Chegada a Idanha-a-Nova, onde estava a BV 4 da PT281+, Carla André prescinde de alguns momentos de sono para correr o Vale da Morte iluminado pelas estrelas. No horizonte estava já Lentiscais e a marca dos 200 quilómetros

BV 4 Idanha a Nova – 156 km
E já carregava 156 km no coração e nas pernas, que ainda estavam bem! Que feliz eu estava! Nesta BV havia muitos que decidiam dormitar um pouco, mas o sono ainda andava afastado e eu queria conhecer o Vale da Morte, desta vez iluminada pelas estrelas. Então apenas descansei o suficiente, mudei as meias, a camisola, comi duas sopas, etc. e segui para a segunda noite em branco. Destino: Lentiscais.

Neste abastecimento coloquei os bastões por sentir que poderiam ajudar. Só duraram este percurso. Isto de levar a música, os bastões e água não era prático e divorcie-me deles no próximo ponto. Não gosto deles e menos fiquei a gostar dado que não ajudavam muito, pelo menos no meu caso. Poderá ser falta de prática, já que sei que é uma ajuda para muitos.

E segui, feliz por atravessar o deserto de noite. A minha alma viajou naquele momento até outro continente e sonhei estar no deserto. O silêncio, a solidão, a música permitiu-me recriar esse momento e as lágrimas soltaram-se por tantas saudades de ser abraçada por ele. Quando o mundo abrir, tenho de pôr os pés e a vista na imensidão das dunas. Ate lá sonharei apenas com elas.

Sem pinga de sono, Caral André esqueceu o descanso, para ir conhecer o "Vale da Morte", sob as estrelas
Sem pinga de sono, Caral André esqueceu o descanso, para ir conhecer o “Vale da Morte”, sob as estrelas

O poder dos sonhos é de tal forma que tão rápido passou este percurso, rápido na minha cabeça, porque os quilómetros passavam bem devagar. O ritmo já era mais lento, fruto dos quilómetros que já carregava. Pelo caminho cruzava-me com vários atletas com dificuldades com o sono. Como poderia eu estar tão, mas tão acordada? Eu estaria abraçada a um sonho a dormir e na terra os olhos abertos a correr.

Rezei, cantei, dancei, chorei…. Momentos muitos especiais! O próximo ponto era muito importante: 200 km, Lentiscais.

BV 5 Lentiscais – Cais fluvial – 205 km
Que marco importante, já só faltavam cerca de 80 km. Chegar ali deu-me uma tão grande confiança que chegaria ao fim. O que faltava era pequeno para a travessia que já tinha feito.

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Que linda vista e paz nesta BV. Mais uma vez comi uma enorme sopa, uma massa, fruta, etc. E também refresquei os pezitos, que já se ressentiam. Descansei, mas dormi nem ver… Estava acordadíssima e não foi do café que me deram por lá. Acho que o meu ser emanava felicidade, estava tudo a correr bem e o destino estava próximo. Segui novamente com calor a começar a abraçar-me!

Seguiríamos numa longa estrada de alcatrão até uma aldeia onde não resisti à sobremesa: o geladinho, Corneto de Morango! Pessoas da terra olhavam para mim. «De onde saiu esta? De calças, com este calor, com uma mochila… Fugiu de casa, com certeza. E anda perdida!» O pior foi quando se aperceberam que despejei em cima de mim uma garrafa de 1,5l de água gelada!

Carla André ainda tentou utilizar os bastões entre Idanha-a-Nova e Lentiscais, mas rapidamente desistiu
Carla André ainda tentou utilizar os bastões entre Idanha-a-Nova e Lentiscais, mas rapidamente desistiu

Pelo caminho ia-me cruzando com um grupo de três simpáticos atletas que me foram dando força e trocámos umas palavras alegres! António Quaresma, Pedro e Hélio. Parámos num café logo a seguir para beber mais um café. E seguir…

A próxima paragem seria Vila Velha de Ródão. Que calor se fez sentir, os pezitos já se ressentiam com tantos quilómetros e começaram a atrasar-me o ritmo. O importante seria chegar, mas correr já era desafiante. Muitas vezes me sentei no caminho. Põe Compeed, tira Compeed, muda meias… Mas os pezitos já carregavam neles uma bolha na planta do pé que me acompanhou até o final do meu sonho. Faz parte: por muitos cuidados que tenhamos, elas insistem em nos visitar e nos acompanhar. Mas nós ignoramos e seguimos.

[CONTINUA NA SEXTA-FEIRA…]