Atual presidente da Associação de Trail Running de Portugal (ATRP), Rui Pinho decidiu avançar para a recandidatura nas eleições agendadas para o próximo dia 28 de dezembro, com propósito assumido de dar continuidade ao trabalho realizado. Em entrevista ao CORREDORES ANÓNIMOS, o principal responsável por uma modalidade que, nos últimos anos, triplicou o número de associados, faz agora o balanço de «4 anos intensos de trabalho» e «sempre na defesa dos associados».

O Rui Pinho está a terminar um mandato de quatro anos, como presidente da Associação de Trail Running de Portugal. Que avaliação faz desta caminhada que agora termina?
Foi um mandato marcado pelo forte crescimento da modalidade, num contexto em que se procedia à sua regulação a nível institucional, pelo que houve todo um trabalho que teve de ser feito com épocas a decorrer e em que o desafio de equilíbrio entre o que tinha de ser feito, o que podia ser feito e o que a comunidade achava que devia ser feito, foi difícil, mas também recompensador. Triplicar o número de associados, dando a todos os atletas a oportunidade de competir, e dando a todos os organizadores a oportunidade de mostrarem territórios e trabalho feito, foi o resultado do esforço de uma equipa em que todos deram o máximo que podiam em prol dos associados.

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Apesar da forte adesão que a modalidade tem registado nos últimos anos, a verdade é que o Trail Running é ainda um desporto jovem entre nós, com todas as repercussões que daí advêm. Quais foram as principais dificuldades que a equipa que lidera sentiu durante este mandato? E, já agora, o que é que teria feito de diferente?
As maiores dificuldades de uma modalidade jovem, cujo enquadramento legal ainda não estava definido, é ter de conquistar o seu espaço e adaptar-se à evolução da modalidade a nível nacional e internacional. O maior desafio foi ir adaptando os regulamentos ao exigido pelo universo do Atletismo, onde não é fácil uma disciplina nova impor-se. Entre contactos e reuniões com a iTRA, IAU, World Athletics, ISF, WMRA, a nível internacional, e outras por cá com as federações que disputam a modalidade, e posterior enquadramento na legislação nacional e no seio da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), foi um carrossel que em quatro anos nos trouxe até à definição da disciplina no seio do Atletismo, com a publicação da Regra 57 da World Athletics. Foram quatro anos intensos de trabalho, muito de formiga, mas chegámos a bom porto. Hoje a modalidade tem um enquadramento e a ATRP tem uma delegação de competências que foi conquistada com muito esforço e suor, só possível pelo reconhecimento pela FPA da seriedade e independência do trabalho que desenvolvemos.
Quanto à segunda parte da pergunta, acho que ninguém é perfeito e há sempre coisas que podem e devem ser melhoradas. Acredito na melhoria contínua e na aprendizagem com os erros. O que garanto é que em todas as medidas e decisões que tomámos na anterior direção procurámos sempre alcançar a decisão mais justa para todos. E é isso que prometemos continuar a fazer no futuro, defender sempre os associados.

Rui Pinho, presidente da ATRP

Depois de quatro anos de trabalho intenso, que razões o levaram a decidir recandidatar-se? O que é que lhe faltou fazer? E continua a acreditar que será possível concretizar esses projetos nos anos vindouros?
Esta é uma candidatura que reúne elementos da anterior direção, mas que traz pessoas novas com ideias, capacidade, competência e independência para continuar a desenvolver a modalidade.
Há quatro anos candidatámo-nos, quando poucos acreditavam na associação, com o objetivo de afirmar a ATRP como líder da regulação, organizador de competições nacionais e tutela da seleção da disciplina. Conseguimos para Portugal um segundo Campeonato do Mundo nos Abutres, o que teve mais sucesso, mais atletas e maior visibilidade depois de um primeiro no Gerês, corajosamente organizado pelo Carlos Sá, e onde já tivemos árbitros e arbitragem de elementos da ATRP com formação adquirida em tempo recorde. Refizemos o myatrp, uma ferramenta única e elogiada por todos, onde toda a comunidade pode ir construindo a sua história e acompanhar todos os processos com a associação e onde a imprensa pode consultar resultados, listas de inscritos e favoritos a cada prova dos calendários nacionais. Refizemos o modelo competitivo, adotando rankings e espalhando por todo o país provas e eventos.
No meio de tudo isto, iniciámos as bases para alavancar o futuro e continuar o crescimento da modalidade. E pretendemos dar seguimento ao trabalho iniciado, o qual inclui uma revisão de estatutos, que já preparámos e faz parte da nossa proposta. Sendo eleitos, será apresentada aos associados, colocada em consulta pública, discutida e votada, com total transparência e liberdade de voto. Esta revisão dos estatutos é fundamental para reforçar o futuro da ATRP, assente numa estrutura séria, como se exige ao parceiro da FPA para o Trail Running.

