Maratona do Porto

Numa medida sem paralelo em Portugal, a Runporto decidiu divulgar uma lista com os batoteiros da Maratona do Porto. Sendo que, a partir de agora e até por uma questão de credibilidade da prova, garante Jorge Teixeira em entrevista exclusiva ao Corredores Anónimos, quem fizer batota será não só suspenso, como pode ser alvo de processo em tribunal. «Porque isto é crime!», recorda.

Porque decidiram, este ano, revelar os nomes dos atletas batoteiros da prova? O que mudou na vossa posição em relação aos anos anteriores?
A verdade é que nós já vimos a detetar isto há alguns anos, só que, até aqui, nós não tínhamos meios tecnológicos capazes de detetar essas pessoas que não cumprem as regras. Desde logo, até para evitar que, na sequência da nossa desclassificação – e atenção, eu não lhes chamo, pelo menos para já, de batoteiros, mas apenas de desclassificados -, não surgisse alguém a protestar, dizendo que estava na lista errada.
E a verdade é que, dos 128 cavalheiros e cavalheiras que constam da lista de desclassificados agora divulgados, até ao momento nem um veio contestar a presença nessa lista! Quanto ao facto de só nós termos tomado uma decisão destas até hoje, a única coisa que posso dizer é que não estamos arrependidos e isto mostra que os nossos números são fidedignos, são credíveis, temos nas nossas provas exatamente o número que dizemos ter. Já pelos outros, não posso falar… Quanto ao porquê de fazê-lo na Maratona, é, desde logo, porque se trata da prova-rainha, uma prova em que os verdadeiros atletas sofrem muito e que não merecem ser enganados por alguns que se dizem desportistas. Aliás, tivemos um que até se auto-intitulava totalista da Maratona do Porto… Nós já desconfiávamos e este ano tivemos a prova: o tipo corria até aos 21 km e, depois, só voltava a ser visto quando passava a linha da meta, muito cansado… É uma falta de respeito, já não digo só pela organização, mas por todos os que verdadeiramente correm a distância!

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Ficaram surpresos com o número de batoteiros, um total de 3,5% dos finalistas?
Sinceramente, não. Aliás, e como já referi, isto já se vinha a verificar há alguns ano, sendo que, este ano, embora talvez tenha sido um bocadinho mais, a verdade é que a lista de desclassificados ainda podia ser maior… Só que houve alguns que, ainda assim, não conseguiram terminar e passar a linha de meta, tendo desistido. E esses, naturalmente, não constam da lista de desclassificados.

E são muitos ou estão na média do que ocorre no estrangeiro, por exemplo?
Isto acontece em todo o lado! Aliás, por mero acaso, a linha de Metro do Porto não passa no trajeto da Maratona do Porto, porque senão tenho a certeza de que até seriam mais! É, de resto, o que acontece lá fora, em corridas em Espanha e em Londres e que eu próprio já presenciei. Tal como devem ter existido alguns que, inscritos na prova, têm uma ajuda externa, com um amigo a fazer parte do percurso, envergando o mesmo dorsal. E como, por sorte, não foram apanhados ou alvo de qualquer denúncia, eu, que não sei dizer qual deles é o Manuel ou o Joaquim, não os posso simplesmente desclassificar.

«Tivemos 16 câmaras e 22 fotógrafos não-identificados na prova» para apanhar os batoteiros na Maratona do Porto

