Atingidos os 230 quilómetros e a apenas pouco mais de 50 quilómetros da meta do PT281+, Carla André começa a sentir alucinações embalada por aquela que será, para sempre, a música do seu sonho. E que, também por isso, não lhe retira a felicidade decorrente da concretização de um desafio que terminou após 62h42.

BV6 – Vila Velha de Ródão – 230 KM
Esta BV nunca mais chegava porque, nos quilómetros que me tinha perdido e que carregava a mais, os cálculos estavam errados e o caminho nunca mais passava. Quando pensas que estás a 1 km, passa alguém que te diz que faltam 5 km. «Ops… É melhor pores aí um kizomba a tocar e anima-te até à BV». E assim fiz. Lá fui eu a dançar com a alma até chegar ao destino.

A primeira coisa que fiz na BV foi refrescar-me e fiquei como nova! Nesta Base de Vida fui proibida da minha autonomia, fui apanhada com 20 pilhas na mochila e outras milhares de coisas desnecessárias!….

O nosso querido campeão Arsénio Santos tinha-me dito que gostaria de fazer os últimos quilómetros comigo, mas apareceu antes e nesta BV já não me deixou fazer nada para além de comer, comer, comer.

A minha mochila foi literalmente despejada à frente de toda a gente e apanhada com 1 kg de tralha desnecessária: pilhas, toalhitas (porque duas embalagens?), vários fios para carregar os ‘gadgets’ (podia ser só um, mas eram vários), comida para alimentar uma tribo inteira…

Descobri recantos e bolsos na mochila que não sabia que existiam. Ri às gargalhadas com um misto de medo. «Será que me vai faltar alguma coisa? Ai o meu plano!» Até uma menina de 6 anos perguntou: «Porque é que tens tantas pilhas?» E eu, pois… «Vai estar de noite e tenho medo de não ver nada.»

Foi muito divertido porque haviam mais candidatos na fila para o Arsénio arrumar a mala. Depois desta BV estava como nova, pronta para atacar o próximo pedaço de sonho… e um pouco mais leve!

É assim que teremos de ver tão longa distância, devemos dividi-la em pedaços e ir arrecadando cada um deles, uma de cada vez. Morremos e ressuscitamos tantas vezes e vamos descobrindo isso, o que nos dá o alento para chegar ao fim!

Iria entrar na terceira noite e nem 5 minutos de sono teria passado, a tática do chazinho a semana toda a resultar! Mas quando entra a noite, a mesma ficou animada, muita, mas muita gente pelo caminho! Não vem o sono mas vêm as alucinações, as divertidas alucinações. Dei por mim a cumprimentar vasos, plantas, árvores, gatos que não eram gatos, plantas que não eram cães. Que faria aquela gente toda pelo caminho a meio da noite? Ao menos estavam de máscara… Alucinava mas via as pessoas a cumprir a recomendação da DGS… afinal era só uma parede.

Estava tão, mas tão feliz que dancei com as pessoas, dancei e cantei tanto, ninguém me viu nem ouviu. Desliguei a luz, fui até meio da estrada e dancei… A música dizia: ’’Luna Luna, Dame tu energia luna’’ (Maria Artes). Desliguei a luz, contei a estrelas e dancei com o céu! Esta será para sempre a música deste meu sonho!

Foi um momento tão, tão especial… Sabia que estava mais perto da meta, do sonho. Pelo caminho passei uma aldeia e conversei com as pessoas que lá estavam a apoiar. Brinquei que andava perdida, pedi para virem comigo porque tinha medo do escuro. Felicidade sem medida!

Próxima terrinha: Foz do Cobrão. Tantos vasos que confundi com pessoas, as alucinações estavam no auge e só me faziam rir! O Hugo Água aparece para fazer um pequeno vídeo e eu não o conheço, só depois de lhe enfiar com o foco de luz na cara vi quem era. Tempo para dizer uns pequenos disparates para a câmara, para mais tarde recordar.

Seguiam-se as subidas intermináveis da ‘Serra Madeirense Beirã’. Que interminável subida! Por sorte apanhei o Sérgio Catarino, que estaria nas suas quintas e que comparou a subida às subidas da sua Madeira. E segui, segui a trote aproveitando a sua boleia, senão ainda hoje estaria lá enterrada no pó!

Quando descíamos para uma aldeia, disse: «Olha, é o meu mano e a Maria.» E ele disse: «Não, é o meu irmão!» Ops… as alucinações. Passado um quilómetro, afinal ali atrás era uma alucinação, eles apareceram mesmo. Parecia a alma a dizer que estariam perto. E apareceram mesmo! Difícil explicar o que senti, só os tinha visto 250 km trás. Eles diziam que eu estava fresca, e estava, não estava o mesmo calor da tarde! Foi uma lufada de ar fresco vê-los ali no meio, quase a chegar a próxima BV.

