Após quatro anos consecutivos de participação e quatro vezes finalista, a linha de partida da PT281+, a 23 de julho, ficará privada de um dos seus corredores mais acarinhados, Filipe Conceição, que confessa nesta entrevista que alguns dos momentos especiais da sua vida foram as partidas do PT281+.

Depois de participar e terminar a PT281+ nos últimos quatro anos, o Filipe Conceição vai falhar a prova este ano. Alguma razão especial? Cansaço? Não conseguiu treinar devido a Covid-19?
Em 2019 já tinha ponderado não participar em 2020 por opção. Foram quatro participações muito gratificantes e intensas e decidi fazer uma paragem para dar tempo ao corpo de recuperar. Estava com muitas lesões crónicas a nível dos pés e planeei ter um início de 2020 mais leve em treinos e provas. Depois, com a quarentena, ainda fiquei mais em baixo de forma e ir ao PT281+ seria uma situação kamikaze, o que não quer dizer que não fosse capaz de ser finisher outra vez. A parte mental teria de compensar a fraqueza da parte física. Este ano, o desafio seria ainda mais duro, mas, com tantas participantes femininas, era capaz de andar bem acompanhado durante boa parte da viagem.

Como analisa as suas participações? O que o atleta Filipe Conceição foi aprendendo ao longo dos quatro anos? Por exemplo, erros que cometeu na primeira participação e já não cometeu nos anos seguintes?
Penso que todo as a minhas participações foram positivas, à exceção da terceira, mesmo tendo em conta ter sempre alcançado o objetivo de ser finisher.
Na minha primeira participação, ainda com início em Belmonte, em 2016, foi tudo uma novidade, entre elas a distância, já que o máximo que tinha percorrido tinha sido mais de 160 km nas 100 milhas do OMD na Serra da Estrela. Mas também a utilização do GPS. A organização cedeu-me um equipamento GPS Garmin etrex30 cerca de uma hora antes da partida. Consegui passar o teste, mas também só carregava em dois botões e pouco mais. Tentei não inventar, até correu bem e ainda consegui ajudar companheiros na orientação. Nesta primeira participação, o erro que cometi foi correr que nem um desalmado numa zona corrível em alcatrão, já com mais de 100 km nas pernas. O físico não estava preparado e, aos 140 km, já estava com canelites. A outra metade da prova foi feita a bom sofrer…
Na segunda participação, com partida em Penamacor, em 2017, foi o ano em que estava melhor preparado, mas também o ano mais quente. Houve máximas a rondar os 50 graus Celsius. No Vale da Morte o calor era tanta que os raios solares pareciam navalhas, segurar no telemóvel queimava. Foi o ano dos grandes incêndios e a organização esteve sempre muito alerta. Foi o ano em que fiz o meu melhor tempo e só não foi melhor por ter um desarranjo gastrointestinal e porque fiz um erro bastante grave: praticamente não dormi durante a prova. Nas últimas etapas fui na excelente companhia do meu amigo Constantino Moledo. Progredimos a bom ritmo, mas, na última etapa, num troço em estrada, eu ia ligeiramente adiantado e deixei de o ver. Pensei que ele tinha ido ao WC e que estava a passar pelo mesmo que eu tinha passado. Fiquei ali parado mais de meia-hora… Sentei-me à beira da estrada, a coisa estava demorada, chamei por ele e… nada. Só depois olhei para o GPS e verifiquei que havia um desvio à direita uns metros atrás. Depois lá me meti ao caminho, mas, sozinho e com o sono, não conseguia progredir. Em 20 km o meu companheiro deu-me 2 horas de avanço.


Na terceira participação, com partida em Penamacor, em 2018, fui acompanhar o meu amigo Vlamir Virgílio, um superatleta paraolímpico. Estávamos a fazer uma prova muito boa atá ao momento em que ele se ressentiu de umas antigas lesões nos joelhos. A meio da prova, dentro do tempo limite, em Vila Velha de Rodão, por volta do km 150, ele teve de tomar a difícil decisão de parar para não pôr em causa o grande desafio que tinha no final do ano, a The Last Desert – Antarctica. Tive de seguir sozinho e fui finisher na companhia de outro fenómeno, o Serginho Melo.
Na quarta participação, com partida em Penamacor, em 2019, fiz a prova toda com o meu amigo Serginho Melo. O problema nesta prova foi o calçado errado. Já tinha usado as sapatilhas 40 dias antes numa prova de 144 km (Ultra Maratona Caminhos do Tejo) e tive graves problemas, mas, por casmurrice, voltei a usar e paguei uma fatura elevada. Antes do km 70 já tinha os pés em muito mau estado, com bolhas a arrebentar dentro das sapatilhas. Em Idanha-a-Nova troquei de ténis. Foi muito duro até ao fim. Nesta prova até choveu. Como só tinha corta-vento, ainda passei umas boas horas encharcado.

Qual estratégia utilizou o Filipe Conceição nos quatro anos da PT281+? Sempre a mesma ou foi alterando de ano para ano?
De um modo geral, a estratégia sempre foi muito semelhante, ou seja, progredir na prova de forma constante sem picos de esforço, fazer uma boa hidratação e alimentar-me bem. De ano para ano havia alguns ajustes. Umas vezes para melhor na questão de não correr a ritmos elevados numa prova tão longa, mas também para pior no caso do calçado, com uma má escolha na minha quarta participação. Em termos de descanso tive altos e baixos, umas vezes corria bem, outras vezes não. Também ir na companhia de um alentejano e de um brasileiro que ressonam alto não ajuda… (kkk).

O que sente o Filipe Conceição ao não estar na linha de partida? Há um vazio ou, pelo contrário, sente-se preenchido por esses quatro anos?
Essa pergunta é muito forte. Se tivesse de escolher momentos especiais na minha vida seriam as partidas do PT281+. No meu caso, e por um lado, é um momento cheio de adrenalina mas também de libertação, como se todos os problemas e responsabilidades do dia a dia ficassem para trás. Pode ser comparado a sensação de libertar um pássaro de uma gaiola. Tenho uma inveja boa de todos os que vão estar presentes na linha de partida no Castelo de Belmonte. É uma partida espetacular. Se há um vazio? Se há é porque lá estive quatro anos que me preencheram bastante. Foram experiências únicas que permitiram-me conhecer melhor como pessoa, de fazer grandes amizades com pessoas espetaculares de vários cantos do mundo e que, de outro modo, não seria possível e de conhecer uma bela região, a Beira Baixa, de gente boa.
Tal como na procura do conhecimento, quanto mais se sabe mais se quer saber. Como dizia Sócrates, o filósofo, «Só sei que nada sei». Por isso, totalmente preenchido não estou. Se houver possibilidade, gostava de lá voltar e fazer a prova até ao final com o Vladmir e, se lá voltar, que seja melhor preparado fisicamente para desfrutar bem da viagem.

Continua na sexta-feira

FOTOS: João Delgado