André Pereira confessa que não levou nenhuma estratégia para a Portugal 1001 – Real Lendário, prova que acabou por ganhar após percorrer 1001 km em 14 dias.

Poderia fazer um curto resumo de como foram as suas etapas?
Não levei comigo nenhuma estratégia, o conceito da prova em si era novidade para todos. Sabia apenas que o facto de conseguir fazer uma  recuperação rápida de um dia para o outro seria algo crucial no desenrolar de cada etapa. Senti-me muito preso na primeira etapa, mas daí em diante mantive um ritmo estável até à 6.ª etapa, etapa essa que serviu para gerir o meu esforço. Voltei a aumentar a passada até à 10.ª etapa, conseguindo sair vitorioso por 8 vezes. Daí em diante foi fazer um resto de prova de forma a gerir as mazelas musculares que surgiam, chegando ao final da 14.ª etapa com 10 triunfos.

Como trabalhou o aspeto mental em cada etapa? Por exemplo, acordar no segundo dia e pensar que ainda faltavam 900 km pela frente…
O aspeto mental de cada etapa foi sempre pensar na presente etapa que fazia, nunca entrei em ansiedade de querer terminar rápido ou mesmo de pensar se faltaria muito ou pouco para chegar ao fim. Fui a completar uma etapa de cada vez, com a cabeça bem assente de acordo com a sua exigência, mas com o foco contínuo que conseguiria atingir o  objetivo de chegar ao fim, acreditando sempre no trabalho de casa (treino) que havia sido feito. 

Momentos mais marcantes da Portugal 1001 para o André Pereira?
Apesar de terem sido dias muito intensos, de desgaste contínuo, tive imensos momentos marcantes e pelas coisas mais simples. Mas  o facto de a organização ter assinalado o km 500 com uma calorosa recepção veio dar outro ânimo aos atletas. Por fim, a chegada a  Sagres foi muito emotiva e o realizar de um sonho.

E os mais angustiantes?
O momento mais angustiante foi na 12.ª etapa. Faltavam cerca de 15 km para chegar à meta, debaixo de um calor tórrido e abrasador e longas retas em asfalto para palmilhar, outras em terra batida onde não havia uma ponta de sombra, com as reservas de água em baixo. E a pouca água que havia estava à temperatura ambiente… Foi uma situação muito difícil de gerir.


Na sua opinião, qual a etapa mais interessante em termos de beleza natural?
Todas as etapas tiveram a sua parte paisagística muito interessante, adorei todas elas, mas a mais bonita foi sem dúvida a 2.ª etapa, que ligou Vila Real ao Carvalhal (Castro Daire). Passar na zona do Douro Vinhateiro em época de colheita é de uma beleza ímpar.

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E a mais complicada em termos desportivos?
A etapa mais complicada foi a 4.ª etapa, Gouveia-Fundão. Foi a etapa com mais altimetria, onde subimos ao Folgosinho e seguimos para Manteigas com subidas e descidas muito íngremes. Depois a segunda parte da etapa, subindo o Vale Glaciar de Manteigas até às Penhas da Saúde, onde nos deparámos com uma brutal descida com cerca de 8 km, uma descida muito difícil devido à gravilha solta.

Evidentemente que, numa prova como a Portugal 1001, o relacionamento entre os atletas é fundamental. O que poderia falar sobre esse aspeto?
Atendendo ao número de atletas, houve sempre um ambiente muito familiar entre atletas e organização. Geralmente, nas horas de refeição, sobretudo o pequeno-almoço e jantar, era sempre um ponto de encontro entre todos os atletas. Entre os mais e menos velozes, sempre existiu um enorme respeito entre todos. O desejo de alcançar Sagres era recíproco entre os atletas.

A sua prova foi concluída muitas vezes em solitário ou teve acompanhamento de outros atletas em grande parte das etapas?
A minha prova foi, maioritariamente, feita a solo, diria cerca de 90%. Cada atleta tem o seu ritmo, a sua capacidade de sofrimento e gestão de cansaço. Numa prova com esta dimensão é impossível haver dois atletas similares. Por exemplo: se um atleta faz uma etapa de 70 km sempre em esforço apenas  para acompanhar o parceiro, o seu desgaste é muito superior, podendo não conseguir recuperar o suficiente e entrar em sub-rendimento nas etapas seguintes.

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