BV 7 Montes de Senhora – 258 km
Que alegria chegar à ultima BV. Quando cheguei, já o Tiago e a Maria estavam lá. O meu ‘pacer’ Arsénio também estava, pronto para um novo controle de mochila e a ser obrigada a comer, comer, comer. Referi que não andei a apanhar pilhas no mato e a mochila estava bem e só tinha o essencial. Sono nem o ver, tinha uma imensurável vontade de chegar à meta. Nunca tinha passado três noites sem dormir, só sabia o que eram duas noites, mas o corpo é uma máquina movida a emoções e são elas que nos dão os reflexos e as forças que precisamos.

Mudar roupinha, sapatos e pronta para seguir, desta vez acompanhada! Nos primeiros km fui com o Tiago, a Maria e o Arsénio. Foi tão bom, que escolta de luxo! Por momentos esqueci que estava a fazer uma prova de 281 km, só me apetecia rir e contar as minhas alucinações e o que já tinha passado.

Quando acaba a estrada sigo apenas com o Arsénio, que, coitado, conheceu os ritmos mais alucinantes de caminhada que existem! Recordo que ele já arrecadou um segundo lugar nesta prova!… E agora teria de seguir naquele ritmo, tão ‘rápido’. Os pezinhos latejavam e já não conseguia correr nada, sabia que me esperava uma longa caminhada até a meta.

Faltavam apenas 25 km para a meta, os meus olhos brilhavam com o caminho que já tinha percorrido. Habituada a ir sozinha, estranhava submeter alguém ao meu ritmo. Mas a partilha de experiências e histórias foi deixando o tempo voar. O Sol nasceu devagar e permitiu imagens que não mais esquecerei, no terceiro pôr-do-Sol que a natureza me presentear.

Não estava sozinha, mas tantas vezes a minha alma voou para o meu íntimo e quis abraçar o meu pai que estaria na luz do Sol a proteger-me. Só me apetecia chorar por tão longo caminho percorrido.

Um incêndio que deflagrou perto escondeu o brilho do Sol mas não lhe tirou a sua beleza, a beleza de um sonho prestes a ser conquistado. Fotógrafos que se cruzaram no nosso caminho e que eternizaram estes momentos em imagens, obrigada a eles. Se junto a imagem com a música e a emoção, faço na minha mente o melhor filme de sempre!

O cansaço fazia-me esquecer o GPS e tantas vezes nos perdemos. Até que novamente fui abraçada pelo carinho do ‘sangue do meu sangue’. O meu mano veio ter comigo com a Maria, sinal de que estaríamos perto! Já não corria, caminhava lentamente mas cheia de alegria, que era visível a quilómetros de distância. Sono, nem vê-lo, sabia que iria ter uma semana pela frente para repor todo o sono e as emoções que atordoaram a alma tão inquieta pelos sonhos.

Seguimos e aparece novamente o Hugo com a sua câmara para captar mais momentos de alegria, disparates e gargalhadas. Disse que confundi vasos com pessoas, mas ele disse que alguém tinha visto uma matilha de bois, estaria pior que eu, o que me confortou. As minhas alucinações não seriam tão graves na escala de um a dez.

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Que comitiva maravilhosa se formou ali no final, que momentos especiais. Só os pés pesavam já que, de resto, a alma voava de alegria. Aparece também o meu amigo Renato para me acompanhar nos últimos metros e filmar. Penteei-me no vidro de um carro, não podia entrar assim na meta, sem jeito nenhum. Bem penteada, mais uns disparates de alegria para a câmara e recordar a nossa muito antiga equipa ‘ O sol nasce para todos’. E o Sol já teria nascido três vezes para mim, confirmei…

E a meta era a descer, avisaram-me! Naquele segundo as dores voaram, o meu pai desceu do céu para me dar a mão e corri desalmadamente até subir o último degrau do sonho, a meta! Que linda meta, cheia de emoções, alegrias, superação. Consegui, meu querido papá, minha estrelinha!!!! Esta medalha é tua, é minha, é nossa!

O GPS contava 289 km, não mais dores existiam, apenas a certeza de que deveremos encher a nossa vida de momentos simples e memoráveis. O caminho que cruzámos é o maior tesouro, os bens materiais não trazem alegria, a verdadeira felicidade vem dos sonhos!

E abracei na alma o meu sonho, rodeada de gente especial, que via e sentia, tatuando na minha alma mais uma linda historia, mais um lindo sonho, mais um capítulo de felicidade do livro da vida!

Um dia quero percorrer estes 300 km, mas pelo meu deserto. E este caminho foi uma grande experiência para me encher de confiança para almejar um dia essa dura batalha que carrego no coração e que sei que, um dia, quando o mundo abrir, a farei!

Agradeço a todos quantos seguem os meus sonhos e que se tornam nas asas das minhas aventuras! A quem quiser fazer esta viagem, façam, sonhem e façam acontecer. Eu fiz e sou um ser humano como qualquer outro. A medalha será envolver o coração em emoções, pessoas especiais com que nos cruzámos, lindos momentos que ficarão para a vida!

Nem mesmo as alucinações impediram a realização do sonho de Carla André no PT281+
Nem mesmo as alucinações impediram a realização do sonho de Carla André no PT281+

Ousem sonhar, ousem ser felizes! Até breve!