A magia de Tony Chu continua

O oitavo arco de Tony Chu, “Receitas de Família”, editado pela G.Floy Studio, mantém a magia dos anteriores, comprovando ser esta uma das bandas desenhadas do momento a nível mundial, fruto da boa disposição criada por John Layman e Rob Guillory.

 

Não há dúvidas de que Chu é uma banda desenhada diferente de tudo, a começar pela premissa da história: um detetive capaz de sentir impressões psíquicas do passado de tudo o que morde ou ingere, mesmo que, como acontece neste oitavo volume, a “comida” seja o próprio dedo do pé da irmã, Toni, que tem a capacidade de ver o futuro de tudo o que morde ou ingere, inclusive da sua própria morte. No entanto, antes de ser assassinada, Toni resolveu ajudar o seu irmão a solucionar o mistério do seu homicídio.

No fundo, Tony Chu parece ser uma BD sem nexo e disparatada, mas a verdade é que é impossível não nos divertimos com as aventuras criadas por John Layman e os alegres desenhos de Rob Guillory. Em todos os arcos, é notório a frescura das histórias, que jamais cansam, com o argumentista a inserir personagens e poderes secundários suficientes para resgatar a aventura de um possível cansaço, algo que, magistralmente, jamais acontece.

Neste volume, por exemplo, há novamente um mundo por descobrir, como são os casos dos poderes ciboantropática, eroscibopíctaro, ciboinvalescor, flatofragoroso, molluhomicuca e, inclusive, um que ainda não foi inteiramente desvendado, faculdades que não deixam o leitor indiferente devido a sua estranheza, mas que, no conjunto da história, são mais do que justificáveis.

Tony Chu tem mais uma aventura gratificante no oitavo arco
Tony Chu tem mais uma aventura gratificante no oitavo arco

Como podemos ficar alheios, por exemplo, ao poder saboescriba, que significa que a pessoa detentora do mesmo «consegue descrever comida de forma tão realista, de forma tão vívida e precisa, que as pessoas conseguem de facto sentir o sabor da comida que ela descreve»? E como ficar desprendido a uma história no qual a gripe aviária alterou por completo a nossa relação com a comida e onde Poyo, um galo de combate com implantes cibernéticos, é uma das figuras mais singelas da história, fruto da sua incrível presença?

Mulheres voltam a ser destaque em Tony Chu

Este arco engloba os números 36-40 de Tony Chu. Mas a singularidade desta banda desenhada criada por John Layman e Rob Guillory é demonstrada logo no início, já que o leitor acaba por ler, no começo do número 36, o número 29,5, com Toni a cortar o dedo do pé para mais tarde o seu irmão Tony o poder comer. Este jogo temporal é aliás algo normal na série, com o leitor a caminhar entre o passado e o presente das personagens, sem esquecer o futuro, numa solução narrativa realmente avassaladora em termos rítmicos.

Como aconteceu nos volumes mais recentes, novamente as mulheres ganham aqui um papel crucial na trama, assim como é de destacar o regresso em pleno de Mason Savoy, há algum tempo desaparecido, apesar da sua importância inicial.

Ou seja, a “loucura” de Chu continua em pleno neste oitavo arco, a principal, como referido, a ser o fantasma de Toni, que, tal como um Jedi, faz questão de ajudar o seu irmão, sedento de vingança. “Receitas de Família” é assim um volume determinante de “Tony Chu – Detective Canibal”. O nonsense está mais vivo do que nunca e as gargalhadas estão mais do que asseguradas, numa banda desenhada brilhante e que não cansa de surpreender, arco após arco, muito devido a sua peculiar originalidade, algo realmente invulgar na história da BD.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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