No último ano, Hélder Rodrigues deixou a sua vida de treinador de futebol para se dedicar às Corridas de Obstáculos, conhecidas como OCR (Obstacle Course Race). Recentemente, alcançou o sexto lugar do Mundial Spartan no seu escalão etário. Estivemos a conversa com ele para entender melhor esta nova categoria do Mundo da Corrida, que ganha cada vez mais praticantes, inclusive em Portugal, onde já há provas quase em todos os fins-de-semana.

Antes de tudo, quem é Hélder Rodrigues?
O Hélder Rodrigues é uma pessoa que gosta muito de desporto, não se considera atleta e gosta de novos desafios, procurando superar-se em cada um deles. O percurso desportivo começou como jogador de futebol nas camadas jovens do clube da freguesia, passando a praticar Atletismo entre 1997 e 2003. Tirou o curso de Treinador de Futebol, exercendo a atividade durante 11 anos, a deixando o ano passado para se dedicar mais às Corridas de Obstáculos. Durante os anos como treinador, e sempre que tinha tempo, fazia mil e uma coisas em desportos diferentes.

E como, concretamente, descobriu a Spartan?
Há cerca de 2 anos e meio iniciei-me nas Corridas de Obstáculos (OCR). Dentro da OCR há vários tipos de corridas e que podem ser muito diferentes entre si, umas mais técnicas, outras mais duras em termos de cargas, etc. A Spartan é a mais conhecida mundialmente, com cerca de 800 mil inscritos por ano. Cedo ouvi falar deste tipo de corridas. A minha primeira foi em Madrid, no ano passado.

E o que consiste a Spartan?
Resumidamente, a Spartan é uma corrida em que, ao longo de um determinado percurso, encontramos vários obstáculos que os temos de ultrapassar. Força, equilíbrio, perícia, memória e agilidade são algumas das capacidades que temos de ter para alcançarmos o necessário sucesso na execução do obstáculo.

Quais são as suas principais regras?
A maioria dos obstáculos tem apenas uma tentativa de execução. Caso não o consigas, a penalização são 30 “burpees”, o que, além da perda de tempo, causa muito desgaste.

Na sua opinião, o que a Spartan tem de mais desafiante?
Uma corrida Spartan tem de ser vista pela sua globalidade, é o todo o conjunto que cria o desafio. Ou seja, nenhuma das diferentes partes que compõe a corrida pode ser dissociada do seu conjunto, não podemos dizer que a corrida é dura ou que determinado obstáculo é complicado. A soma de tudo é que torna a Spartan um verdadeiro desafio.

Corridas de Obstáculos tiveram um “boom” gigante no último ano

Como analisa a modalidade no nosso país? E, já agora, no resto do mundo?
As Corridas de Obstáculos tiveram um “boom” gigante neste último ano. Por exemplo, em Portugal, já há quase uma prova por fim-de-semana. No resto do mundo já fazem parte da cultura desportiva de muitos países, sendo o objetivo tentar tornar a modalidade olímpica. Em relação à Spartan, em Portugal, com inscrições a rondar os 100 euros, não me parece que haja mercado para haver uma corrida tão cedo…

A medalha conquistada por Hélder Rodrigues no Mundial Spartan
A medalha conquistada por Hélder Rodrigues no Mundial Spartan

Este foi o seu primeiro Mundial Spartan?
Foi o meu terceiro mundial de OCR, o primeiro de Spartan.

Foi sexto classificado no seu escalão etário no Mundial. Surpreso com a sua participação?
As minhas expectativas eram a de fazer uma boa corrida, independentemente da classificação final. Tinha treinado bem e queria chegar ao final com a sensação de que me tinha corrido bem. Em termos de lugar não fazia a mínima ideia do que poderia fazer e alcançar, não conhecia os adversários nem o valores de cada um. Apenas tinha a referência do meu 3.° lugar no Europeu e isso poderia indiciar uma classificação no primeiro terço da tabela.

Mas o que significou este sexto lugar?
O terminar a corrida já me tinha deixado com uma alegria imensa face às dificuldades da prova. Terminar era o principal objetivo. Mas foi com imenso orgulho que verifiquei que tinha alcançado o sexto lugar, orgulho por mim e, sobretudo, pelos meus amigos, que me apoiam imenso e sei que ficaram muito contentes com esta prestação.

Foi uma das provas mais complicadas que concluiu na sua carreira?
Pela altitude a que se realizou a prova, pelas temperaturas baixas e pelos obstáculos com água que tivemos que fazer com estas condições, foi sem dúvida a mais difícil que já fiz.

Em comparação, há aqui em Portugal alguma prova que se aproxime do que vivenciou?
Só a distância já era suficiente para não haver comparação… No máximo, as provas têm 10 km. A juntar a isto, altitudes acimas de 2000 metros e neve também não existe. Teríamos que colocar outra montanha acima da Serra da Estrela…

O Mundial fez com que Hélder Rodrigues seja hoje uma pessoa mentalmente mais forte

Acredita que ultrapassou, durante alguns momentos, os seus limites?
Quero acreditar que não, pois isto é apenas um desporto e a nossa saúde tem que estar sempre preservada. Por isso, devemos ter uma mente sempre lúcida e saber ler os sinais do corpo, é algo fundamental. Mas, se passei os limites do que achava que seria capaz de fazer, isso sem dúvida que aconteceu.

Pelo seu relato, a organização poderia ter revisto algumas decisões tomadas, como o obstáculo Swin in the Lake, por exemplo?
Com temperaturas negativas, ter que obrigar os atletas a nadarem em águas geladas não fez qualquer sentido, somos atletas e não guerreiros. Em qualquer desporto não permitem que se nade com estas condições, mesmo com fato isotérmico. Foi uma decisão insensata e deveria ter sido outra. Antes do início já tinham anulado um obstáculo e fechado outro a meio. Este deveria ter sido fechado para bem dos atletas, não favoreceu ninguém.

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Pessoalmente, o que retirou da sua participação deste Mundial?
Qualquer prova que uma pessoa faça acaba por ganhar sempre mais um pouco de bagagem. As provas internacionais acrescentam ainda mais, pois são experiências diferentes e com um grau de exigência maior. Esta, em particular, fez-me ter em atenção a importância da pré-prova, das estratégias para a corrida e, durante esta, nos readaptarmos às condições e mudarmos os nossos comportamentos. Resumindo, este Mundial fez-me uma pessoa mentalmente mais forte e preparado para reagir em condições mais adversas.

Do seu ponto de vista, o que é necessário fazer para que a modalidade ganhe cada vez mais praticantes, tanto no nosso país como no estrangeiro?
O próximo grande objetivo nacional e internacional é federar as Corridas de Obstáculos e tornar desporto olímpico. Com o “boom” que tem havido na OCR, algumas de qualidade “duvidosa”, é necessário organizar e estabelecer regras. E, mais importante ainda, fazer com que as regras sejam cumpridas. Ter um desporto organizado é fundamental.

Termina a sua crónica deste modo: «…as praias do Norte nunca mais me vão meter medo». O Mundial já serviu para alguma coisa…
Pois, a água das praias do Norte é muito fria. Depois de ter nadado em água gelada no Mundial, já não me vão meter “medo”…

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