A origem da Humanidade de Aaron não é famosa em Os Malditos

Nome sonante da atual Banda Desenhada, Jason Aaron está de regresso com Os Malditos, com ilustrações de r.m. Guéra. Editado pela G.Floy Studio, que afortunadamente tem editado algumas das suas BDs, “Antes do Dilúvio” é um noir bíblico que não deixará ninguém indiferente. O protagonista da BD? Caim, filho de Adão, que, por mais que procure a Morte, nunca a consegue encontrar.

 

Após o retumbante êxito de “Scalped”, Jason Aaron e r.m. Guéra estão de regresso (sem esquecer as cores de Giulia Brusco), oferecendo mais uma vez uma obra marcante, pelo menos neste primeiro arco. Desta vez, acompanhamos os passos de Caim, pouco tempo depois de matar o seu irmão Abel. Desde então, a Morte reina na Terra, que, de Paraíso, não tem inteiramente nada.

“Antes do Dilúvio” é uma banda desenhada angustiante, onde o sangue faz parte da trama, está presente em quase todas as páginas, assim como aflitivos e constantes confrontos. A cor vermelha acompanha aliás toda a viagem de Caim, que faz de tudo por morrer, mas Deus não o permite. Na verdade, esse é o seu castigo mortal por ter matado o seu irmão. A visão que Aaron dá dos “primeiros tempos” (1600 anos…) da Terra após a expulsão do Homem do Paraíso não é realmente a mais branda, muito pelo contrário.

É verdade que aqui e ali há momentos de esperança, de que a obra de Deus pode dar afinal certo, mas, logo a seguir, tudo se esvai, já que o Homem não tem, definitivamente, solução.

Um Noé déspota em Os Malditos

«Eu sou Caim, filho de Adão, o Homem que inventou o homicídio.
O Homem que não pode morrer.
É a minha maldição.
Mas eu não sou o único a ter sido fodido por Deus.
Somos as suas criações imperfeitas.
Estamos todos destinados a matar-nos uns aos outros. A conspurcar o mundo à nossa volta.
Somos os seus monstrozinhos condenados.
Somos os malditos de Deus», podemos ler.

Ou seja, a Terra de Caim e os seus pares é um pesadelo, onde o Homem começa a descobrir as funcionalidades do ferro em detrimento da pedra, principalmente a nível de armas. Na sua odisseia, o filho de Adão trava um duelo moral e corporal com Noé, bastante distante da imagem que temos dele, assim como os animais, que, supostamente, salvará.

Noé nada mais é do que um déspota, um fundamentalista que não olha a meios para alcançar os seus objetivos. Mais uma prova de que a Humanidade é uma experiência falhada de Deus…

Aquando do lançamento de «Os Malditos», Aaron revelou que a sua nova aposta seria um violento “spaghetti western” ambientado num tempo pré-histórico com tons bíblicos. É precisamente isso que temos nesta primeira entrega. É verdade que o argumentista não abre muito o jogo, preferindo apostar neste primeiro volume na ambiência e no contexto. Mas as sementes que deixa são completamente apaixonantes.

Nota também para o maravilhoso trabalho de r.m. Guéra e Giulia Brusco, que conseguem contextualizar em pleno o trabalho de Aaron. A tristeza e a crueldade transmitida em todas as páginas, onde não há espaço para qualquer tipo de “luz” e alento, é absorvente, principalmente as sequências dos confrontos, realmente sanguinários e de uma violência atroz.

No fundo, em «Os Malditos», Aaron demonstra que a morte e a destruição foram o pão nosso de cada dia da Terra antes do Dilúvio, como é referido no Génesis, com citações que abrem cada capítulo (menos o quarto).

Absolutamente brutal!

Gostaste do artigo? Faz Gosto ou Partilha com os teus amigos!
Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

Gostou? Partilhe pelos amigos