Partindo do princípio de que vencerá as eleições do próximo dia 28 de dezembro, diga-nos: se tivesse de eleger cinco metas que não abdica de concretizar, neste novo mandato, quais seriam? E, já agora, de que forma, e com que meios, se propõe atingi-las?
A decisão está nas mãos dos associados e é importante que todos votem e exprimam a sua opinião.
As nossas metas são bem mais de 5 e constam do nosso programa, que recomendo a leitura. Entre elas destacaria, como exemplo, a revisão de estatutos, que enquadra uma série de preocupações de uma parte da comunidade; a formação, que tem de ser potenciada para acelerar o desenvolvimento da modalidade sem beliscar as orientações da tutela para as camadas jovens; a regulamentação, essencial para a estabilidade de competições; a segurança e proteção do meio ambiente, sem a qual não conseguimos o apoio das estruturas locais que são fundamentais para a divulgação e dinamização do território; e a sustentabilidade, estruturada em mais meios para organizadores e atletas para que os melhores possam dedicar-se à modalidade, premiando o seu esforço e a dedicação.
Em termos de captação de recursos para a modalidade, temos várias iniciativas previstas. Acreditamos que a associação tem muito a ganhar com o envolvimento e participação ativa dos sócios, pelo que vamos criar um programa de voluntariado de competências, permitindo aos associados colocar as suas valências profissionais e pessoais ao serviço da associação. Vamos continuar a apostar na criação de grupos de trabalho para temas estratégicos da associação e alargar e implementar representações regionais. Temos patrocinadores interessados em apoiar a ATRP, os atletas e as organizações. Vamos explorar novas formas de captação e diversificar receitas e recursos…

Rui Pinho, presidente da ATRP

Daquilo que conhece, como vê as candidaturas adversárias já conhecidas? Na sua opinião, poderá alguma delas ser uma solução alternativa para o Trail Running nacional? E porquê?
São candidaturas, antes de mais, legítimas, mas de associados descontentes com situações relacionadas essencialmente com os próprios interesses. Em alternativa à apresentação de ideias, decidiram abraçar uma franja que é contra este projeto. As propostas que até agora surgiram ou são impossíveis de concretizar no enquadramento legal português ou internacional, ou são muitas das que já concretizámos.
Curiosamente pedem agora dados que constam de relatórios de atividade enviados por email a todos os associados. Quando tentamos perceber porque não os têm surge a observação: «Retirada da lista de envio de emails por ter declarado emails como spam em janeiro de 2019». Ou seja, não têm porque não o quiseram ter! Isto demonstra que o interesse é uma descoberta recente.
Repito, no contexto legal português, ambas as candidaturas demonstram um desconhecimento preocupante da Lei de Bases do Desporto e do enquadramento legal dos atos de gestão de uma associação face à lei que as rege. A impreparação é evidente e gritante. E isso é preocupante.

