Nuno Miguel Ferreira

Tem a ambição de fazer uma Maratona, mas não sabe como se preparar e o que fazer para se inscrever, por exemplo, numa Major? Este é o testemunho de um apaixonado pela corrida que, aos 43 anos, decidiu juntar-se a uma equipa de corrida e, aos 45, fez a sua primeira Maratona – a icónica Maratona de Berlim. Tudo devido a Carlos Lopes e porque nunca é tarde para realizarmos os nossos sonhos…

Jornalista do Record, Nuno sempre gostou de corrida. Contudo, as exigências profissionais, a par das obrigações familiares, acabaram fazendo com que fosse já para lá dos 40 que a corrida entrasse, de rompante, na sua vida.

No entanto, e a partir do momento em que decidiu avançar, Nuno nunca mais parou. Embora tendo começado por correr sozinho, rapidamente decidiu inscrever-se numa equipa de corrida, os Run Tejo – CM Sock, com o claro propósito de evoluir. Sendo que, apenas dois anos depois de ter dado início a esta paixão, já estava a inscrever-se naquela que seria a sua primeira Maratona.

Determinado, Nuno não se limitou, no entanto, a escolher uma qualquer Maratona; pelo contrário, escolheu mesmo uma das mais emblemáticas provas de 42,195 km realizadas na Europa: a Maratona de Berlim. Sendo que este é o testemunho escrito, na primeira pessoa, de um atleta amador que, apesar de todas as dificuldades, não deixou de correr atrás do seu sonho.

A Maratona de Berlim faz parte das chamadas Six Majors, a par de Londres, Tóquio, Boston, Chicago e Nova Iorque
A Maratona de Berlim faz parte das chamadas Six Majors, a par de Londres, Tóquio, Boston, Chicago e Nova Iorque

Tal como, aliás, o leitor, pode e deve correr atrás do seu…

O porquê de ser ao longo de vários dias

A terminar e ainda antes de darmos início ao testemunho propriamente dito, esse, sim, escrito pela mão do seu autor, uma última palavra para a forma como decidimos publicar este depoimento – não de uma vez só, mas ao longo de vários dias.

Decisão exclusivamente editorial, colocada em prática com a única e exclusiva preocupação de não desvirtuar o texto ou a sua riqueza, mas que, acreditamos, ajudará a assimilar a experiência e ensinamentos que este testemunho aqui nos deixa. Não apenas ao leitor, mas também a nós…

O início de tudo devido a Carlos Lopes e com o fim na Maratona de Berlim

“Madrugada de 12 para 13 de agosto de 1984. Estava quase a fazer 10 anos e lembro-me bem do meu entusiasmo a ver com o meu pai as imagens chegadas de Los Angeles.

Carlos Lopes, e a medalha de ouro conquistada nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, foram os principais responsáveis pela paixão de Nuno pela corrida
Carlos Lopes, e a medalha de ouro conquistada nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, foram os principais responsáveis pela paixão de Nuno pela corrida

Um português chamado Carlos Lopes, atleta do Sporting de que o meu pai tanto gostava, deixava toda a gente para trás e contra as previsões conquistou o ouro nos Jogos Olímpicos.

Chorei quando aquele campeão subiu ao degrau mais alto do pódio e ouviu-se tocar o nosso hino. “Pai, este Carlos Lopes é um herói. Ele correu mais do que Cascais a Lisboa”, disse então na inocência própria de uma criança cujo Mundo era ainda pequeno e em que ir da terra onde nasci até à capital parecia quase uma aventura de livro. “Um dia hei-de fazer uma maratona pai, achas que consigo?”, perguntei. O brilho nos olhos dele deu-me a resposta. “Basta acreditares em ti e lutares.”

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Bom, mas que raio tenho eu que ver com isto, deve estar a perguntar agora. Esta introdução serve apenas para contextualizar a minha estreia na Maratona, em Berlim, no passado dia 29 de setembro. Ou seja, demorei mais de 35 anos a concretizar este sonho de menino que, confesso, julguei impossível durante tanto tempo. Mas se eu consegui qualquer pessoa consegue, mesmo. Basta acreditar e… treinar muito.

É por isso que vou explicar com base na minha (curta) experiência o que deve fazer caso queira correr a mítica distância dos 42,195 metros. Um conselho desde já: prepare as coisas com antecedência

O decisivo dia 1 de julho após uma conversa com Carlos Lopes tendo em vista a Maratona de Berlim

A decisão definitiva de correr uma Maratona em 2019 foi tomada ao jantar de 1 de julho do ano anterior.

Após participar na Corrida do Sporting, em que estive à conversa no final com Carlos Lopes (sim, o campeão olímpico, não há coincidências) e lhe disse que era ele o grande responsável por esta minha paixão de correr, fui jantar com muitos colegas da Run Tejo – CM Socks.

A Run Tejo - CM Socks realiza treinos no Estádio Nacional, à 2.ª e 4.ª feiras. Caso queiras aparecer...
A Run Tejo – CM Socks realiza treinos no Estádio Nacional, à 2.ª e 4.ª feiras. Caso queiras aparecer…

Foi aí que o meu treinador, Carlos Freitas, lançou o tema à discussão. Eles estavam a preparar a Maratona de Frankfurt, em finais de outubro, e eu estava fora pois tinha entrado para a equipa apenas a 22 de abril e era impensável sequer pensar em mais do que a meia-maratona daí a uns meses.

Apesar de sempre ter praticado desporto (ginástica desportiva, judo e andebol, por esta ordem), a corrida sempre foi a minha grande paixão mas a minha geração não teve grande margem pois não havia tantos clubes e grupos organizados como há hoje a darem hipóteses a amadores como eu. 

A escolha da Maratona de Berlim

Bom, decisão tomada de fazer a Maratona o passo seguinte era escolher o destino pois a vontade da maioria era correr no estrangeiro.

“demorei mais de 35 anos a concretizar este sonho de menino que, confesso, julguei impossível durante tanto tempo”

Após alguma discussão sobraram duas hipóteses: Amesterdão ou Berlim. A escolha acabou por ser a capital alemã, até por se tratar de uma das seis Majors, algo aliciante para um estreante como eu.

Sem qualquer registo na distância restava-me reservar tudo por agência e quanto mais cedo melhor. Assim, a 20 de dezembro garanti em conjunto com vários colegas de equipa o meu lugar (utilizei a agência do El Corte Inglês em Algés, recomendo vivamente) tendo pago cerca de 500€ pelo dorsal, aluguer do chip, três noites de hotel e seguro de cancelamento (aconselho pois custa apenas 30€ e, como verão mais adiante, pode dar muito jeito). Só faltava o avião, que ficou tratado a 28 de dezembro (arranjei uma promoção na TAP que ficou em 210€ ida e volta).

Burocracia resolvida, agora era questão de prosseguir a primeira época federado enquanto não chegava o verão e o início dos treinos para a maratona…