O Campeonato Mundial Artificial Mountain Trail, evento organizado pela One Hundred em parceria com a IDERU LLC, poderá terminar de vez com aquilo ao que hoje chamamos Corrida Virtual. A revolução da corrida online começou…

Concretamente, o que é o Campeonato Mundial Artificial Mountain Trail?
João Andrade, CEO One Hundred
– O Campeonato Mundial Artificial de Corrida Mountain Trail é uma corrida inédita que irá decorrer de 25 a 27 de junho e que irá simular uma corrida de Mountain Trail nas montanhas Dolomitas, nos Alpes italianos. Esta é uma evolução do que conhecemos como corrida virtual, pois utiliza uma tecnologia avançada e que promete revolucionar a corrida online a nível global, uma tecnologia desenvolvida através de uma parceria da One Hundred.
A prova pode ser realizada por corredores em qualquer parte do mundo através do registo na nova aplicação IDERU, disponível para IOS e Android. A grande evolução é ser uma prova original que permite aos atletas, estejam onde estiverem no mundo, poder correr em igualdade de circunstâncias uns contra os outros.

O evento conta com quatro distâncias: 10 milhas (16km com ~1.000 D+), 25 milhas (40 km com ~2.000 D+), 50 milhas (80 km com ~4.000 D+) e 100 milhas (160 km com ~8.000 D+). Estes percursos têm como base os percursos originais da final do World Series da One Hundred que arranca já este ano, nas Dolomitas, em setembro. Todas as distâncias contam com prémios monetários, totalizando £8.000 (cerca de 10.000 euros) para os vencedores masculinos e femininos e classificados até à terceira e quinta posições, dependendo da distância. Nas várias provas serão atribuídas medalhas de ouro, prata e bronze, dependendo do tempo que cada atleta demora para concluir a prova, existindo ainda bonificações para os atletas mais rápidos. 

Como referiram, defendem o Campeonato Mundial Artificial Mountain Trail não é uma prova virtual, mas, como o nome indica, é uma prova artificial. Poderia falar melhor sobre este assunto?
Rodrigo Cerqueira, CEO IDERU LLC
São várias as diferenças entre uma prova artificial e uma virtual. A primeira, e nas provas virtuais, cada corredor corre com o método de verificação que tem ao seu dispor. Alguns usam Smart Watches (como Garmin ou Polar, por exemplo), outros com telemóveis que utilizam softwares de medição, outros até mesmo com relógios convencionais. Nada disso garante uma aferição correta e existe inclusive uma grande margem para erro e fraude.
Nas provas virtuais é impossível saber se o corredor que está inscrito é a mesma pessoa que corre. Não há a possibilidade de os outros corredores e os diretores de prova terem a certeza de que o corredor que se inscreveu para a prova é realmente quem corre naquele momento, pois não existe método de aferição de identidade. Esta é a segunda diferença.

Rodrigo Cerqueira, CEO IDERU LLC e mentor da Corrida Artificial
Rodrigo Cerqueira, CEO IDERU LLC e mentor da Corrida Artificial

Na maioria das provas virtuais, o ranking não é feito em tempo real, pois elas dão liberdade de alguns corredores fazerem as provas utilizando qualquer método offline de registo de distância e tempo. Somente quando o corredor transcreve a sua corrida para uma folha de cálculo ou faz um upload dos seus dados é que pode haver um ranking. Terceira diferença.
Em quaisquer provas virtuais o corredor que corre em terreno plano tem uma enorme vantagem sobre o corredor que corre em elevação, pois nenhuma dessas provas considera a variação de elevação do terreno em que o corredor corre de acordo com a variação do terreno virtual. Esta é a quarta diferença.
Nas provas virtuais, não há como saber se o corredor de fato correu ou andou durante todo o tempo do percurso. Se o corredor apanhou uma boleia, se andou de skate, bicicleta, moto ou qualquer outra forma de locomoção, não há maneira de verificar uma eventual fraude. Esta é a quinta diferença. 

