Mudada a agulha do planeamento para uma não menos cativante PT281+, eis que chega o dia de Carla André ouvir o muito esperado tiro da partida. E que, entoado junto ao místico Castelo de Belmonte, acabou significando, para a atleta portuguesa, o início da concretização de um sonho.

23/07 – 18h00
Borboletas por todo o lado em todo o meu ser, apenas visíveis do céu. Estou de partida para a mais longa corrida que alguma vez fizera, num lindo castelo em Belmonte. Parecia um conto de fadas, numa festa cheia de príncipes e princesas! Já fizera provas muito longas em condições ainda mais extremas, mas não tão longas… O desafio seria esse! Está um tempo maravilhoso, adoro calor, estava aquele calor que aquece a alma sem derreter o corpo. Perfeita partida, recebo o carinho do meu mano Tiago e a Maria, que me vieram fazer uma surpresa e me viram ao longe escapar para entrar num tão longo sonho.

Segui sozinha, assim desenhei a prova. Não levei equipa de apoio por opção. Para mim seria suficiente ter as bases de vida onde podia colocar o que precisasse e poder seguir o meu plano que, escrupulosamente, construí com todos os detalhes.

A partida de Carla André, para o Portugal 281+ Ultramarathon
A partida de Carla André, para o Portugal 281+ Ultramarathon

Estava sozinha mas nunca estive sozinha. Tanto apoio, tanto carinho, tanto de atletas como da inexcedível organização por quem nutro um enorme carinho! Correr por cá tem esse conforto: muito ouvimos o nosso nome e é como abraços apertados que recebemos pelos trilhos! E que lindo pôr do Sol que assistimos antes de chegar ao primeiro abastecimento!

BV 1 SABUGAL- 37km
Já de noite em Sabugal. Saco, plano, reforçar pilhas para o frontal, papar e siga para mais quilómetros de felicidade. Os nervos e a ansiedade do início já teriam ficado há muitos quilómetros atrás, agora estava a cumprir um quilómetro de cada vez do meu sonho.

Segui sempre no meu ritmo, a ouvir o meu corpo, porque a empreitada seria muito grande. Devemos seguir sempre por nós, nem muito rápido, nem muito devagar. Transportava sempre muita água, dado que as bases de vida e as fontes são muito espaçadas e tive uma experiência interessante num dos treinos de 100 km em que fiquei sem água durante 10 km. Desta forma, decidi que preferia ir bem carregadinha do que ficar com sede. O corpo pagou com a carga, mas foi a melhor opção.

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Algo que teria também muito respeito seria a luz à noite. Vejo muito mal e então as lanternas vão sempre no máximo para conseguir ver bem. Isso implica que pilhas, tal como água, nunca iriam faltar, tinha pilhas para dar e vender… As mesmas iriam desaparecer uns bons quilómetros à frente, porque talvez tivesse exagerado.

E o Sol começou a nascer antes de chegar à segunda base de vida. No céu limpo com o Sol a começar a iluminar, apenas se via uma estrela, a minha estrela, com quem decidi caminhar nesta viagem. Há um ano perderia para o céu o meu querido pai, que tanto vibrava, sem medo, com as minhas aventuras pelos desertos do mundo. Por isso decidi que esta prova seria dedicada a ele, à força que sempre lutou pela vida, sempre a rir e a brincar com a doença, que nunca desistiu de viver. Por isso a ele lhe prometi que nunca desistiria e que chegaríamos à meta! E ali estava a estrelinha no céu a olhar por mim e a carregar o meu fardo quando o mesmo era pesado!

[CONTINUA NA QUARTA-FEIRA…]