Éric Vuillard revela o obscurantismo do regime Nazi e vence o Goncourt com «A Ordem do Dia»

Prémio Goncourt, o principal galardão das letras francesas, «A Ordem do Dia», editado pela D. Quixote, marca a estreia de Éric Vuillard na edição portuguesa. E que estreia… Se pensa que já leu tudo sobre a II Grande Guerra, é melhor comprar este pequeno mas apaixonante livro.

 

Num livro absolutamente hipnotizante, fruto da linguagem de Vuillard, «A Ordem do Dia», através de curtos capítulos espalhados em apenas 141 páginas, aborda a obscuridade do regime Nazi, dos seus líderes mas também daqueles que preferiram tirar proveito dele, como foi o caso da elite industrial e financeira alemã (Opel, Krupp, Siemens, IG Farben, Bayer, Telefunken, Agfa, Varta e um longo etc.), numa reunião secreta com Hitler em 1933 (ou seja, muito antes do início “oficial” da guerra); ou daqueles que, por medo, acabaram por rejeitar as suas convicções, mesmo que fossem déspotas, como foi o caso do chanceler austríaco Kurt Schuschnigg, ou com responsabilidades, como Lord Halifax; sem falar do Acordo de Munique, onde a passividade de Inglaterra e França foi algo assustador…

O grande mérito de Éric Vuillard é apresentar pequenos momentos que, provavelmente, cairiam no esquecimento de todos caso não os tivesse abordado em «A Ordem do Dia», mas “pequenos momentos” que fizeram toda a diferença na ascensão do regime Nazi e a consequente II Grande Guerra.

A capa de «A Ordem do Dia», de Éric Vuillard
A capa de «A Ordem do Dia», de Éric Vuillard

O gaulês não se inibe e dá “nome aos bois”, não se esconde nas palavras e opina, deixa indelevelmente a sua marca nas 141 páginas do livro. Éric Vuillard dramatiza a história e complementa os dados históricos e comprovados com detalhes ficcionados, o que faz com que leitor “viva” os momentos descritos pelo francês. A leitura é assim breve e ágil, mas apaixonada e surpreendente.

«A Ordem do Dia» é um livro extremamente emocional

Mas, acima de tudo, é emocional, já que é quase impossível ficarmos indiferentes ao seu texto, este causa “burburinhos” no nosso interior, já que não conseguimos ficar alheios aos factos relatados por Vuillard, algo que começa logo no primeiro capítulo com «os sacerdotes da grande indústria alemã» a doar a Hitler e os seus pares indigentes quantidades de dinheiro tendo em vista exclusivamente os seus interesses (mais tarde, o autor regressa a esses mesmos empresários e industriais, revelando como se beneficiaram do regime Nazi e como procuraram esconder a verdade para não serem associados ao mesmo regime que promoveram).

Um dos capítulos mais marcantes é «Os Mortos», quando Vuillard revela os vários suicídios ocorridos (mais de um milhar em uma semana, grande parte deles abafado pela propaganda nazi) após a anexação da Áustria. Um texto absolutamente aterrador, onde o autor culpabiliza “todos nós” por tudo o que aconteceu.

«Alma Biro não se suicidou. Karl Schlesinger não se suicidou. Lepold Bien não se suicidou. E Helene Kuhner, também não. Nenhum deles se matou. A sua morte não pode identificar-se como a narrativa misteriosa das suas desditas. Não pode mesmo dizer-se que tenham escolhido morrer dignamente. Não. Não foi um desespero íntimo a devastá-los. A sua dor é uma coisa coletiva. E o seu suicídio, um crime cometido por outrem.»

Vuillard mais não faz do que apontar alguns (ou todos?) dos culpados da ascensão do regime Nazi, entre eles algumas das principais marcas alemães, entre os ativos mais importantes da economia mundial nos dias de hoje. Uma pequena obra-prima.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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