A independência do País Basco segundo Fernando Aramburu

Um dos principais escritores da atualidade em Espanha, mas infelizmente desconhecido em Portugal, finalmente chegou entre nós o maior êxito de Fernando Aramburu, «Pátria», uma obra que foi capaz de convencer público e crítica e que já vendeu mais de 700 mil exemplares. Honra a D. Quixote, pela coragem de publicar um livro que tem a independência do País Basco como tema central.

 

Em Espanha, a Guerra Civil espanhola é um tema recorrente, mas, de certo modo incompreensível, não acontece o mesmo com a independência do País Basco, apesar das fraturas sociais e políticas que o conflito causou, não só na região, mas em todo o país. Aramburu, natural da basca San Sebastian, de certa forma, coloca um ponto final nesse “vazio” com «Pátria». Ou, melhor, abre finalmente a porta para o assunto ser abordado sem complexos pela sociedade espanhola (algo que já tinha feito com “Los peces de la amargura”, embora não de forma tão clara).

«Pátria» não é mais do que um enorme fresco sobre a independência basca, de todos os pontos de vista. No fundo, Aramburu olha para os dois lados do confronto e oferece ao leitor um olhar amplo sobre a ETA, as consequências e as fraturas que deixou abertas ao longo de mais de cinco décadas (e que ainda hoje estão abertas). O autor olha principalmente para as vítimas do conflito, para os seus mortos e sobreviventes, como as suas vidas são alteradas por completo quando as ideologias da independência invadem a casa de cada um.

Através de duas famílias, Aramburu consegue em pleno mostrar todo o drama do conflito, numa magistral novela onde o leitor acompanha com angústia a vida de Bittori, viúva de um modesto empresário executado pela ETA, supostamente pelo filho da sua ex-amiga, Miren, mulher de um operário de classe média.

«Pátria» é absolutamente absorvente, fruto da sua construção narrativa, já que Aramburu é um mestre do ritmo. A estrutura não é linear, a história varia entre o passado e o presente, com o espanhol a oferecer, ao longo da trama, as necessárias peças para a construção do seu enorme “puzzle”. Sempre através de um ritmo pausado e preciso, sem pressas, como é apanágio dos “bestsellers”. Há aqui tempo para respirar, para sorver a informação, para sugar a tragédia que cada família. O escritor espanhol deixa, aqui e ali, detalhes que acabam por fazer com que toda a nossa perceção da história seja alterada por completa, uma história que revela o seu carácter fragmentário. Nota também para os personagens secundários, essenciais no desenvolvimento da narrativa, com Aramburu a mexer com perícia as peças do seu tabuleiro de xadrez.

Sem assumir um lado político do conflito, «Pátria», vencedor, entre outros, do Prémio Nacional de Narrativa, do Prémio Nacional da Crítica e do Prémio Euskadi de Literatura, é assim um dos livros obrigatórios do ano, fruto do enorme talento do seu autor, responsável por uma das carreiras literárias mais consistentes do panorama espanhol. Agora só resta esperar que o livro publicado pela D. Quixote obtenha aqui o êxito alcançado no país vizinho e um pouco por todo o Mundo, pois só assim poderemos ter a esperança de vermos mais livros de Aramburu publicados entre nós, alguns exemplares, como são os casos de «Fuegos con limón», « Los peces de la amargura», «Viaje con Clara por Alemania», «Años lentos» e «Ávidas pretensiones».

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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