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Na sua perspectiva, o que é que falta ao Trail Running português para que os nossos atletas consigam afirmar-se, regularmente e entre os melhores, nas provas internacionais? E já agora, o que é que falta ao país para que Portugal possa ser um destino preferencial do Trail Running?
Os nossos atletas, felizmente, já há muito se destacam entre os melhores, com meios muito inferiores. Criámos para esta época o circuito ProLeague, que distribui prémios monetários em todas as provas, paritariamente, e ainda prémios finais para os primeiros 10 classificados, num valor total distribuído de 30.000€. É o passo importante para a profissionalização e para a internacionalização.
Não nos falta nada para sermos um destino preferencial de Trail Running, como podemos constatar pelos estágios realizados por equipas profissionais de algumas das principais marcas de desporto mundiais, na Madeira, Açores, na Grande Lisboa e mais recentemente com a prova nos Faial. Aliás, o excelente trabalho feito pelos diversos organizadores tem dado frutos na presença de cada vez mais estrangeiros nas provas que por cá se realizam, principalmente no Inverno. Recordo que, já em 2016, no Trail de Lagares, todas as provas foram ganhas por atletas de uma equipa francesa que tinha alguns dos melhores atletas à época e que estagiou na zona, com fotógrafo e jornalista de uma revista da especialidade na comitiva. Ainda há pouco mais de um mês vimos o sucesso que foi a organização do Golden Trail Championship no Faial, em condições muito difíceis para nós, mas quase semelhantes ao Verão para quem nos visitou. A prova ainda hoje gera milhares de interações pelo mundo fora. Portugal tem um território ideal para se poder afirmar como destino de Trail para todo o ano. E está a fazê-lo, graças aos municípios que se empenham, mas principalmente aos organizadores que arriscam e trabalham como poucos em todo o mundo.

Rui Pinho, presidente da ATRP

O ano de 2020 acabou sendo desastroso, também para o Trail Running. E em 2021, como acha que será? E de que forma pode a ATRP suavizar, sobre a sua liderança, os efeitos da pandemia, não apenas na modalidade que lidera, como também nos atletas que dela fazem parte?
O ano de 2020 foi realmente muito difícil para todos no geral e para as modalidades desportivas em particular. Face à pandemia, trabalhámos desde o primeiro dia do confinamento em soluções para a retoma de competições e para que todos pudessem competir em segurança. Entre reuniões com outros parceiros, internacionais e nacionais, com a Secretaria de Estado do Desporto, com a Federação Portuguesa de Atletismo, com a própria iTRA – cujo General Manager é português e fundador da ATRP -, e com os organizadores, tudo fizemos para elaborar guias de segurança e para implementarmos medidas mitigadoras de contágios para nos permitirem organizar. Só assim foi possível co-organizar os Campeonatos Nacionais de Trail e de Trail Ultra Endurance e a Taça de Portugal. Canalizámos para os organizadores os apoios logísticos do patrocinador da ATRP e parceiro de nutrição, apoiámos juridicamente os organizadores nos pedidos de licenciamento e promovemos ainda a realização de testes Covid-19 na final da Taça de Portugal, organizada em condições ainda mais difíceis, em pleno Estado de Emergência. Proporcionámos competição, apurámos atletas para o próximo mundial, fizemos trabalho em condições difíceis e só possível graças aos organizadores e à equipa incansável que me acompanha na ATRP.
Pretendemos continuar este percurso durante 2021, cooperando e apoiando atletas e organizações sempre que possível.

Imaginando que garante a reeleição e cumpre novo mandato, o que será, para si e uma vez chegado ao fim, um mandato de sucesso?
Cumprir as metas a que nos propomos no nosso programa, sem perder o foco no crescimento. Com todos e para todos.

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Uma última pergunta, que pretende ser também um esclarecimento: porquê um ato eleitoral no dia 28 de dezembro, em cima do Ano Novo? Não poderá essa ser uma razão para uma menor participação?
É uma pergunta pertinente, mas que não é da competência da direção da ATRP, é da competência da Mesa da Assembleia Geral. No entanto, já foi respondida pela Ex.Ma presidente daquele órgão em comunicado publicado no site da ATRP.
Pelo que tenho conhecimento, houve diversos adiamentos assentes em várias decisões legais impostas pela pandemia e, depois, a mesa decidiu aguardar o fim da época desportiva para convocar eleições.
A participação será seguramente a maior de sempre e tenho de reconhecer o esforço da mesa para que tal aconteça. Pela primeira vez na história da ATRP e das associações obrigadas a voto presencial, como é o caso, é proporcionada a possibilidade de votar em vários pontos do país. E a escolha da mesa recaiu sobre aqueles onde se concentra o maior número de associados. É único, como são muitas das características desta modalidade, só possíveis porque somos realmente uma comunidade única.
Sobre esta temática, devo dizer que, conforme consta do nosso programa, temos previsto o desenvolvimento de uma proposta de regulamento eleitoral para a associação, a apresentar à assembleia-geral, em respeito com a legislação em vigor e que facilite o exercício do direito de voto de todos os associados, independentemente da sua localização.