Cumpridas as primeiras 24 horas da PT281+, Carla André chega à BV2 Penamacor já com o Sol a raiar, apoiada pela atenção e carinho sentidos ao longo do primeiro dia de prova. E que nem mesmo o calor que haveria de ter pela frente conseguia fazer esquecer…

BV2 Penamacor – 85 km
Já com o Sol a raiar, chego à BV2, em Penamacor. Apenas queria o meu saco e uma cadeirinha para me sentar e ler o Guia de Instruções que construí. Mas ouvia sempre: «Já sei que não queres ajuda, mas se precisares estamos cá!» Sozinha, quem disse que ir sem equipa de apoio era estar sozinha!? Tanta atenção, tanto carinho, nunca estamos sozinhos!

Sozinha é quando saio para treinar 100 km pelo mato e só atravesso aldeias e cafés com desconhecidos. E mesmo assim sinto a força de todos os que me têm carinho! Nunca estamos sozinhos, o encontro connosco próprio é maravilhoso!

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E siga o caminho, próximo destino já o conhecia: Penha Garcia! Lá teria iniciado um dos treinos longos. Ate lá percorremos um lindo caminho de 48 km e passámos pela linda vila de Monsanto, onde existem mais de 10 fontes mas escolhemos beber na que tinha uma água estranha meio avermelhada. A sede era de tal forma que a água parecia translúcida e maravilhosa como que engarrafada e selada. Só uns bons quilómetros à frente olhei bem para a cor da água e… Ops, era água, tive de beber, não tinha outra, já era tarde… Na linda vila parei para comer o geladinho que me soube pela vida! Adoro gelados! Gulosa! E segui caminho para Penha Garcia. O calorzinho já me abraçava como eu tanto gosto!

BV 3 Penha Garcia – 122 km
Passo o castelo e chego à Base de Vida número 3, depois de me banhar numa fonte escondida que já lá conhecia, que bem sabia encher-me de água para refrescar!

Na BV tinha, no meu saquinho, o meu almocinho. Em março tomei a decisão de me tornar vegetariana e então a minha comida ia toda comigo. Lá montei a bancada e comi o meu hambúrguer vegan com arroz e legumes. Que maravilha soube o descanso naquela BV.

Foi bom para variar do habitual: barras, géis, frutos secos e batatas fritas. Assim se resume a minha alimentação nas provas. Para além disso, a magnesona e o Redrate não podiam faltar. Não complico muito, é apenas isto!

Carla André, num momento de refrescamento, durante a Portugal 281+ Ultramarathon
Carla André, num momento de refrescamento, durante a Portugal 281+ Ultramarathon

Já tinha uma noite em branco, mas sono nem o ver, a energia de estar a concretizar o sonho mantinha-me acordada e bem feliz. Nestas travessias vamos aprendendo a conhecer o corpo e a combater os nossos pontos fracos. Em tempos, o sono seria um ponto fraco e então aprendi a lidar com ele. Há uma semana que não bebia café, entrei de férias na sexta-feira anterior e o café foi substituído por chá de tília e camomila. E dormir, dormir sempre que possível. Assim fui bem acordadinha para o meu sonho!

Estávamos no pico do calor, a maioria das pessoas optou por descansar naquela BV para apanhar menos calor, mas eu, louca como sou pelo calor no corpo, segui viagem. Que bem soube, as pernas até se soltaram! Adorei! Estaríamos a entrar num percurso de cerca de 20 km sem fontes, no pico do calor. Água não iria faltar porque ia bem carregadinha. A temperatura da mesma já não se fala, bem morninha.

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A água morna também já não me afetaria, dado que, quando andei pelos EUA a correr com 50 graus, aprendi que água quente também tira sede. E então, desde então, para além do meu termómetro corporal ter ficado avariado por amar o calor, bebo diariamente água morna em casa. Hábitos estranhos, portanto…

E lá segui sozinha, feliz e a cantar as músicas que iam passando no MP3. Não corro sem música, a música é a banda sonora dos meus sonhos, faz parte de mim, como o calor que me abraça. A música recria o filme que se está a passar. E que filme lindo! Tanto que dancei… Do céu, o meu pai ria com certeza de tanta loucura misturada com alegria. Sim, era o único a presenciar aqueles momentos! Felicidade é uma palavra curta para expressar o que sentia.

Parei numa aldeia para um cafezinho e iria entrar na segunda noite. O destino seria Idanha-a-Nova. Também já conhecia aquelas maravilhosas pedras a subir para a BV.

[CONTINUA NA QUINTA-FEIRA…]