conhecida causada por um AVC. Essa pessoa tinha excesso de peso, comia e bebia em demasia e, se eu não tivesse cuidado com a minha alimentação, nem praticasse qualquer atividade física, talvez esse fosse o meu destino.
Então, em fevereiro de 2018, resolvi criar o projeto Obesidade Zero.
O projeto pretendia e pretende apenas demonstrar que através da mudança de diversos comportamentos conseguimos atingir os objetivos a que nos propomos. Funciona um bocadinho como o meu diário de todas as atividades, com vários desafios e objetivos ao longo dos meses e que todos podem interagir.

Mas como era o seu tipo de alimentação regular, antes da existência do projeto?
Muitas vezes, um prato de batatas fritas, com salsichas e ovo, faziam com que o meu estômago ficasse deliciado, por muito mal que tudo fizesse.
Os fritos sempre fizeram parte da refeição mais regular que tive, até perceber que tinha que mudar.

E então surge esse desejo de mudança, fruto do seu excesso de peso. Mas em que se baseou para criar o projeto Obesidade Zero?
O objetivo da criação deste projeto não foi apenas para que ele servisse de diário, mas para motivar outras pessoas a fazer o mesmo.
Gostava de ver as pessoas perceberem que é através do esforço, da dedicação e motivação que cada um pode adquirir que as mudanças acontecem.
E o pior de tudo é que só quando percebem que essa mudança dá um enorme trabalho, mas ao mesmo tempo pode dar uma enorme satisfação, é que iniciam o processo.

E de que forma apareceu a corrida na sua vida?
A corrida apareceu como a evolução natural das coisas.
Quando comecei com o projeto, e com o excesso de peso que tinha, baseei-me nas caminhadas. Primeiro com 5 km em determinado tempo, depois fui tentando aumentar o ritmo e reduzindo ao tempo. Mais tarde fui aumentando gradualmente a distância e o ritmo e, quando dei por mim, a caminhada já me estava a puxar para correr.
Fazia muitas vezes o ritmo médio de 09m00/km, que para mim já era uma caminhada acelerada. Então tentei atrever-me a correr…
A primeira distância foram 600 metros. Nunca me vou esquecer!
Saí de casa pronto para correr e, mal faço os meus primeiros 200/300 metros, começou a chover do nada e eu tive que correr rápido para me conseguir abrigar num viaduto que havia perto da minha casa. Quando a chuva parou, eu estava todo molhado e já só pensava em voltar e tomar um banho quente.
Na semana seguinte, já com bom tempo, iniciei o meu percurso na corrida com uma volta entre a casa dos meus pais e a minha, 4 km de ida a correr e 4 km de volta em caminhada.
Mas a verdade é que a corrida de estrada apareceu na minha vida porque fui desafiado.
Um casal amigo (o Leandro e a Andreia), que seguiam o projeto, desafiaram-me a fazer pela primeira vez uma corrida de 10 km, a Corrida do Porto de Leixões.
Treinei bastante para conseguir terminar essa prova e penso que não me portei mal – 01h01m11, no dia 9 de setembro de 2018, sete meses após ter iniciado o projeto.
A partir daí a minha vida mudou em relação à corrida.

Quais foram as primeiras dificuldades com que o Hugo Falcão deparou assim que começou a correr?
Quando comecei a correr ainda era obeso e isso fazia com que sentisse bastantes dores nos músculos e nas articulações.
Mas quando nós temos um objetivo em mente, queremos mover montanhas para o realizar.
Talvez essa tivesse sido sempre uma das minhas maiores dificuldades ao longo do tempo.

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E como funciona consigo a motivação?
Depois da experiência que tenho adquirido ao longo dos anos com o projeto, acho que a motivação é um fator muito bem trabalhado.
Quando nos desafiamos a fazer algo, não é certo que a motivação nasça ali naquele momento, mas a verdade é que se virmos os resultados a aparecer a cada passo que dermos, a motivação torna-se constante.
O que eu faço muitas vezes é criar desafios a mim mesmo, metas de quilómetros numa determinada altura, por exemplo, e tento superar. Até hoje não houve um desafio que eu impusesse a mim mesmo que não atingisse e isso deixa a motivação em alta.

O Hugo Falcão sente que o peso foi para si um obstáculo?
O excesso de peso é sempre um obstáculo, quer na corrida, quer na vida quotidiana.
Muitas pessoas desconhecem, mas não é só o aspeto físico que se perde, são as coisas que fazemos, como o simples gesto de nos baixarmos para apertarmos os atacadores e que nos custa bastante porque há uma área de barriga que nos atrapalha. A dificuldade em respirar de uma forma tranquila. O cansaço constante. E tudo isso pode mudar com a nossa mudança de comportamentos.