Como conseguiram identificar os batoteiros? E que é que pensam fazer-lhes, hoje e daqui para a frente?
Tal como já referi, apenas porque desta vez tivemos meios tecnológicos capazes de nos apontar, com exatidão, essas pessoas que decidiram não cumprir as regras. Tínhamos 16 câmaras de filmar ao longo do percurso, 22 fotógrafos que ninguém sabia quem eram… Aliás, este ano, a única coisa que fizemos foi desclassificá-los e divulgar a lista com os nomes, sem chamá-los sequer de batoteiros. No entanto, e a partir daqui, vamos ser mais duros, quer na forma como os designamos, quer nas medidas. Por exemplo, para o ano, todos aqueles que forem apanhados a infringir as regras ficarão impedidos, por um ano, de participar em qualquer prova organizada pela Runporto. Já aqueles casos, como tivemos aqui este ano, que são apanhados a utilizar dorsais de outras pessoas, será feita queixa na polícia, porque isso é crime!… Aliás, tive dois atletas do meu próprio clube, do clube do qual sou presidente, que foram já expulsos por estes mesmos motivos!

Em termos de organização, do ponto de vista puramente comercial, é benéfico ter mais finalistas? Será essa uma das razões por haver poucas provas a revelar o número de batoteiros?
No nosso caso, uma das razões por que decidimos desclassificar essas pessoas e divulgar os nomes tem a ver com o nosso esforço de tornar a Maratona do Porto uma prova cada vez mais credível e em que os verdadeiros atletas gostem de participar. Até porque eu já começava a ouvir, vezes de mais, pessoas a dizerem que não vinham à Maratona do Porto porque era uma batotice, atletas a cortar caminho, outros a fazerem a prova por estafetas ou com dorsais que não eram os seus… Aliás, este ano, tive uma mãe e uma filha que se vestiram exactamente de igual e tentaram fazer a prova exatamente assim, tipo estafetas! Como tal, não estamos minimamente arrependidos de ter feito a famosa lista de desclassificados por esses motivos e vamos continuar a fazê-lo. Isso e muito mais!

Qual foi a tentativa de batota mais usual? E a mais surpreendente?
Tal como já disse, a sorte é que a linha de Metro do Porto não passa pelo mesmo trajeto da Maratona do Porto, senão tenho a certeza de que até seriam mais! Tivemos, por exemplo, um tipo que corre inscrito por um grande clube da zona do Porto e que fez a Family Race por outra instituição, mas com o dorsal da Maratona por baixo da T-shirt. Ou seja, na classificação da Maratona, aparecia com um tempo melhor que o recorde do mundo, 1h16… Foi desclassificado! Isto porque, embora os nossos chips sejam dos melhores que existam, com as câmaras é praticamente impossível enganarem-nos!

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No total, foram desclassificados 94 atletas federados e, estrangeiros, cerca de 20. Surpreendido com os números?
Não. Aliás, o fenómeno não é só aqui e, por essa razão, é que maratonas como a de Londres também já estão a tomar medidas. Em Espanha, por exemplo, a situação é a mesma. Eu lembro-me de ir lá a ver inscritos a tentar fazer o mesmo, pouco depois da partida. A apanharem o metro ou a tentarem cortar caminho…

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Verdadeiros corredores vão demarcar-se dessas pessoas sem princípios

Esta tendência para fazer batota tem vindo a crescer nos últimos anos. Acha que será possível educar o corredor contra a fraude?
Penso que o esforço vai no sentido de minimizar os efeitos destas tentativas. Educar não sei se será possível, até porque o expectável é que estas pessoas tivessem aprendido em pequenos… Agora, acredito que as medidas que nós estamos a tomar, e que são uma estreia em Portugal, vão ajudar a credibilizar a corrida e as provas em que são implementadas. Inclusive, no meio dos próprios corredores, que certamente passarão a demarcar-se dessas pessoas sem princípios. Sim, talvez seja uma forma interessante de educar as pessoas…

Com a experiência deste ano, o que pretendem implementar no próximo ano tendo em vista a diminuição destes batoteiros? Para ano, as medidas serão as mesmas. Sendo que, e como também já referi, todos aqueles que forem apanhados a infringir as regras serão imediatamente suspensos, por um ano, de participar em qualquer prova organizada pela Runporto. Os que forem apanhados a utilizar dorsais de outras pessoas serão alvo de queixa na polícia, porque isso é crime!

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