Ruben Costa correu pela terceira vez a Corrida das Fogueiras, mas foi, pela primeira vez, pacer de uma prova. Inicialmente receoso, a verdade é que viveu uma experiência que deseja repetir.

Após ter feito a Maratona da Europa, em Aveiro, fui abordado com a seguinte pergunta: «Queres fazer de pacer dos 4m30/km na Corrida das Fogueiras?».

Nesse momento o meu primeiro pensamento foi: «Ser pacer? Mas eu nunca fui pacer nem sei qual será a sensação…», «Será que aguento os 4m30/km nas Fogueiras?, o percurso é traiçoeiro…».

Dei por mim a ponderar durante uns dias mas, no final, aceitei o desafio. Certamente iria ser uma experiência interessante, única e inesquecível. Resumindo: correria pela terceira vez nas Fogueiras e a primeira vez como pacer numa corrida de estrada após ter começado a correr em 2015.

Faltavam menos de 2 meses mas havia tempo suficiente para me preparar. Depois da Maratona da Europa apenas descansei 5 dias. Não podia folgar mais.

A 5 de maio comecei sem demoras os treinos, muito motivado para estar bem preparado no dia 29 de junho. Juntamente com o meu amigo Carlos, que me convidou para ser pacer (ele próprio pacer dos 4m00/km), começámos juntos a treinar, quase sempre de manhã bem cedo, às 6h15.

Fiz um total de 34 treinos. Foram treinos de apenas corrida, corrida progressiva e treinos de recuperação, mas também treinos fartlek, com 1 quilómetro rápido (abaixo dos 4m00) e 1 quilómetro lento. Estes treinos revelaram-se muito importantes, não só para preparar o corpo face à velocidade/resistência, mas principalmente porque o percurso destes treinos apresentava uma subida que coincidia com o quilómetro rápido do fartlek e assim ajudava a simular um pouco uma determinada zona do percurso das Fogueiras.

Como já tinha a experiência de ter sido pacer na corrida TSF, o Carlos alertou-me sobre o que era ser pacer, o que os outros corredores esperavam de nós e também como nos colocavam pressão para não falharmos em cada quilómetro do percurso. Seria uma grande responsabilidade porque iria ter muitos olhos postos na bandeira que levaria as costas, um misto de ter de procurar manter o ritmo e, ao mesmo tempo, ter de motivar os corredores.

Ruben Costa fez a sua estreia como pacer
Ruben Costa fez a sua estreia como pacer

Nos últimos dias antes da prova pensei muito sobre que ritmos fazer face ao longo do percurso, que já é igual há 39 anos. A experiência do Carlos ajudou a definir a estratégia: tinha de fazer à volta dos 4m20/km até ao quilómetro 6 porque, a partir daí, o percurso seria mais complicado, não só porque era em subida mas, como sempre, o muito vento iria naturalmente fazer baixar o ritmo. Após o quilómetro 12 em diante o percurso é praticamente a descer, por isso o ritmo seria facilmente controlado e a missão cumprida. Isto tudo na teoria, claro…

Chegou a hora de ser pacer…

Assim o tão distante dia 29 de junho rapidamente chegou e, com ele, o nervosismo e a ansiedade aumentaram. Nem em uma Maratona me senti tão pensativo e preocupado, tal era a responsabilidade em cumprir o proposto.

Fui em direção à zona da partida e comecei a preparar a colocação da estrutura que suportava a bandeira, uma espécie de mochila. Embora toda a estrutura não fosse muito pesada, sentia um enorme peso às costas. Com alguma timidez lá coloquei a bandeira e segui para o aquecimento. Os olhos e comentários dos corredores que por ali estavam ficaram logo focados em mim. Alguns abordavam-me, um pediu mesmo para tirar foto.

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Nesse momento encontrei-me com os outros pacers, o Carlos nos 4m00/km, o Nuno nos 5m00/km e o Ricardo nos 5m30/km. Juntos fizemos o aquecimento. Vários eram os corredores que nos abordavam e comentavam em voz alta. Seria a primeira vez que a Corrida das Fogueiras teria pacers e isso era algo que não passava despercebido. Após o aquecimento, lá fui para o bloco de partida onde procurei ir o mais para a frente que me permitiram.

Eram 21h30 quando foi dada a partida. Lá iniciei a missão dos 4m30 ao quilómetro. Nos primeiros km o percurso é um tanto apertado e por isso com alguma dificuldade fui furando entre os vários corredores que seguiam à minha frente. Alguns deles, ao verem a bandeira, colavam-se logo a mim.

Fui dizendo e avisando que não ia a 4m30/km, que até ao quilómetro 6 iria apertar o ritmo para compensar o percurso em subida que viria depois. Dava para ir falando com um ou outro corredor e, de vez em quando, olhava em redor e via que estava rodeado de corredores muito atentos ao meu ritmo. As pessoas que estavam nos passeios, quando viam a bandeira, comentavam e apoiavam ainda mais os corredores. Era uma sensação engraçada, confesso.

Chegámos à zona do percurso mais complicada… Avisei os corredores disso, mas percebi que muitos deles não precisavam de aviso porque conheciam bem o percurso. Aí o vento era muito forte e a bandeira fazia-me abanar um pouco. Houve momentos em que o vento era tão forte que parecia que a bandeira saltaria das costas. Sentia-me bem em termos de respiração e as pernas estavam a responder igualmente bem.

Chegado ao quilómetro 13 era agora momento de desfrutar até ao final, já que o percurso não apresenta mais nenhuma dificuldade. Ia gerindo o ritmo e também puxando pelos corredores e pelos populares. Já dentro do último quilómetro disse a alguns corredores que me acompanharam quase desde o início para darem o máximo e atacarem para assim alcançarem o melhor tempo possível.

Na reta da meta vejo o tempo final no pórtico da chegada e penso: «Missão cumprida!». Consegui o que me comprometi, terminar dentro do tempo planeado e no ritmo que a bandeira que me foi confiada. Alguns corredores agradeceram, disseram «Obrigado pela ajuda» ou «Bom trabalho» e até tiraram fotografias comigo. No final, cruzei a meta com uma sensação incrível de dever conseguido.

Se inicialmente estava reticente em fazer de pacer, no momento em que se deu a partida o nervosismo desapareceu e encarei com muita seriedade e sentido de responsabilidade a confiança que a organização depositou em mim. E mais do que isso, a confiança com que os corredores olharam para mim e seguiram as minhas passadas ao longo dos 15 quilómetros. Foi realmente muito bom e agora digo sem medo que repito novamente sem qualquer hesitação. Foi um prazer fazer equipa de pacer com o Carlos, Nuno e Ricardo nesta única e inesquecível 40.ª Corrida das Fogueiras.

Pacer ou não no próximo ano, certamente voltarei.