Na corrida que vai realizar no dia 2 de agosto, onde vai correr na areia entre Sines e Tróia, Edgar Matias trouxe um cariz solidário ao seu desafio. Nesta entrevista é abordada também a importância do treino na areia para a evolução na corrida. Mas também os seus cuidados…

Tem como hábito correr na areia?
Atendendo à proximidade da costa e como gosto, costumo correr na areia, principalmente na fase dos treinos de força. Mas logo do outro lado também tenho a serra, da qual também gosto bastante. Posso dizer que nesse aspeto tenho o melhor dos dois mundos à porta de casa.

Quais as principais dificuldades e principias vantagens no seu ponto de vista?
A principal vantagem de correr na areia é poder fazer um bom treino de força sem grande impacto nas articulações, protegendo-me assim para as provas de estrada. As principais desvantagens podem ser a pouca sensação de velocidade. Mas a verdade é que os ritmos também não são o objetivo nessa fase. Devemos também evitar ao máximo o plano inclinado, que poderá trazer outro tipo de lesões, nomeadamente ao nível da anca e da coluna.

O que areia trouxe para a corrida do Edgar Matias?
Essencialmente disponibilidade física. Não sendo um especialista, mas penso que será a grande vantagem da areia. Força e disponibilidade física.

O Edgar Matias já participou na Ultra Maratona Melides–Tróia, por exemplo, uma prova toda ela realizada na areia?
Posso dizer que o que me incentivou a começar a correr foi o sonho de um dia realizar esta prova com partida na minha terra natal. No início de 2017 comecei a treinar com esse objetivo, consegui terminar em 4h04. Em 2018, já melhor preparado, não consegui fazer a prova, pois lesionei-me um mês antes do evento. Finalmente, em 2019, fiz a minha melhor prestação ao terminar em 3h16, alcançando o terceiro lugar da classificação geral. Esta prova tem um grande significado para mim e guardo dela grandes memórias. Fazer aqueles 43 km de areia são quase como uma terapia, uma viagem ao nosso eu, uma verdadeira introspeção. A sensação de chegar ao fim depois de um longo percurso tão duro de areia é única, uma autêntica sensação de vitória pelo simples facto de apenas terminar. Outras recordações que guardo com carinho são o constante apoio da família, dos meus amigos melidenses, a maioria de infância, e colegas de equipa do Grupo Desportivo e Recreativo de São Francisco da Serra, clube que orgulhosamente represento, fazendo assim com que a distância pareça mais curta. O verdadeiro espírito de entreajuda entre os participantes também é de salutar e enaltece a grandeza desta prova. Geralmente, durante e depois desta prova, faço uma reflexão profunda sobre a minha vida e tomo decisões importantes.

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Sobre o seu desafio, haverá diferença entre o areal no percurso? Por exemplo, uma zona com um maior declive na zona próxima ao mar, areia mais fofa do que o normal, etc.
Sim, há uma grande diferença entre o areal ao longo de todo o percurso. A primeira metade vai ser certamente muito dura, até sensivelmente à Praia da Raposa (Pinheiro da Cruz). A areia será menos compacta e o plano inclinado vai atenuando à medida que progredimos para Norte, mas ainda é acentuado naquela zona. A partir daí a progressão será mais fácil, mas depois vem o desgaste acumulado da primeira metade e o que parecia mais fácil deixa de o ser. Outra situação desagradável que por vezes acontece é quando nas praias de Tróia, já sem qualquer inclinação, apanhamos aquela nata mole que também nos dificulta de certa forma a progressão, isto associado a todo o desgaste que já vem de Sines, o que pode ser doloroso. Mas acredito que os astros se vão alinhar e brindar-me com uma areia pelo menos razoável para a conclusão deste objetivo.

Em termos de preparação, como está a decorrer os treinos? Corre agora mais na praia ou continua a correr no asfalto?
Atendendo ao desafio que se aproxima tenho feito agora mais areia. Quem me orienta e faz o plano de treinos já há mais de um ano é o meu amigo e campeão Rui Dolores (NewID Endurance Multisports Coaching), que faz um trabalho de grande profissionalismo. Tenho notado uma grande evolução desde que estou com ele.
Nos treinos dou sempre preferência à terra batida, excepto nos treinos de séries. Assim, protejo de alguma forma as articulações e posso com isso evitar algumas lesões.

Como está a ser a sua semana típica de treino?
As semanas de treino têm sido essencialmente duras. Despois, conciliar os treinos com o trabalho nem sempre é possível. Mas, com força de vontade e espírito de sacrifício, tudo se vai fazendo, mesmo falhando um ou outro treino. Nos treinos bidiários que comecei a fazer para este desafio arranjei a solução de ir a correr para o trabalho e regressar a correr. São cerca de 14 km para cada lado. Quando chego a casa já tenho o treino feito… A minha semana de treinos neste momento conta com 120 km a 130 km e um dia de descanso. No pico dos treinos corri 142 km.

A semana de Edgar Matias com mais volume contou com 142 km, muitos deles na areia
A semana de Edgar Matias com mais volume contou com 142 km, muitos deles na areia

No tempo da pandemia, o Edgar Matias recorreu a areia, a praia, para manter os seus treinos, por exemplo?
Durante o período de estado de emergência não recorri à praia pois evitava sair de casa a não ser para trabalhar. Ainda estive umas semanas em teletrabalho. Durante essa fase fazia essencialmente passadeira. Voltei a correr na praia já em fase de desconfinamento.

Esta corrida tem um cariz solidário. O que poderia falar sobre o seu objetivo?
Assim que surgiu esta ideia, de forma automática veio a vontade de a utilizar também como meio de chegar a quem mais precisa, neste caso os nossos idosos. Atendendo à minha ligação natural a Melides e à Casa do Povo de Melides, e sabendo que em fase de pandemia o Lar de Idosos se vê confrontado com despesas avultadas não programadas, propus à atual direcção da Casa do Povo avançar com este projeto de solidariedade, o qual foi imediatamente aceite. Logo senti uma enorme onda de solidariedade, amigos e empresas com vontade de ajudar das mais diversas formas. Espero que isso se possa refletir numa grande ajuda para o lar. Se hoje somos o que somos é graças aos nossos idosos. Para podermos colher os frutos de hoje foi preciso que eles os plantassem no passado e nada mas mesmo nada nos pedem em troca, apenas amor e carinho. Custará tanto assim fazer apenas isso? Aproveito para partilhar aqui o IBAN da Casa do Povo de Melides e agradecer desde já a vossa colaboração.

IBAN: PT50 0045 6326 40043549154 02

Obrigado!

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