Emanuel Rolim viveu a quarentena de modo tranquilo, lamentando apenas não ter possibilidade de fazer a fisioterapia em Lisboa. De resto, melhorou a sua flexibilidade e acredita que esta situação será benéfica a todos em termos mentais.

Como passou a sua quarentena?
A quarentena não afetou de todo o meu dia-a-dia, a única mudança que senti foi só a de não poder ir a Lisboa aos tratamentos de fisioterapia. Sei que muitos atletas estão psicologicamente abalados, pois não conseguem ir até à pista/ginásio treinar, mas nós, meio-fundistas, não estamos a sofrer tanto, pois havia permissão para treinar no exterior. Procurando sítios mais isolados, conseguimos pelo menos “rolar” à vontade. No meu caso, sou um privilegiado por viver no campo e ter vários sítios onde posso treinar.

Mas o que foi mais complicado?
O mais complicado passa mesmo pela recuperação dos treinos. Voltei agora a correr e, por vezes, o tendão volta a doer com as cargas que aplico. Sem recuperação e tratamentos adequados é difícil manter a corrida regular, pois tenho de ser eu a controlar em casa. Tenho utilizado a bicicleta como alternativa e assim manter a forma.

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Na sua página do YouTube mostrou alguns dos seus treinos em casa. Foi complicado treinar dias e dias sem correr?
Não, nada mesmo. No início da pandemia ainda estava numa fase que só corria na passadeira anti-gravidade na clínica do Benfica, já tinha adquirido um rolo para fazer bicicleta em casa e usar a plataforma Zwift, por isso consegui manter a atividade física regular. O meu grupo também marcou três sessões de treino através da aplicação Zoom, por isso estamos muitas vezes em contato e isso ajuda a manter a motivação.

O que de positivo o atleta Emanuel Rolim ganhou com esta quarentena?
Melhorei muito a minha flexibilidade. Como tenho muito tempo em casa, aproveitei para fazer sessões mais longas do que habitualmente fazia. Também as sessões com o meu grupo de treino dividem-se entre a flexibilidade e força, mas, na questão da força, não temos acesso a cargas e aí treinamos basicamente com o nosso peso corporal.

E o mais negativo?
A impossibilidade de recuperar a minha forma mais rápido possível por não ter acesso à fisioterapia.

Acredita que, em termos mentais, esta quarentena acabou por fortalecer os atletas, como o prórpio Emanuel?
Acredito que sim, há muitos atletas que já estavam habituados a treinar sozinhos, mas, para aqueles que não estavam, tiveram oportunidade de conhecer melhor o seu corpo e reações do mesmo às adversidades de treinar sozinho. O Atletismo é um desporto individual, apesar de precisarmos de treinar com colegas para puxar sempre mais e evoluir em conjunto. Acho que aprende-se bastante treinando sozinho.

E o que reteve desta quarentena que pretende utilizar na sua preparação futura?
Em modo brincadeira eu digo aos meus colegas que já estou de quarentena acerca de um ano, por isso acho que isto não me afetou de todo. Posso afirmar que passar por uma lesão é idêntico a esta pandemia: não te deixam fazer o que mais gostas, mostrar o teu valor nas competições, descarregar aquela adrenalina ou até saborear a exaustão de acabar uma prova. Por isso, no futuro, vou dar graças a estar novamente a correr, a competir, a sentir estas emoções todas que fazem parte da minha vida.

Como o Emanuel espera retomar os treinos? Já há algum plano, tendo em conta o momento em que estamos a viver?
Neste momento não há um plano específico, só o de manter a atividade física regular e não entrar em exageros. Temos de ter cuidados redobrados para não nos lesionar (por exemplo, eu tenho de controlar estas pequenas dores ao retomar as corridas). De resto, estamos à espera dos dirigentes da nossa federação para saber quais as decisões em relação ao calendário competitivo.