Como Rosa Mota ganhou o ouro na Maratona dos Jogos Olímpicos de Seul88

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Depois do ouro de Carlos Lopes em Los Angeles84, Portugal voltou a subir ao lugar mais alto do pódio olímpico na Maratona, desta vez no feminino, em Seul88, com Rosa Mota. No terceiro dia d´«A Semana de “Moniz Pereira – Vida e Obra do Senhor Atletismo”», ficamos a conhecer os pormenores desta conquista. Refira-se que a edição do livro é da Guerra & Paz.

 

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E assim chegamos à Olimpíada de Seul, no ano de 1988, onde Rosa Mota se cobriu de glória e onde Mário Moniz Pereira foi o primeiro medalhado, quando menos esperava.

MP: «Bom. Nunca pensei que seria o primeiro medalhado destes Jogos. Mas o facto é que, na véspera dos Jogos, durante a cerimónia do içar da bandeira portuguesa, em plena Praça das Bandeiras, perante várias delegações de outros países, o meu amigo José Sacadura, director técnico da Federação Portuguesa de Natação, chegou-se ao pé de mim, deu-me um abraço, ferrou-me duas repenicadas beijocas e comunicou-me que o Comité Olímpico Internacional me havia concedido a Ordem Olímpica!…»

FC: «Parabéns, Mário.»

MP: «Só as pessoas que me conhecem bem podem avaliar a comoção que de mim se apoderou, até porque todos os atletas e dirigentes de nossa equipa me vieram dar os parabéns. É claro que fiquei muito satisfeito com tal galardão, tanto mais que ele foi a melhor resposta a toda uma onda de contestação que havia sofrido nalguns órgãos de comunicação. Recebi dezenas de felicitações, das quais me parece justo salientar dois telegramas que tiveram um significado especial.
O primeiro do Presidente do Comité Olímpico Internacional, que dizia: “Tengo el honor de comunicarle que la 94 sesión del COI, reunida en Seul del 13 al 16 de Setiembre, ha decidido otorgarle la orden olímpica y quisiera transmitirle mi sinceras felicitaciones.”
Assinado por José António Samaranch.
O outro foi do director geral dos Desportos: “Felicito vivamente galardão atribuído pelo COI que consagra a qualidade, o investimento e o prestígio do homem, do técnico que, pelo desporto, serve o país. Permita-me que, como profissional, me associe a V. Ex.ª neste momento tão significativo para o desporto português.” Assinado porArcelino Mirandela da Costa.»

FC: «Foi um começo em grande de uns grandes Jogos.»

MP: «Não foi propriamente por causa deste inesperado acontecimento que considero os Jogos de Seul como um dos melhores dos doze a que assisti. Mas fundamentalmente pela excelente organização, pelos resultados obtidos, pelas condições atmosféricas que proporcionaram esses mesmos resultados, pelas instalações desportivas e por aquelas que tivemos na Aldeia Olímpica, pelo muito bom acompanhamento feito pelos dirigentes responsáveis e pelos treinadores, e pelo civismo e espírito de equipa demonstrado pelos nossos atletas.
Evidentemente que nem tudo foi perfeito, sendo o mais lamentável o número de concorrentes que foram apanhados nas malhas do doping, essencialmente na halterofilia, onde chegou a ser escandaloso.
Também, no atletismo, o canadiano Ben Johnson, depois de ter batido o norte-americano Carl Lewis e o máximo mundial dos 100 metros, foi desclassificado por dopagem. Mas seria só ele? Ainda existem muitas dúvidas acerca de alguns resultados, principalmente os obtidos pela norte-americana Florence Joyner (21,34 s nos 200 metros), que ainda hoje constitui recorde do mundo, e os dos lançadores e saltadores!»

FC: «E vem aí Rosa Mota para ganhar a maratona.»

