Nuno Miguel Ferreira Maratona de Berlim

Vinte e nove de Setembro de 2019. Depois de muitas horas, dias e meses de dedicação e sofrimento, chega finalmente o dia da Maratona Berlim. Para Nuno, é também o momento da concretização de um sonho há muito alimentado… embora ainda falte cruzar a linha de chegada.

Impulsionado pelo sonho, eis que chegou o dia e o momento de Nuno Miguel Ferreira ouvir o tão desejado tiro de partida da Maratona de Berlim. Um desafio que o jornalista do Record enfrentou de ânimo renovado, fruto do apoio vindo do muito público presente, mas também da esperança transmitida pela filha Inês.

O momento da partida

Aqueles minutos à espera do tiro de partida passaram a voar. Pum, lá iam os africanos e daí a 90 segundos era eu que dava o primeiro passo para o resto da minha vida

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A excitação foi tal que nem carreguei bem no botão do meu modesto relógio. E só reparei nisso aos 500 metros quando quis ver o ritmo a que ia e estava tudo a zeros.

Começa bem. Ao início havia muita gente e por isso o primeiro km foi o meu mais lento em toda a prova (4.45). Sem dores de maior e com um apoio incrível do público, lá fui acenando em sinal de agradecimento sempre com um sorriso e a olhar para todos os lados para absorver o máximo daquela experiência inesquecível.

Nuno Miguel Ferreira Maratona de Berlim
Hoje em dia considerada uma das maiores maratonas do mundo, a Maratona de Berlim é também um encontro de povos e nacionalidades

Em termos de ritmo fui estabilizando e mostrei uma regularidade que desconhecia (alguns kms a 4.30, muitos a 4.27 e vários a 4.25), pelo que cheguei aos 21km sem dificuldades em 1h31m53s. Mais de seis minutos acima do meu melhor registo na meia mas já sabia que não me podia esticar pois estava com receio do tendão (ao ver as imagens das minhas passagens nos pontos intermédios vê-se bem que me ia a defender).

A cada apito do chip à passagem pelos tapetes de controlo pensava nas pessoas que em Portugal estavam a acompanhar a minha prova. Acreditem, nós sentimos mesmo esse apoio extra apesar de estarmos longe e sós no asfalto.

Os vários abastecimentos em copo (algo novo para mim) e os três pacotes de gel deram uma preciosa ajuda, bem como os três pedaços de banana que comi. Já só faltava metade e o céu começava a escurecer, ameaçando chuva… 

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Fazer a Maratona com chuva… e cãibras

Mantive o ritmo mais ou menos certo (entre 4.27 e 4.30) até que passei a placa dos 28km e entrei numa nova realidade. Nunca tinha feito mais do que isso e mesmo assim apenas por três ocasiões.

Benzi-me, dei um beijinho na mão da Inês (a minha filha) que tenho tatuada no meu antebraço direito e cerrei os dentes. Afinal só faltavam 14km e depois do que tinha passado para ali chegar não ia desistir.

Só que, de repente, aos 34km e já debaixo de chuva apanhei um susto enorme quando tive uma cãibra fortíssima na perna direita. Dei dois ou três passos com a perna bem esticada, sacudi, olhei para o céu e disse uns palavrões, confesso. Quase chorei de raiva. A minha estreia não podia acabar assim, não merecia.

Felizmente, a cãibra desapareceu da mesma forma súbita que apareceu e continuei (fechei esse km com 4.36). Consegui recuperar para os 4.30 e entre ‘high fives’, aplausos e sinais de gratidão para o público senti que nada me ia parar. Algo que tive a certeza quando passei pela placa dos 40km. Caramba, estava quase a fazer o mesmo que o Carlos Lopes em 1984 só que um bocadinho (risos) mais devagar.

Nuno Miguel Ferreira Maratona de Berlim
Para Nuno Miguel Ferreira, a passagem dos 28 km foi entrada em território desconhecido – nunca antes havia feito mais do que isso em quilómetros!…

Depois dos 41km uma curva à esquerda, muito público e eis que as Portas de Brandemburgo surgiram lá ao fundo. Desatei a sorrir ou a chorar, ou as duas coisas ao mesmo tempo, e acelerei. Acenei e agradeci a tanta gente que não conheço e que nunca mais verei na vida. Ao passar por baixo das portas só faltavam 195 metros. Chovia bem mas senti-me o tipo mais feliz e realizado do Mundo.

Berlim com a meta à vista

Tudo valeu a pena e fez sentido naquele momento em que cruzei a meta após uma prova sempre sozinho no meio de tantos milhares de pessoas (só tive a companhia do meu colega Pedro Preto durante um km se tanto mas o andamento dele era superior ao meu).

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Passou-me muita coisa pela cabeça numa descarga enorme de sentimentos. Inesquecível, tal como as horas que se seguiram.

Depois de três meses e meio de privações, tendo apanhado dois períodos de férias, era permitido comer e beber à vontade. E aquele jardim da cerveja de Berlim jamais será o mesmo após a passagem do nosso grupo, que animou e pôs tudo a dançar. 

Quem já fez pelo menos uma maratona sabe bem do que falo. Quem ainda não fez nenhuma e está a pensar nisso, força, não adiem mais nem arranjem desculpas. É um sentimento incrível e impossível de explicar em palavras. Sentir que somos capazes de fazer aquilo que nos disseram ser impossível é tremendo.

Nuno Miguel Ferreira Maratona Berlim
Com o objectivo assumido de terminar abaixo das 3h10m, Nuno Miguel Ferreira concluiu a Maratona de Berlim, a sua primeira maratona, com o tempo de 3h06m38s

Obrigado a todos, desde os muitos que me ajudaram até aos poucos que tudo fizeram para complicar e inviabilizar a concretização deste sonho. Sem vocês todos nunca teria conseguido.

Ah, acabei com 3h06m38s, bem dentro do objetivo possível das 3h10m. Fiquei em 461º no meu escalão etário (M45) e 3134º na geral entre 44 mil que terminaram. Mas isso não importa mesmo nada. O que importa é que acreditei, lutei e consegui.

Tinhas razão pai. Esta maratona só podia ser dedicada a ti! Saudades imensas… 

NUNO MIGUEL FERREIRA