Ester Alves, um dos principais nomes do Trail nacional, é o rosto visível do “Movimento pela Mudança” (Movimento M), que concorre às eleições da Associação de Trail Running de Portugal (ATRP), agendadas para o próximo dia 28 de dezembro. O descontentamento com o trabalho realizado pela atual direção da entidade que gere o trail nacional é notório…

Quais as razões e propósitos que estão na base da decisão da Ester Alves candidatar-se à presidência da ATRP?
Este movimento surge da necessidade da constituição de uma alternativa face ao projeto existente. O nítido descontentamento e afastamento generalizado dos associados e o descrédito em que a associação está a cair levaram-nos a tomar a iniciativa de nos constituirmos como uma alternativa.  A estes fatores junta-se a total falta de transparência, opções e decisões tomadas pela atual direção.
Sabemos que a tarefa que nos espera será dura e exigente e que, ao longo do tempo, surgirão inúmeras adversidades. No entanto, estaremos unidos e estamos certos de que não serão essas adversidades que irão abrandar a nossa vontade de fazer mais e melhor.
Não revogaremos os nossos deveres, assim como executaremos a nossa missão com grande sentido de responsabilidade e respeito por todo o trabalho desenvolvido.
Cremos na força do trabalho e, assim sendo, colocaremos toda a nossa dedicação, esforço e determinação em prol desta associação, dos seus associados e, acima de tudo, na reivindicação e defesa dos seus direitos.

Ester Alves e a sua equipa se for eleita no próximo dia 28 de dezembro para a ATRP
Ester Alves e a sua equipa se for eleita no próximo dia 28 de dezembro para a ATRP

De uma forma concisa, diga-nos, quais são os princípios e metas que norteiam o Movimento M (leia aqui o seu programa elitoral)?
Mais comunicação, pela promoção da proximidade, do estreitamento e da eficácia das vias de comunicação entre associação e associados.
Mais organização com a implementação de uma proposta de revisão estatutária com vista à modernização, versatilidade e democratização adequando os estatutos à atual dimensão orgânica da ATRP.
Mais (in)formação desportiva através de conceção de políticas internas e da formação de protocolos com empresas externas, transversal a todos os agentes desportivos envolvidos neste processo, sejam atletas, clubes, equipas, organizadores de provas e a própria associação.
Mais e melhores condições das infraestruturas através do trabalho em conjunto no sentido de criar condições para que os atletas e associados possam exercer em pleno e sem défice competitivo a sua atividade.
Criação de delegados/Delegações Regionais, numa primeira fase, e Distritais, numa segunda fase.
Pretende-se no futuro uma otimização de recursos da ATRP:

  • uma maior proximidade dos associados e diferentes organismos
  • uma maior capacidade de cobertura e representatividade nacional da associação
  • realização de reuniões periódicas com os delegados/delegações regionais e delegações das regiões autónomas
  • implementar um Conselho Consultivo que terá como missão principal orientar, auxiliar e aconselhar a direção na solução dos problemas que digam respeito à ATRP
  • promoção de Jornadas Técnicas aos associados
  • desenvolvimento da comunicação interna e externa para melhor otimização de processos, uma clara fluidez na mensagem e imagem da associação nos seus Associados e na sociedade
  • queremos lutar por infraestruturas e melhores condições para que possamos ter mais e melhores soluções para os nossos associados e para a nossa seleção nacional para que estes tenham as condições mínimas para uma preparação adequada.
  • junto dos organismos competentes, tudo faremos para lutar pelos direitos dos nossos associados
  • pretendemos chegar a uma fórmula de seleção mais transparente das provas que integram os calendários desportivos da ATRP, através de métodos, que tem por base a dificuldade, a competitividade, a opinião dos atletas e a avaliação dos juízes ATRP
  • procurar maior comunicação, parcerias e envolvimento da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) junto ao Trail

Podemos saber com que apoios contam, também para levar a cabo o vosso programa?
Após reunirmos com a FPA temos a certeza absoluta que teremos o seu apoio para projetar o futuro do Trail nos próximos anos com uma visão ambiciosa nos Jogos Olímpicos. Prevemos que não exista futuro na evolução da modalidade se a direção da ATRP não aprofundar os laços com a federação.
Iremos também procurar apoios para que os atletas selecionados para representar o país possam treinar nos meses que antecedem os campeonatos do mundo de forma a melhor representar o país.

Que opinião tem a Ester Alves e os membros do Movimento M do mandato e da equipa que agora termina funções na ATRP?
Lastimável gestão da modalidade, falta de respeito pelos sócios. Senão vejamos: desde fevereiro, altura em que foi apresentado e aceite o pedido de sua demissão de um dos diretores desta direção, que esta deveria ter convocado imediatamente novas eleições.
Não o fez, continuou o seu mandato, como se nada fosse. O que é ilegal, pois deveriam ter convocado logo novas eleições.
Os órgãos sociais da ATRP, nomeadamente a Mesa da Assembleia Geral em coordenação com a direção, deviam e podiam ter marcado eleições até 31 de março, pois era esta a data em que o mandato terminava. Foram mais de 250 dias sem marcar eleições.
Agora, saído do nada, marcam eleições em plena quadra natalícia?…
Pergunto como se vai possibilitar aos associados das Regiões Autónomas da Madeira, Açores, Alentejo, entre outras regiões, poderem exercer o seu direito de voto?
Quem é que consegue, num dia de semana, sair do trabalho às 18 horas ou mesmo às 19 horas para poder votar e conseguir chegar em tempo útil a uma mesa de voto? Para não falar dos gastos a que esse esforço implica. Não vejo onde está garantido o princípio da igualdade de direitos, nomeadamente o do direito de voto. Será que temos associados de primeira e de segunda classe? Não somos todos iguais, não pagamos todos a mesma quota?

