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Moniz Pereira acompanhou mais uma medalha de ouro olímpica de Portugal na sua vida, desta vez de Fernanda Ribeiro, nos 10 mil metros nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1986 (conquistou ainda a medalha de bronze em Sidney2000, na mesma distância). Este é o penúltimo dia d´«A Semana de “Moniz Pereira – Vida e Obra do Senhor Atletismo”», livro editado pela Guerra & Paz.

 

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FC: «Chegámos, então à medalha de ouro de Fernanda Ribeiro.»

MP: «Bom. Ela, antes da partida para Atlanta, demonstrara estar em grande forma nas competições em que participou. Assim, batera o seu máximo pessoal dos 1500 metros, em Lausana (4.07,09 s), conseguindo o melhor tempo europeu, e batera o recorde nacional dos 2 mil metros em pista coberta (5.37,34 s); também havia sido campeã da Europa de 3 mil metros em pista coberta, com recorde nacional (8.39,49 s); ganhara os 5 mil metros de Helsínquia (14.52,66 s); fizera nesta mesma distância em pista coberta, o segundo melhor tempo mundial de sempre (15.06,62 s) e, em 5 de Julho, em Oslo, venceu brilhantemente os 5 mil metros, com o melhor tempo mundial do ano, 14.41,07 s. Na sua eliminatória dos 10 mil metros dos Jogos, disputada às 21 e 35 do dia 27 de Julho, Fernanda Ribeiro classificou-se, com facilidade, para a final, ao ser terceira, com 31.36,32 s.
Para a final, o professor João Campos combinou com o técnico espanhol de Julia Vaquero que, se o andamento da corrida não fosse rápido, aos 6 mil metros as duas atletas ibéricas tomariam o comando.
Como do sexto para o sétimo quilómetro o andamento baixou (3.12,22 s), a espanhola foi decididamente para a frente, correndo o quilómetro seguinte em 3.08,18 s, o que desbaratou o pelotão. Este foi ficando cada vez mais pequeno, até ficar reduzido a três atletas: a etíope Gete Wami, campeã do mundo de crosse, Fernanda Ribeiro e a chinesa Wang Junxia, a tal do “sangue de tartaruga” (!?) e que, até então, não fora vencida nesta distância. Na derradeira volta, a chinesa atacou, mas Fernanda respondeu bem, não perdendo mais do que 10 metros e começando a recuperá-los a 200 metros do fim, correspondendo à grande gritaria que os portugueses faziam nas bancadas.
O entusiasmo atingiu o rubro quando a portuguesa ultrapassou a chinesa a 50 metros da meta, terminando a corrida com um novo máximo Olímpico: 31.01,63 s.
A nossa campeã realizou uma prova muito inteligente, à média de 3.06,16 s por cada quilómetro, e em velocidade progressiva, pois a sua segunda légua (15.25,80 s) foi mais rápida do que a primeira (15.35,83 s). Os últimos mil metros foram corridos no notável tempo de 2.49,99 s e a sua última volta em 63,54 s.

Vejamos a classificação final das oito primeiras:

1.ª) Fernanda Ribeiro, POR, 31.01,63 s;
2.ª) Wang Junxia, CHI, 31.02,58 s;
3.ª) Geti Wami, ETI, 31.06,65 s;
4.ª) Derartu Tuhu, ETI, 31.10,46 s;
5.ª) Masako Chiba, JAP, 31.20, 62 s;
6.ª) Tecla Laroupe, KEN, 31.23,23 s;
7.ª) Yuko Kawakami, JAP, 31.23,23 s;
8.ª) Julia Negura, ROM, 31.26,46 s.

A cerimónia da entrega das medalhas realizou-se depois das onze da noite, mas os portugueses não saíram do estádio enquanto a bandeira nacional não subiu ao mastro de honra e cantaram com grande alegria o hino nacional. No final desta feliz noite, Fernanda Ribeiro disse aos jornalistas: “Estou muito feliz. Era a medalha que me faltava. Estava muito descontraída, passei a tarde a descansar e só na hora da corrida senti um nervoso miudinho. Na última volta nunca desanimei, pois pensei que, pelo menos, a medalha de prata já era minha.”
Por sua vez, o meu colega João Campos, seu treinador, declarou:
“Ela estava mais calma do que o costume e por causa dessa calma eu é que fiquei nervoso. A minha preocupação é que se o andamento fosse lento ela fosse comandar a corrida. Para isso contactei o treinador de Julia Vaquero e combinámos que as duas atletas se ajudariam mutuamente a partir dos 6 mil metros. A espanhola foi extraordinária na ajuda que deu para desgastar as adversárias.”»

FC: «Mais um dia de glória para o atletismo português que tu viveste emocionado.»

MP: «Depois desta grande vitória, o atletismo feminino português, com Fernanda Ribeiro (1.ª), Carla Sacramento (6.ª nos 1500 metros), Manuela Machado (7.ª na maratona), Teresa Machado (10.ª no disco) e Susana Feitor (13.ª nos 10 km marcha), superou largamente o masculino e, numa classificação por pontos, seria 18.º entre 173 países presentes, com 13 pontos, à frente da Polónia (11), Quénia (11), Finlândia (10), Suécia (8), Canadá (8), República Checa (8), Austrália (6), Noruega (6), Espanha (4), Hungria (4), Bulgária (4), Áustria, Argentina e Brasil.»

FC: «Era isso que as pessoas em Portugal deviam ver.»

 

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