Corra pela sua felicidade

«Reconhecer a dor e o medo e vê-los pelo que são – sentimentos e pensamentos que, se permitirmos, vão e vêm – é o cerne do mindfulness», refere William Pullen em «Corra pela sua Felicidade – Corrida ao ar livre e mindfulness: a equação perfeita para uma vida saudável e equilibrada», editado pela Casa das Letras. 

 

CORRER PARA TRÁS

Se o caminho à sua frente está desimpedido, provavelmente está no de outra pessoa.
JOSEPH CAMPBELL

Ninguém gosta de correr para trás – bem, não durante muito tempo, pelo menos. No entanto, todos os percursos incluem inevitavelmente percalços. Quando estamos a correr para trás, metaforicamente, enquanto todas as outras pessoas parecem seguir na direção contrária, podemos sentir-nos excecionalmente sós e isolados, na exata altura em que estamos mais necessitados. E, ainda assim, lutar contra as voltas e reviravoltas inevitáveis da vida é estar a pedir desilusões atrás de desilusões. Se nos lembrarmos da natureza errante da vida, conseguimos ser mais tolerantes e filosóficos durante os momentos em que sentimos que todos os esforços para seguir em frente são sabotados.

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O que quer que estejamos a fazer, começamos muitas vezes o percurso com grande entusiasmo, porém, descobrimos
que existem monstros pelo caminho. Descobrimos que não estamos assim tão aptos para um trabalho ou uma relação como tínhamos pensado, ou que os outros não nos veem como nós nos vemos a nós próprios. É quando o verdadeiro teste começa. Para algumas pessoas, estes desafios adquirem a forma de uma deficiência física, um ambiente familiar abusivo, pobreza ou guerra. Para outras, a batalha ocorre no interior: sentimentos como medo, autoaversão e depressão – as coisas do dia-a-dia quando a dúvida e o medo nos dominam.

Orgulho, Vergonha e Outros Parceiros de Corrida

Se der por si a correr para trás durante a sua TCD, pergunte a si mesmo se existem lições a aprender com a experiência. Orgulho, vergonha e outras emoções dolorosas conseguem ensinar-nos tanto sobre quem somos e o que precisa de atenção. Já discutimos a necessidade de reconhecer os nossos sentimentos, e nada muda com eles. Se sentiu vergonha ou orgulho no seu percurso, não tente fugir dos assuntos obscuros pelos quais sabemos, no fundo, que somos pelo menos parcialmente responsáveis.

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Quando nos escondemos por trás do orgulho, acabamos muitas vezes por encurralar os mesmos sentimentos
que estamos a tentar evitar. Por exemplo, podemos pensar «Ai de mim se admitir o quão fraco me sinto na minha vida, sou melhor que isso», mas, de facto, sobrecompensar pensamentos como este tornam-nos, com frequência, mais fracos. Deixam-nos quebrados e exaustos com o esforço de manter o que não é real. Pense no orgulho e na vergonha que sente no percurso, como homens sábios que chegam para lhe ensinar lições importantes como esta, ou mentores com o poder de desvendar um tesouro escondido tal como onde se encontra a sua verdadeira força.

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Experimente comprometer-se neste processo de aceitação e a ser o mais honesto que conseguir. É uma tarefa
dolorosa – as lições mais importantes são muitas vezes também as mais difíceis e as últimas que aprendemos. Seja sincero consigo mesmo à medida que corre. Tenha coragem e fé – saberá quando encontrar pelo caminho orgulho e vergonha e cabe-lhe, somente a si, descobrir o que existe por trás deles. Seja paciente, muitas vezes demoramos tempo a lembrar-nos do que estamos a esconder e onde e quando o escondemos.

A Luta Consciente

Reconhecer a dor e o medo e vê-los pelo que são – sentimentos e pensamentos que, se permitirmos, vão e vêm – é
o cerne do mindfulness. Se se desorientou no seu caminho e está a esforçar-se para estar confortável com uma perda de impulso, inércia ou sensação súbita de incerteza ou medo, use a experiência de uma forma consciente. Qualquer um destes cenários é uma boa oportunidade para fazer alguma contemplação ou meditação consciente – afinal de contas, nada é verdadeiramente errado, pois não? Na maioria tratam-se apenas de pensamentos que ganharam raiz na sua mente. Irão passar se assim o permitir. Respire fundo, abandone a sua mente e entre no momento que está a viver.

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Reconheça o sentimento de estar magoado ou assustado, mas não se demore nele, não lute contra ele, nem tente
fingir que não existe. Pema Chödrön, uma célebre escritora e monja budista, vai ao ponto de dizer que devíamos estar gratos por estes momentos de dor e dúvida e vê-los como oportunidades para crescer. Experimente usar cada momento como uma oportunidade para melhorar a sua prática. Afinal de contas, os altos e baixos estão fora do nosso controlo, mas o que fazemos com eles não.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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