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Sem ser demasiado técnico, como foi criar o algoritmo da plataforma Corrida Artificial? E, concretamente, como ele funciona?
RC
– A formação da base para a criação do IDERU se deu ao longo de 14 anos, após muitos testes, alguns acertos e várias falhas. Inicialmente, quando entendemos o tamanho do desafio, focámos em alguns aspetos, como ter a certeza de que cada atleta realmente correra a distância pretendida na prova, de que não havia fraude e de que não havia troca de identidade.
Depois o algoritmo evoluiu para a transposição do gasto energético num ambiente real em relação ao gasto energético de um determinado percurso artificial. Nessa fase utilizámos a matemática avançada nos cálculos de distância e gasto energético. Mas um dos maiores desafios foi a criação da S.A.R.A. (Scient Artificial Race Algorithm), que é nosso software de inteligência artificial que aprende os movimentos de cada corredor e, no futuro, poderá tornar as corridas mais seguras e ainda mais competitivas.
O IDERU é um aplicativo de corridas artificiais, que simula um percurso remoto utilizando o telemóvel do corredor. Na prática, o corredor faz o seu registo para uma prova artificial. Após receber o convite oficial, ele recebe um código a ser utilizado no momento do registo de entrada da prova. Depois do check-in, o atleta começa a alimentar a S.A.R.A., que, de maneira automática, aprende a “assinatura de movimento” única daquele atleta. No momento da corrida artificial, o corredor escolhe onde vai correr no mundo real e, dependendo do seu ganho ou perda altimétrica e da sua movimentação linear, o seu “avatar” artificial vai também se movimentando. Em provas sincronizadas, todos os corredores disputam a prova de maneira simultânea e existe um forte sentimento de competitividade. Em provas não-síncronas, os dados de cada corredor são colhidos e transpostos para um ranking, que se altera até o último corredor transmitir os seus dados, sendo depois a classificação apresentada no aplicativo.

Quando começaram a pensar nesta prova Corrida Artificial? A pandemia acabou por ditar a sua existência?
JA
– Começámos a explorar soluções para podermos lançar a One Hundred de uma forma ainda mais inovadora quando a pandemia surgiu no início de 2020. Os nossos planos para lançar a World Series estavam comprometidos quando a pandemia, surgiu pois esta coincidiu com as datas de lançamento previstas para os nossos primeiros eventos. Assim, buscámos soluções para ativar a marca e realizar provas que pudessem trazer um estímulo diferente aos atletas, colocando ao mesmo tempo a nossa bandeira na montanha no cenário mundial. A pandemia acabou por ser o fator central e determinante para procurarmos uma tecnologia que nos entusiasmasse a investirmos recursos e a nos focarmos a revolucionar o mundo das corridas virtuais. No mundo “real” lançámos eventos bastante inovadores e estamos orgulhosos de termos conseguido realizar quatro eventos em Portugal e no Brasil e de não termos tido cancelamentos ou adiamentos de provas até à data. A corrida virtual sem aferição de identidade do atleta, classificação em tempo real e conversão de altimetria não nos interessava. Assim, e após falarmos com várias empresas de tecnologia ao redor do mundo, firmarmos essa parceria com a IDERU e juntos traçámos esse caminho para trazer a primeira prova Artificial para o mundo. Havia outras grandes organizações mundiais na corrida para fazer parceria, mas felizmente a One Hundred e a IDERU tiveram um encontro de mentes e hoje estamos bastante satisfeitos com o evento que lançamos.

O João Andrade já correu o percurso fisicamente? O que poderia falar sobre ele?
JA – Já percorri as várias distâncias pessoalmente nas minhas várias visitas às Dolomitas entre 2019 e 2020 junto das nossas equipas locais.
As Dolomitas são um conjunto muito especial de montanhas composto por 18 picos que crescem acima dos 3.000 metros de altitude. As montanhas são tão altas que, perto delas, nos sentimos minúsculos. Este conjunto de montanhas nos Alpes Italianos são um convite para trilhas exuberantes com cachoeiras, lagos de água verde-esmeralda (e azul gelo) e cumes que parecem encostar no céu. Desde que lá fui a primeira vez que as Dolomitas povoam os meus sonhos. Para ajudar os atletas a desbravar as Dolomitas, cadeia de montanhas reconhecida como Património da Humanidade pela Unesco (por conta das suas belezas naturais excecionais!), optámos pelas trilhas mais extraordinárias. Mas as Dolomitas são muito mais do que isso. Não há nada como passar uns dias num hotel confortável, receber umas massagens e uns tratamentos de corpo, visitar museus e locais históricos e entrar num processo de imersão na gastronomia italiana e trentina.

Fotos de João Andrade: Matias Novo