Natural dos Açores, onde começou a aventurar-se na modalidade, Dário Moitoso acaba de revalidar o título de Campeão Nacional de Trail pelo segundo ano consecutivo, numa prova em que, além das partes técnicas, foi a qualidade dos adversários que mais o motivaram. Isto num ano em que, defende, continua a registar-se uma evolução do Trail nacional e dos runners portugueses, aos quais, comparativamente aos estrangeiros, só falta, mesmo uma maior «cultura dos desportos de montanha», a par da «profissionalização».

O Dário Moitoso sagrou-se, no passado fim-de-semana, em Penacova, e pelo segundo ano consecutivo, campeão nacional de Trail. Diga-nos:que sensações teve no momento em que conseguiu revalidar o título?
Foi um sentimento de grande felicidade e emoção! Foram muitos meses de trabalho e dedicação e sem nunca saber que provas se iriam realizar. Poder voltar a competir num campeonato nacional e com uma qualidade de atletas tão elevada torna ainda mais especial a conquista.

Relativamente à prova propriamente dita, foi aquilo que estava à espera, 30 km muito técnicos? Quais foram as principais dificuldades que sentiu?
A prova tinha partes muito técnicas e partes muito rápidas, estava à espera de uma prova difícil não só pelo percurso mas também pela competitividade! As maiores dificuldades numa prova de nível competitivo é tentar sempre perceber os adversários, a sua abordagem ao percurso, tentar gerir as minhas emoções, saber quando arriscar tudo ou não… É sempre difícil gerir toda a parte emocional com a física. Sobre a prova, importa também dar uma palavra de apreço à organização. É sempre muito complicado pôr de pé uma prova como esta, mesmo em circunstâncias normais. Fazê-lo neste cenário de pandemia, onde os desafios logísticos são ainda maiores, garantindo toda a normalidade possível, é um feito!

Foto: Dário Moitoso Facebook
Foto: Dário Moitoso Facebook

Partiu para a prova com uma estratégia delineada? Qual? De uma forma geral, considera que foi a adequada ou a prova acabou por obrigá-lo a fazer adaptações?
A minha estratégia é sempre a mesma para quase todas as provas: achar o ritmo que naquele dia dê para ir até ao final sem grandes quebras. Não me serve de nada estar a vencer uma prova a meio se no fim tenho uma quebra gigantesca. É nisso que me tento focar porque já me aconteceu ficar pelo caminho.

Face ao título conquistado em 2019, quais foram as principais diferenças que encontrou na prova deste ano? É possível dizer se foi mais ou menos difícil?
As principais diferenças foram a competitividade e não estar uma tempestade! Sem dúvida que é mais entusiasmante e difícil com um nível de competitividade maior. Estavam todos ali para ganhar e isso torna mais difícil a gestão de esforço de que falei na pergunta anterior.

Tendo presente de que estamos a atravessar um ano atípico, que avaliação faz da presente temporada?
Faço um balanço muito positivo. Fiz duas provas da Golden Series Ibérica em fevereiro e março (4.° e 3.° lugares) que foram muito competitivas, com grandes nomes internacionais, o que me possibilitou a presença na grande final com um tão ambicionado Golden Ticket (leia aqui). Agora, foi possível somar mais este título nacional. Foi uma época atípica pelo período longo de tempo sem competir. No entanto, acabei por transformar essa situação numa boa oportunidade para treinar e realizar alguns projetos pessoais que estavam sempre de lado por falta de calendário: fiz uma maratona plana a solo e criei uma rota desde o porto da Madalena ao ponto mais alto de Portugal, uma volta de aproximadamente 37 km.

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Ainda no seguimento da pergunta anterior, qual a sua opinião sobre o momento que o Trail português atravessa? O que é possível melhorar, na sua opinião?
Acho que o trail em Portugal está a evoluir muito de ano para ano. Cada vez mais temos mais atletas, muito fortes, e temos vários atletas com grandes prestações no estrangeiro. Há sempre coisas que se podem melhorar, é assim em qualquer atividade! Tem sido uma evolução constante, tanto ao nível da qualidade do desporto como ao nível da sua visibilidade perante a comunidade. Dou como exemplo o facto deste ano ter existido um relato em direto para as redes sociais do Campeonato Nacional!

Falando dos atletas: o que diferencia os corredores de Trail portugueses dos principais nomes estrangeiros? Em que aspectos os atletas portugueses ainda têm de evoluir de forma a chegar ao patamar dos principais nomes da modalidade?
Os atletas e o Trail em Portugal têm evoluído muito e vão continuar a evoluir. A modalidade é relativamente recente no nosso país e é uma das grandes diferenças para o estrangeiro, onde já há uma grande cultura dos desportos de montanha. Outra grande diferença é a profissionalização dos atletas: quase todos os grandes atletas estrangeiros são profissionais e aqui isso ainda não é tanto assim. 

Pensando já na próxima temporada, quais as provas que pensa fazer?
Devido a toda esta incerteza é um bocado imprevisível apontar a provas concretas, mas a primeira que me vem à cabeça é o Campeonato do Mundo de Trail de seleções, que será sempre um dos maiores objetivos!

Foto: Dário Moitoso Facebook
Foto: Dário Moitoso Facebook

Internacionalmente, tem alguns objetivos já definidos? Que provas?
Em continuação à resposta anterior, este ano ia fazer o CCC, prova de 100kms que integra o UTMB, que acabou por não se realizar. Espero que para o ano se realize e que eu possa estar presente! 

Observado pelo próprio, a que é que o Dário Moitoso pode aspirar, em termos de nacionais e internacionais, na próxima temporada de Trail?
Acima de tudo, continuar a desfrutar da corrida e do que ela tem trazido de bom! E vou tentar dar sempre o meu melhor em todas as provas que vá, quer sejam nacionais ou internacionais.