Hélder Rodrigues participou no seu terceiro mundial de Corrida de Obstáculos (OCR, Obstacle Course Race), o primeiro na categoria Spartan, a mais dura da categoria, já que apresenta uma componente de endurance mais forte, ao contrário das outras categorias, que visam mais uma componente técnica. Esta nova vertente do Mundo da Corrida está a ganhar cada vez mais praticantes em Portugal e no mundo, apesar da sua dificuldade. O português, que alcançou a sexta posição do Mundial no seu escalão etário, revela como foi complicado ganhar a ambicionada medalha de finisher…

Nunca uma medalha de “Finisher” teve tanto sabor de conquista e superação. Mais do que competir contra adversários, foi uma luta contra nós próprios, nossos medos e adversidades. Incrível como somos capazes de fazer coisas que nunca julgávamos possíveis quando levados ao limite.

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Partida de Squaw Valley (local dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1960) a 1900 metros de altitude com temperaturas a rondar os 0º C. Os primeiros 6 km subiam até Squaw Peak, a 2700 metros de altitude. As condições atmosféricas eram cada vez mais agrestes e, com o corpo bloqueado, cedo percebi que não tinha capacidade para acompanhar o grupo da frente. Overwalls, 6´ Wall, Monkey Bars, Inverted Wall e Z-Wall foram os obstáculos encontrados durante a subida.

Chegados ao topo da montanha encontrámos um conjunto de obstáculos, todos seguidos: Bucket Carry, Bender, Spear Throw, Olympus, Armer, Multi-Rig, Tyrolen Traverse, Ape Anger, Barbed Wire Crawl, Atlas Carry e Slip Wall (Dunk Wall tinha sido fechado).

As temperaturas negativas e os ventos fortes tornaram este conjunto de obstáculos num verdadeiro campo de batalha. O vento era ensurdecedor e os “gemidos de dor” das pessoas era terrífico. Mais tarde, o Ape Anger seria fechado… No dia anterior e com melhores condições atmosféricas, a Ultra e a Beast Open tinham sido interrompidas por razões de segurança!

Hélder Rodrigues na Corrida de Obstáculos Spartan
Hélder Rodrigues na Corrida de Obstáculos Spartan

Passado os obstáculos, começámos a descer a montanha. Toda a gente corria mais rápido, tentando aquecer, mas não deu para isso: Duplo Sandband Carry, o verdadeiro terror! O percurso descendente ainda foi feito com alguma facilidade mas a subida tornou-se penosa.

Olhávamos nos olhos uns dos outros e percebíamos o desespero de cada um de nós, parecia uma tarefa impossível, dávamos força uns aos outros e lá avançávamos mais um metrinho. Os sacos abandonados ao longo da subida eram imensos, as pessoas simplesmente tinham desistido face à dificuldade e ao estado de hipotermia que se apoderava do corpo.

Esta situação fazia lembrar quando os soldados tinham que passar por cima dos corpos ao avançar nas frentes de batalha. Carregar, arrastar, subir, pousar… Carregar, arrastar, subir, pousar… Metro a metro, até finalmente completar o circuito e entregar os sacos!

Corrida de Obstáculos mais complicada do que o esperado com uma prova de natação incompreensível

Livres dos sacos e após uma corrida descendente, aparece o obstáculo mais controverso da prova, o Swin in the Lake. Com as condições que estavam, não terem fechado este obstáculo foi insensato. Grande parte dos atletas, tal como eu, optámos por tirar a roupa antes de entrar no lago de forma a mantê-la seca e vestindo-a após a natação.

Muitos foram os abandonos após esta natação e não se entende o porquê de terem mantido este obstáculo aberto. Vestida a roupa, tínhamos cerca de 2 km a descer até à zona de meta. A energia gasta pelo corpo para aquecer era imensa e este começava a ceder… As cãibras surgiam e os tropeções, por não conseguir erguer as pernas, também. Felizmente não tivemos nenhuma queda grave.

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Low Crawl, 7´Wall, 8´Wall ultrapassados.

Chegado ao Helix, obstáculo relativamente simples, tive a real perceção do estado do meu corpo: a sensibilidade das mãos tinha desaparecido, os músculos das pernas saiam sempre que esticava uma perna e a única coisa que parecia controlar era a mente. Não sentia as barras e olhava de perto para ver que ainda tinha as mãos agarradas nas barras, o tato tinha sido substituído pela visão.

23 km e 3h16m08 para terminar uma infernal Corrida de Obstáculos

Ultrapassado este obstáculo, o caminho até á Rope Climb foi feito a passo, a tentar aquecer as mãos. Era fundamental para o resto de prova! Logo após a subida à corda aparece o Monkey in The Middle (duas secções de Twister, Monkeys Bars Up and Down e mais duas secções de Twister), obstáculo demasiado comprido para fazer com cautela.

Seria muito moroso e, com a falta de energia, cairia a meio, teria que arriscar fazer em swing, o que foi feito com exceção da última secção de Twister. Com o sino ali tão perto e o medo de cair, fez com que fosse feito um a um… Os obstáculos estavam secos, o que ajudou bastante.

Hélder Rodrigues na Corrida de Obstáculos Spartan
O sino para terminar a Corrida de Obstáculos Spartan

A-Frame Cargo e The Box feitos e começámos a subir novamente, desta vez para uma cota mais baixa, com temperaturas bem mais agradáveis. Se tivesse que voltar a subir a primeira montanha, provavelmente teria lá ficado. Um erro de logística fez com que não tivesse levado alimentação suficiente, o desgaste era enorme e, nos abastecimentos, apenas existia água gelada. E de água gelada já eu estava cheio…

8 km a subir e a descer a montanha, com Pipe Lair, Stairway to Sparta, Vertical Cargo Plus e Hurdles pelo caminho. Entrámos finalmente na parte final, com Sandbag Carry, Beater, Tire Flip, A-Frame Cargo e Hercules Hoist antes de cruzar a meta. Destes, o virar duas vezes o pneu de 180 kg foi o que, à partida, seria o de maior dificuldade.

Após 23km e 3h16m08, estava terminada a prova. O sentimento de conquista era imenso, tinha sido uma jornada épica e o 6.º lugar obtido no meu escalão etário foi a cereja no topo do bolo, um orgulho pertencer ao Top 10 mundial dos velhinhos!

“It was a wonderful journey” e as praias do Norte nunca mais me vão meter medo.

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