Rui Martins Ultra-Maratona

Rui Martins, treinador do Centro de Marcha e Corrida de Odivelas, pretendia correr 100 km em 200 metros num local próximo da sua casa, o que não aconteceu devido a dois indivíduos bêbados.

Que horas acordou para fazer o seu desafio, de correr 100 km em 200 metros? Como foi a sua preparação?
Acordei às 3 da manhã. Na verdade, a minha preparação para este desafio, mesmo em quarentena, nunca parou, apenas tive de me adaptar a esta nova maneira de viver. Mas jamais parei.

Como decorreu inicialmente o desafio e como foi a sua gestão?
Eu tinha os meus objetivos e, como não deixei de treinar, embora em casa, a ideia era fazer os tempos e quilómetros das provas que pretendia fazer pré-pandemia. Por exemplo, este fim de semana, tinha as 24 horas de Mem Martins, onde, no ano passado, consegui ficar em 1.º lugar sénior e 4.º lugar na classificação geral.
O circuito agora era de 200 metros, num jardim com inclinação em que fazia 100 metros a descer e 100 metros a subir, sempre em terra e relva.
Tinha o carro e uma caixa de água, onde tinha o meu abastecimento. Numa das pontas, ou retornos, havia uma ponte que passa por cima de uma autoestrada. Quando já tinha 5 km, apareceram dois homens sentados na ponte com dois cães que, quando me viam, iam ter comigo.
Evidentemente que ficava com medo cada vez que eles vinham até mim e por isso deixava de correr porque não sabia a reação deles à corrida. Dava a volta e, a cada vez que passava no retorno, tinha de andar ou mesmo parar.
Ou seja, tive de abordar, de uma forma muito cordial, os dois, explicando o que estava a fazer e se era possível segurarem os cães ou se poderiam mudar de lugar.

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Reparei que estavam a beber e de imediato começaram com insultos e a quererem chegar-se a mim, procurando alguma resposta mais brusca da minha parte. Virei costas e continuei a fazer a corrida.
Cada vez que passava por lá era insultado e mal tratado. Comecei a ouvir os estores a abrir das casas e senti que estava a começar a incomodar as pessoas, pois eram cerca de 4 e tal da manhã.
Resolvi alterar o percurso e sair da relva, ir para a estrada e assim fazer uma volta ao quarteirão, volta essa de 500 metros, sempre a passar no meu abastecimento.
Eles repararam que eu tinha alterado o meu percurso, mudaram de local e sentaram-se na caixa onde tinha o abastecimento de água. Quando reparei nisso, procurei não parar no mesmo para não responder ao que eles procuravam. Decidi fazer outra volta para ver se eles tinham ido embora, mas a verdade é que não estavam com vontade de sair do local… Ou seja, acabei por parar com o desafio, o espírito e a vontade que devemos ter para fazer algo deste género já não estavam presentes. Terminei o desafio com 20 km e 2 horas de corrida.

É já no proximo sábado que vou mais uma vez tentar atingir os 3 dígitos.Vai ser no jardim em frente a minha casa com um circuito de 200 metros, em que um lado sobe e do outro desce 😉 Vou tentar partilhar esta minha aventura fazendo diretos ;)Rui Martins EnduranceCentro de Marcha e Corrida de OdivelasAssociação Vale Grande AtletismoGráfica IprintMedicina Dentária Desportiva Egas Moniz #ultrarunner #ultramaratonista #ultra #amocorrer #centrodemarchaecorridadeodivelas #odivelascidadeeuropeiadodesporto2020 #beactive

Publicado por Rui Martins Endurance em Quinta-feira, 30 de abril de 2020

Compreende a atitude dos indivíduos bêbados que o impediram de correr 100 km em 200 metros? Encontra um mínimo de lógica?
Eu não posso pedir a ninguém que saia seja de onde for porque é um espaço público. A minha abordagem foi de entenderem o que estava a fazer e pedir, simpaticamente, para prenderem os cães ou irem para outro local onde pudessem beber à vontade, existindo muitos locais na zona igual ou mais resguardado do que aquele para se sentirem tranquilos.
Senti que a bebida foi a grande influenciadora da atitude, mas também acho que já vem das pessoas… Se eu entendo? Sinceramente, não, a bebida não pode ser uma justificativa de tudo.
Repito: não sou dono do jardim, é um espaço público, mas a atitude que tiveram não foi justificativa do que, simpaticamente, lhes pedi.

Ou seja, ambos procuravam provocar uma confusão?
Claramente, confusão e conflito. Eu nunca responderia a tal coisa, mas, fora essa confusão, sentia-me muito mal em saber que estava a incomodar as pessoas, pois o barulho dos estores a abrir acabou por ser demasiado.

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Foi muito complicado desistir devido a tudo o que ocorreu?
Sim, tentei resistir ao máximo, mas o espírito para continuar foi-se perdendo. Senti que, para mim, já estava a ser fisicamente um risco.

O que mais custou? Não terminar o seu desafio ou saber que, de certo modo, os intervenientes acabaram por conseguir o que queriam?
Este desafio sempre posso fazer quando quiser, o que mais custou foi ter de desistir por causa de pessoas que não têm objetivo nenhum na vida. Eu gastei dinheiro no abastecimento, por exemplo, algo que terei de fazer novamente.

O abastecimento de Rui Martins para fazer os 100 km nos 200 metros, caso não o fosse impedido por dois indivíduos bêbados
O abastecimento de Rui Martins para fazer os 100 km nos 200 metros, caso não o fosse impedido por dois indivíduos bêbados

Para quando uma nova tentativa?
Vou voltar a fazer em breve, até porque quero fazer os 100 km programados. Acredito que ainda esta semana. Em moldes diferente? Isso logo vou decidir, mas sempre em circuito.

E se reencontrar os seus amigos bêbados, que o impediram de correr os 100 km em 200 metros? O que espera fazer?
Se voltar a cruzar-me com eles e estiver na mesma situação, vou alterar o percurso logo no início e chamar as autoridades. Já contactei com as mesmas e, muito simpaticamente, pediram-me para, quando realizar novamente o meu desafio, os avisar para assim fazerem a ronda no local.