Arsénio Santos terminou recentemente o desafio AGIR 360, que correspondeu a correr as nove ilhas açorianas em nove dias, totalizando 745 km. Há cerca de um mês tinha ganho os 100 km da Linhas de Torres Running Challenge…

Antes de tudo, quando surgiu este desafio?
Aquando da minha mudança de residência para a ilha de São Miguel. À medida que conhecia a ilha, apaixonei-me pelas paisagens, pelas pessoas e quis dar o meu contributo.
Pensei num evento em que todos podiam participar e em conjunto pudéssemos chamar a atenção de outras pessoas para uma forma de vida mais saudável: para terem uma melhor qualidade de vida, devem ter uma maior atenção para a forma como se alimentam, uma maior atenção para a prática de exercício e ter mais respeito pelo meio ambiente de forma a preservarem a natureza luxuriante destas ilhas.

E de onde surgiram estes 700 km e não 600 ou 900 km, por exemplo?
711 km é a soma dos perímetros calculados e planeados para as corridas nas 9 ilhas açorianas. Acabei por fazer 745 km porque quis aceder a todas as solicitações para visitar instituições, particulares e nem sempre estas estavam no percurso.

“9 Ilhas, 9 Dias, 700 km”. Foi mais complicado do que inicialmente ponderou, principalmente depois de ter ganho os 100 km da Linhas de Torres Running Challenge cerca de um mês antes?
Sabia da exigência deste desafio e preparei-me, fisicamente e mentalmente, para ele pois, no AGIR 360, teria que fazer uma prova de 100 km quase todos os dias. Ao mesmo tempo, teria de lidar com o cansaço acumulado de todos os dias apanhar um meio de transporte (avião ou barco) para me deslocar de ilha para ilha, mas também talvez o fator mais incapacitante de todos: lidar com o sono! Não havia tempo suficiente, entre viagens e corrida, para dormir. Qualquer minuto que pudesse encostar a cabeça começou a ser um luxo.
Digamos que os 100 km da “Linhas de Torres Running Challenge” foi uma boa preparação para o AGIR 360.

Poderia resumir o que foi esta experiência em termos gerais? Momentos mais complicados, experiências vividas, momentos que ainda hoje recorda, etc.
Se tivesse que resumir o AGIR 360 numa única palavra seria emocionante.
Não houve momentos complicados, sabia que tudo tinha sido pensado e calculado com pormenor. O que poderia colocar por terra o evento seriam situações que, nem eu nem ninguém, tinha controlo sobre elas, como por exemplo o cancelamento de voos devido ao mau tempo ou uma lesão imprevista. Felizmente não houve quaisquer problemas, não houve atrasos de voos, nem atrasos nas travessias marítimas, não houve mau tempo e não houve lesões.
O que houve foi muita adesão, objetivos atingidos, pessoas motivadas e a superarem-se, partilha, convívio e uma mensagem que julgo que ninguém esquecerá:  “Nunca Desistas”.

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O que poderia falar sobre o que encontrou em cada ilha? Cada ilha é um mundo totalmente diferente entre elas?
Cada ilha tem particularidades próprias e proporciona experiências distintas. Masa ideia de serem “um mundo totalmente diferente entre elas” não é a melhor forma de as definir. Digamos que o conjunto de particularidades de cada ilha complementam-se e dá lugar a um todo, os Açores. 
O que encontrei em cada ilha foi sem dúvida o “bem receber”, fui acarinhado do Corvo a São Miguel das mais variadas maneiras possíveis, quer por entidades públicas, quer por entidades privadas, quer por cidadãos preocupados e empenhados em apoiar-me. 
O carinho e o incentivo que tive durante estes 9 dias, nas 9 ilhas, é indescritível. Acho que o melhor exemplo disso é o facto de, nos 700 km, nunca ter corrido sozinho, fazendo do AGIR 360 um evento desportivo de todos.

Qual a ilha que deu mais trabalho e mis prazer ao Arsénio Santos correr?
Se entendermos “mais trabalho” como a ilha com mais quilómetros para correr, combate físico e mental, direi que foi sem dúvida São Miguel. 
Também em termos organizativos São Miguel foi a ilha que deu mais trabalho para organizar e coordenar as inúmeras entidades públicas e privadas que apoiaram o evento. 
Não há uma ilha que eu tenha tido mais prazer em correr em detrimento de outra. Lembro com carinho o Corvo por ter sido a primeira ilha e a felicidade que senti quando finalmente percebi que o AGIR 360 estava mesmo acontecer, após um ano de adiamento por causa da pandemia Covid-19.

Ficou surpreso com a paisagem de alguma em particular?
A beleza das paisagens açorianas é indescritível… Correr no meio do nevoeiro e, de repente, ele desaparece, dando lugar a um misto de azuis vindos do céu e do mar contrastando com um misto de verdes das paisagens e com a visualização de outras ilhas no horizonte, é algo arrebatador. 

Em termos de Trail puro e duro, qual ilga destacaria o corredor Arsénio Santos?
Devido ao tempo que tinha entre os deslocamentos, a possibilidade de ser apoiado e a facilidade de alguém poder-me acompanhar, o evento fez-se 99% em alcatrão. Mas todas as ilhas estão repletas de lindas paisagens e trilhos que percorrem todo o verde. Qualquer uma poderá ter provas de Trail de grande qualidade.