O escritor e o homem José Saramago

A Porto Editora continua a publicar a obra de José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a vencer o Prémio Nobel da Literatura, concretamente em 1998. «Caim», com caligrafia da capa de Clara Ferreira Alves, e o terceiro volume de «Cadernos de Lanzarote III», com com caligrafia da capa de José Carlos de Vasconcelos, são as mais recentes novidades.

 

“Quem diabo é este Deus que, para enaltecer Abel, despreza Caim?”, lemos logo na sinopse, uma simples frase que revela muito do teor de «Caim», datado de 2009. Como é habitual na sua obra, principalmente após o polémico «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», também já reeditado pela Porto Editora, José Saramago não poupa nas reflexões para questionar muito dos conceitos e moralidades religiosas, mas principalmente do próprio Homem.

O Prémio Nobel conduz o leitor aos primeiros livros da Bíblia, ao magistral Antigo Testamento, com as suas histórias que ainda hoje são motivos de conflitos entre nações e de exemplos para a Humanidade. No entanto, Saramago sustenta o seu “discurso” sempre com um fino humor, uma das linhas condutoras da sua carreira. 

Entre o criador e a criatura, Saramago recria a história de Caim, conhecida por todos de cor e salteado. É absolutamente cativante ler este livro, principalmente devido a ironia e ao sarcasmo do seu autor, verdadeiramente ímpar. Estejamos de acordo ou não com os pontos de vista e reflexões implícitas de Saramago (o autor apresenta um “deus” desejoso de ódio e violência, por exemplo), a verdade é que «Caim» é uma obra marcante na sua carreira, que resume muito do que foi o seu magistral passado literário. É impossível ficarmos impassíveis a ira de “deus”, da sua guerra/deceção com o Homem, que acaba por sofrer as consequências sem piedade.

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Cadernos de Lanzarote IIINum tom mais “sereno”, “de paz com a vida”, «Cadernos de Lanzarote III» aborda os diários de José Saramago entre 1993 e 1995. Oportunidade de ouro para acompanhar um pouco da vida de uma “estrela” mundial da Literatura, poucos anos antes de receber o galardão mais prestigiado e ambicionado do Mundo (mesmo quando alguns dizem que não…).

Entre a “banalidade” da vida diária e a indignação contra as injustiças perante a sua obra, descobrimos antes de tudo a pessoa que se “esconde” por trás do escritor, constatamos com curiosidade que as duas “máscaras” estão muito próximas uma da outra, como podemos demonstrar aliás através das suas obras de ficção. «Cadernos de Lanzarote III» é apenas uma prova da grandeza de um escritor que jamais se escondeu nos seus livros, um retrato da visão de um autor que marcou o seu tempo. Saramago aproveita ainda para revelar algumas das suas angústias durante o ato da criação, os caminhos que alguns dos seus livros acabaram por tomar por este ou aquele motivo.

Em resumo, «Caim» e «Cadernos de Lanzarote III» são dois livros essenciais para descobrir o escritor José Saramago e o homem José Saramago, dois “Eus” muito mais próximos do que muitos poderiam imaginar.

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Pedro Alves

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