Treinador do recordista europeu da Maratona contra as suspeitas de doping

O recente recorde europeu na Maratona de Sondre Nordstad Moen em Fukuoka surpreendeu tudo e todos. Nas redes sociais, muitos colocaram em dúvida o seu feito, dando a entender que foi alcançado devido ao doping. O seu treinador, o italiano Renato Canova, refutou as críticas e explicou o êxito do seu atleta: trabalho!

 

Em declarações ao site Lets Run, Canova não escondeu a sua insatisfação pelas dúvidas surgidas nas redes sociais pelo tempo alcançado por Moen, com uma evolução significativa nos últimos dois anos (leia aqui). Ao mesmo tempo, o treinador do atleta do momento na Europa ficou maravilhado com a estratégia do seu pupilo em Fukuoka, além da evolução do seu caráter nos últimos meses.

«De novo surgem dúvidas sobre algo que, para mim, é normal quando um atleta de um grande talento apresenta continuidade, motivação, treino correto e duro, vivendo (como um queniano) em altitude a maior parte do ano (223 dias no presente ano, desde 1 de janeiro).

Da enorme atuação de Moen em Fukuoka, mas especialmente da maneira como o fez, claramente podemos extrair duas conclusões:

1) Os corredores “brancos”, de enorme talento (mas não excecionais, como muitos quenianos e etíopes), se decidem ser ATLETAS, ou seja, centrados apenas em correr durante o ano, podem ser como os melhores africanos e, em determinados momentos, inclusive melhores.

2) Os corredores limpos, de enorme talento (mas não excecionais, como muitos quenianos e etíopes), se decidem ser ATLETAS, centrados apenas em correr durante o ano, podem alcançar o topo do Mundo sem que o seu desempenho dependa se são ou não africanos.

Naturalmente, há agora algum idiota cético que acredita que o doping é a principal razão da ascensão do rendimento de Moen. Quem o conhece (e, consequentemente, a firmeza e a claridade da minha postura), sabe bem que ele nunca consome nenhum suplemento, muito menos ilegal, porque é algo que vai contra os nossos princípios. Aliás, acredito que essa é a melhor maneira de tornar débil a nossa mente.

A sua melhoria este ano aconteceu de forma muito gradual e agora parece que é uma explosão apenas por ocorrer uma diferença de mais de 4 minutos entre a sua anterior Maratona, em Hannover, e Fukuoka. Todavia, há que centrar o olhar no que aconteceu entre ambas as provas, concretamente 237 dias, durante os quais foi possível construir uma situação nova, incluindo um enorme aumento de confiança em sim mesmo e da sua personalidade.

Durante os treinos, já tinha notado potencial para Moen correr em 2h06, mas a verdadeira surpresa, para mim, foi a interpretação que ele fez da corrida e a personalidade que demonstrou na prova, atacando depois do km 30, com um parcial de 29m16 entre o km 30 e 40 e, nos últimos 2.195 metros, ainda mais rápido (uma média de 2m55/km).»

Renato Canova acredita na entrega para vencer no Atletismo

O pensamento de Canova continua no Lets Run.

«Espero que estes resultados, em lugar de ser associado ao doping, leve as pessoas a pensar que os limites que colocamos a nossa mente sobre o rendimento “limpo” não são reais e que dependem não do doping dos demais atletas, sim do feito de que NINGUÉM QUER FAZER UMA ELEIÇÃO DE VIDA DEDICANDO AO ATLETISMO UMA PEQUENA PARTE DA MESMA. Este ano, Sondre dedicou todo o seu tempo ao Atletismo, passando 223 dias (até Fukuoka) em altitude, a maior parte do tempo sozinho, focando o seu tempo exclusivamente no treino, na alimentação e no descanso.

A qualidade dos seus treinos melhorou de dia para dia. Antes, para Moen, era complicado correr dois dias seguidos a médias entre 3m45 e 3m50 por quilómetro porque terminava os treinos com as pernas muito rígidas, muto cansadas depois de um treino normal. Hoje, não consegue correr mais lento do que 3m40/km. Em alguns momentos, tive que o obrigar a correr a ritmos regenerativos, nunca mais rápidos que 3m45/km.

Renato Canova é um dos principais treinadores da atualidade
Renato Canova é um dos principais treinadores da atualidade

O incremento da sua capacidade aeróbica básica permitiu que Moen encarasse sessões frequentes com altos volumes a ritmos de Meia-maratona (entre 2m47 e 2m52 por quilómetro) e a ritmos de Maratona (entre 2m57 e 3m02 por quilómetro). Agora, estes dois tipos diferentes de ritmos converteu-se em algo normal no desenvolvimento do seu treino.

Posto isto, devemos perguntar: quais são os limites reais para um atleta com um grande talento mas não excecional, que consegue continuidade no treino, uma modulação correta entre sessões complicadas e recuperações, uma grande motivação, uma grande capacidade mental para crescer e uma grande confiança em si mesmo, somando a tudo isto a altitude?

E, quando sabemos que isto é possível estando limpo, podemos realmente acreditar que todo mundo que é rápido a correr está dopado? Podemos realmente acreditar que a utilização de EPO em atletas que estão verdadeiramente a treinar bem em altitude pode gerar uma melhoria de um minuto em 10000 metros ou de 4 minutos numa Maratona?»

Em conclusão, Canova defende que «as diferenças entre atletas em diferentes níveis são o talento, a motivação e o treino (EM ALTITUDE)». No final, uma clara mensagem para todos:

«Limpa a tua mente, começa a acreditar em ti mesmo e, se realmente estás interessado/a em melhorar as tuas prestações, treina duro e treina limpo.»

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Pedro Alves

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