Fernando Ferreira tem 70 anos e terminou a recente Maratona de Lisboa em 3h18m27, novo recorde nacional no escalão M70 (o anterior era de António Belo desde 2015, 3h29m32) e um registo de fazer inveja a milhares de corredores mais novos…

Antes de tudo, poderia falar um pouco como a corrida surgiu na sua vida?
Quando estudava entrei na área de desporto da Mocidade Portuguesa para participar nas provas de corta-mato e pista no Estádio Nacional, entre os 13 e 15 anos. Depois, em 1965, ingressei no Sporting por intermédio de um atleta do clube, meu amigo e companheiro de turma. Durante 3 anos, até 1968, fui treinado pelo professor Moniz Pereira, tendo participado em algumas provas na área do meio fundo.
Mais tarde, já em 1978, voltei a treinar e participar em corridas de rua, sem treinador. A maior prova em que participei nessa altura foi a Meia-maratona da Nazaré, em 1979, com o tempo de 1h16m00.
Entre 1980 e 2014 fui muito irregular no exercício físico, cheguei a frequentar um ginásio, onde fazia cardio, musculação e piscina. Depois comprei uma bicicleta de montanha e treinei em trilhos na serra mas também estrada.
Treinei cerca de 4 meses e participei no Duratrail de 25 km, em Setúbal. Tomei-lhe o gosto e continuei a treinar com mais empenho até que surgiu um convite para ingressar no Grupo Associação Desportiva Tãlentos Team – CDTT.
Foi uma decisão acertada, pois já podia ter mais apoio e treinar acompanhado, até porque é o melhor grupo da cidade de Setúbal, recheado de bons atletas.
Após participar e vencer várias provas de Trail no escalão M65, e sentindo perder alguma velocidade, voltei às provas de estrada.

Quando o Fernando Ferreira correu a sua primeira Maratona?
A minha primeira Maratona foi em outubro de 2017, já com 3 anos completos de corrida. Foi a Maratona de Lisboa, na qual alcancei o primeiro lugar do escalão M65, com o tempo de 3h37m35.
Como era a minha primeira, estava um pouco receoso de fracassar, já que o objetivo era fazer melhor que 3h45m00.
Objetivo conseguido, mas o que eu ambicionava no meu íntimo era o tempo de 3h30. Só que o calor excessivo (ultrapassou os 30º C…), o vento forte contrário e a pouca experiência produziram no meu corpo um desgaste maior para o que me preparara e fui obrigado a reduzir o ritmo nos últimos quilómetros. Participaram na altura 48 atletas no escalão M65, a maior parte estrangeiros. A vitória deixou-me eufórico e confiante que poderia fazer melhor.
Agora que já era maratonista, tinha de dar continuidade e seguiu-se a de Sevilha, a 25 de fevereiro, 3.º lugar com 3h34m34. Depois, quis ir mais longe e seguiu-se a de Paris, a 14 de abril de 2019, com o tempo de 3h30m35, novo recorde pessoal.

No mesmo ano, em outubro, voltei a fazer a de Lisboa, aquela que seria a minha última Maratona na faixa etária dos 65 anos, com o tempo de 3h22m14, mais um novo recorde pessoal.
A recente Maratona de Lisboa foi a minha quinta no total e terceira na capital. Foi a que melhor me preparei, tendo desistido de participar noutras competições nacionais importantes, mas que me iriam desviar o foco da melhor, a rainha das provas do Atletismo. O meu objetivo era vencer e bater o recorde nacional com o tempo de 3h18.

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Eu treino com a orientação de um programa computorizado com sede em Londres, orientado por um corredor médico. Quando treino, os meus dados fisiológicos e os registos dos treinos são enviados pelo Garmin Connect, onde depois são analisados e atualizados. O meu goal era 3h18 e, no dia da prova, foi-me enviada uma mensagem. Após concluída a Maratona, recebi de volta a conclusão do esforço e a distância. O esforço foi ligeiramente menor e a distância um pouco maior, o que é normal derivado aos pequenos desvios dos abastecimentos.

E quais considera ser os seus principais resultados?
Nestes últimos tempos participo em muitas Meias-maratonas, com vitórias no meu escalão etário na maioria delas, como aconteceu por duas vezes na Meia dos Descobrimentos, em Lisboa, mas também mais duas em Cascais, várias na Setúbal Alegro, além de ser o vencedor da última São Silvestre da Amadora. Também tenho alguns triunfos em corridas de 10 km, onde conquistei o título de campeão nacional dos 10 km estrada no ano passado com o tempo de 42m35. Fui ainda campeão nacional dos 10.000m M65 com o tempo de 44m12, em 2018, e vice-campeão nacional 10.000m M65 com o tempo de 41m26, o meu recorde atual.

Mas qual o resultado que o atleta Fernando Ferreira gostaria mais de ressaltar?
De todas estas vitórias, realço esta última, na Maratona de Lisboa, por ser a minha distância favorita, por bater o meu anterior recorde e por ser o mais rápido maratonista M70 do país.

Na terça-feira, Fernando Ferreira aborda como é possível correr uma Maratona em 3h18 aos 70 anos