Na opinião da Ester Alves, quais foram os aspectos mais negativos da equipa liderada por Rui Pinho à frente da ARTP?

  • eleições: marcadas 15 dias antes. Foram ignorados os atletas das ilhas
  • o número de provas para os circuitos é excessivo. Não cumprem o princípio de promoção de saúde, mas o contrário
  • falta de transparência sobre as contas da ATRP e gestão de fundos
  • escassa ou inexistente comunicação com os associados
  • falta de compromisso com os regulamentos das provas. Temos de respeitar os atletas, tanto os que competem ao mais alto nível como os de pelotão, e não podemos mudar as regras à chegada da meta
  • falta de clareza e transparência dos critérios específicos para escolha de provas dos Circuitos e Campeonato Nacional
  • falta de verdade, ética e transparência de trabalho: após o Campeonato Nacional dos Abutres, a direção não foi dissolvida, o que deveria ter acontecido, seguido da convocatória imediata de eleições, pois o diretor Hélder Costa pediu a demissão à assembleia. Foi à Autoridade Tributária e pediu o desvinculamento. A ATRP não atuou. Porque não convocaram eleições?
  • Taça em Melgaço: atletas foram convocados 15 dias antes (ignorância sobre preparação física e falta de respeito para com os atletas)
  • má gestão das seleções: pouco rigor na gestão da época desportiva dos atletas
  • falta de ética profissional quando a ATRP solicitava às organizações benefícios a seu favor para aprovar e certificar provas na Madeira e Açores 
  • falta de clareza sobre a Liga PRO. Como foram selecionadas as provas, por exemplo
  • E outros tantos problemas que iremos expor no debate…

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Mas como a Ester Alves e a sua equipa analisa a recandidatura do atual presidente à ARTP?
Não vemos de todo. Apesar de ter sido feito algum trabalho em prol da associação, ficou muito aquém do desejado. O programa que propõem é algo que deveria ter sido feito nos últimos anos. Se praticamente a mesma equipa não o fez nos últimos anos aquilo que propuseram fazer, como acreditaremos na sua palavra? Foram tantas as falhas e irregularidades que mais quatro anos matará por completo a modalidade. Além disso, sugerimos que seja lida a proposta de revisão de estatutos que foi apresentada pela lista do atual presidente, que não é mais do que preparar uma ditadura virada para o clientelismo.

Apesar da forte adesão que a modalidade tem registado nos últimos anos, a verdade é que o Trail Running é ainda um desporto jovem entre nós, com todas as repercussões que daí advêm. Quais são as principais dificuldades que a Ester Alves e a sua equipa esperam encontrar caso venham a ser eleitos para a ATRP?
Em casa desarrumada é difícil governar. Teremos muitos problemas, principalmente com a implementação nova dos critérios para as provas que irão fazer parte dos circuitos e campeonato nacional. Iremos certamente terminar com a dupla filiação, mas precisaremos de a negociar com a FPA de forma a beneficiar os sócios e a ATRP. Mas também precisamos trabalhar mais próximo dos organizadores para perceber melhor as suas necessidades e criar mais apoios à alta competição. Não basta falar, precisamos agir mais e ser proactivos.

Na vossa perspectiva, o que é que falta ao Trail Running português para que os nossos atletas consigam afirmar-se, regularmente e entre os melhores, nas provas internacionais?
É necessário criar centros de alto rendimento, selecionar os atletas para representar Portugal de forma atempada e dar-lhes condições para treinarem durante os meses que antecedem os campeonatos do mundo. Os atletas devem sentir-se acompanhados pela sua associação e nunca abandonados. Até aos dias de hoje, os atletas de seleção tinham apenas um estágio e eram chamados dias antes da competição. Chamo a isto amadorismo.

E o que falta ao país para que Portugal possa ser um destino preferencial do Trail Running?
Falta uma ATRP que respeite os seus associados, que tenha uma presença forte na sociedade e mantenha uma relação institucional incólume perante as congéneres porque serras e trilhos de qualidade em Portugal não nos falta. 

Imaginando que a Ester Alves vence a eleição para a ATRP e o Movimento M cumpre o mandato. O que é que seria, para vós, um mandato de sucesso no termo da presidência?
Seria dinamizar o Trail enquanto atividade desportiva e de lazer. Intervir de forma mais ativa no desenvolvimento da modalidade com a ambição de elevar a prática desportiva, os valores desportivos, a excelência orgânica e a satisfação dos associados.
Uma visão séria, aliada a uma experiência associativa, com novos objetivos para a construção de um presente e de um futuro comum, respeitando todo o nosso passado mais recente.
Queremos acima de tudo, “devolver a Associação aos seus Associados”!