Também o Capitão América não consegue lidar com a morte

A G. Floy é atualmente uma das editoras mais dinâmicas do mercado nacional de BD. Com um catálogo heterogéneo e com várias obras premiadas um pouco por todo o lado («Saga», «Outcast», «Velvet», «Tony Chu», «Southern Bastards», etc.), uma das suas mais recentes apostas é «Capitão América: Branco», da dupla Jeph Loeb e Tim Sale. Uma obra que recoloca o super-herói na II Guerra Mundial, lutando ao lado do seu melhor amigo, James Buchanan Barnes (Bucky). Simplesmente obrigatório!

 

A série “Cores” criada por Jeph Loeb e Tim Sale procura revisitar os primeiros passos de alguns super-heróis tendo a morte como elo comum. Após «Demolidor: Amarelo», «Homem-Aranha: Azul» e «Hulk: Cinzento», a dupla olhou para um dos personagens mais marcantes da Marvel, o Capitão América.

Tudo começa quando Steve Rogers é resgatado pelos Vingadores após ter ficado congelado por vários anos, quando foi considerado inclusive morto. Tal não aconteceu, mas, apesar da sua “ressurreição”, o super-soldado não se conforma com a morte de Bucky, o seu melhor amigo. Através de uma narrativa comovente, Loeb conduz o leitor aos pensamentos mais íntimos do Capitão América, revelando as emoções de um Homem até então escondido atrás da Máscara do super-herói.

«Capitão América: Branco» une na perfeição o clássico com o vanguardismo

Sempre apoiado pelas admiráveis ilustrações de Sale, o argumentista explora com grande cuidado a relação entre Steve Rogers e James Buchanan Barnes, a amizade e o amor (sim, o amor) que os unia, uma relação construída num campo de treino militar e cimentada em várias missões, principalmente durante a II Guerra Mundial, no caso concreto em Paris, em 1941.

O que podemos destacar acima de tudo é o olhar humano da História, colocando a ação em segundo plano por diversos momentos, embora, evidentemente, ela esteja também presente. Mas o foco é definitivamente o relacionamento entre o Capitão América e Bucky, entre estes dois homens até então solitários que se reencontram no exército dos Estados Unidos e um no outro.

É notório o afeto existente entre os dois e o trauma que a perda de James Buchanan Barnes causa em Steve Rogers. Num ritmo adequado ao tom da história, estamos perante uma BD que procura respeitar todo o legado do Capitão América, sem deixar de imprimir um tom intimista necessário para a credibilidade da história. Dificilmente o leitores não sentirão empatia com a dor do super-soldado, mas principalmente com a culpa que sente Rogers por não ter salvo o seu melhor amigo.

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A estratégia narrativa de utilizar a “voz off” de Rogers é mais do que acertada, o que faz com que acompanhemos os seus profundos pensamentos, além das suas recordações ao lado de Bucky. Há evidentemente um ar nostálgico que atravessa todas as páginas, apesar da tragédia que assola a vida do seu protagonista, que, através de um exuberante monólogo interior, revela muito do seu “Eu”.

A história de Loeb é sustentada em pleno pela ilustração de Sale, comprovando a cumplicidade entre os dois, que não aconteceu apenas e só nesta série. Mais uma vez o ilustrador consegue unir o traço vanguardista do nosso tempo sem ignorar o clássico. É notório o respeito que Loeb procura atribuir ao passado do Capitão América, uma ponte que nem todos são capazes de conseguir.

«Capitão América: Branco» é assim uma BD obrigatória, mais uma do respeitável catálogo da G. Floy, que, com uma escolha criteriosa e bastante seletiva, prova que não é a quantidade que faz uma editora.

A surpresa quando James descobre que Steve Rogers é o Capitão América
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Pedro Alves

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