MP: «Tal como acontecera quatro anos antes em Los Angeles, o atletismo foi a modalidade mais em evidência, com sete atletas nos treze primeiros lugares. Depois de ter sido a primeira atleta feminina portuguesa a obter uma medalha (bronze) em Jogos Olímpicos (Los Angeles – 84), Rosa Mota conseguiu a primeira medalha de ouro quatro anos depois, em Seul. Era o título que lhe faltava, depois de ter sido campeã da Europa por duas vezes consecutivas (Atenas – 82 e Estugarda – 86) e campeã do mundo em 1987 (Roma), onde terminou com 7 minutos de vantagem sobre a segunda classificada. Mais tarde (1990), voltaria a ser campeã da Europa, pela terceira vez consecutiva (Split).
No ano olímpico de 1988, Rosa Mota vencera a maratona de Boston, em 18 de Abril, com o excelente tempo de 2 h 24.30 s e, por tal motivo, cinco meses depois apresentava-se à partida da maratona de Seul, na qualidade de uma das principais favoritas, na companhia da australiana Lisa Martin, que fizera em 1 de Janeiro, em Osaka, 2 h 23.51 s, da norueguesa Ingrid Kristiansen, que obtivera em 17 de Abril, em Londres, a marca de 2 h 25.41 s, e da alemã Katrin Dorre, que, em Huy, realizou 2 h 28,28 s.»

FC: «E eram só essas as atletas que podiam ganhar medalhas?»

MP: «Segundo os especialistas, para as três medalhas olímpicas, eram, de facto, estas quatro atletas as principais candidatas. Alinharam à partida 72 atletas e, até aos 38 km, Rosa Mota, depois de passar em 17.10 s jogos olímpicos aos 5 km; em 34.13 s aos 10 km; em 1 h 08.46 s aos 20 km; em 1 h 43.13 s aos 30 km; e aos 35 km em 2 h 01.09 s, limitava-se a seguir à cabeça do pelotão, onde já não seguia Ingrid Kristiansen, que entretanto desistira. Nessa altura, o seu treinador, José Pedrosa, ordenou-lhe que atacasse fortemente, para descolar a australiana Lisa Martin, que, desde a partida, a seguira como uma sombra, e a alemã Katrin Dorre.»

FC: «E a Rosa atacou.»

MP: «Aproveitando uma descida, Rosa obedeceu ao grito do seu técnico, e em boa hora o fez, pois foi-se distanciando das suas adversárias, para chegar à meta com 13 segundos de vantagem sobre a australiana e mais de meio minuto sobre a alemã. Eis a classificação final das oito primeiras:

1.ª) Rosa Mota, POR, 2 h 25.40 s;
2.ª) Lisa Martin, AUS, 2 h 25.53 s;
3.ª) Katrin Dorre, RDA, 2 h 26.21 s;
4.ª) K. Polovinskaia, URS, 2 h 27.05 s;
5.ª) Youfeng Zhao, CHN, 2 h 27.06 s;
6.ª) Laura Fogli (ITA), 2 h 27.49 s;
7.ª) Daniele Kaber, LUX, 2 h 29.23 s;
8.ª) Maria Curatolo, ITA, 2 h 30.14 s.

Conceição Ferreira, que foi 20.ª classificada entre 72 atletas, fez uma corrida muito regular, com 2 h 34.23 s., e Aurora Cunha, que ganhara em Paris (15 de Maio), com 2 h 34.56 s, foi obrigada a desistir.
Após esta grande vitória, José Pedrosa diria ao enviado especial do jornal A Bola, Carlos Miranda, que a táctica tinha sido perfeita, pois fora no momento exacto que gritara: “Ou agora ou nunca!”
Na verdade, a nossa grande atleta arriscava-se a perder numa chegada ao sprint, visto ser menos rápida que as suas adversárias… Em minha opinião, Rosa Mota, ao obter o título de campeã olímpica que lhe faltava, tornou-se na melhor maratonista mundial de todos os tempos.
Não só pela longevidade da sua carreira, mas, principalmente, pelas 14 vitórias obtidas nas principais maratonas do mundo. Merece a pena citá-las:

12/9/82 – Atenas, 2 h 36.04 s (Campeã da Europa);
9/4/83 – Roterdão, 2 h 32.27 s;
16/10/83 – Chicago, 2 h 31.12 s;
21/10/84 – Chicago, 2 h 26.01 s;
26/8/86 – Estugarda, 2 h 28.38 s (Campeã da Europa);
16/11/86 – Tóquio, 2 h 27.15 s;
20/4/87 – Boston, 2 h 25.21 s;
20/8/87 – Roma, 2 h 25.17 s (Campeã do Mundo);
18/4/88 – Boston, 2 h 24.30 s;
23/9/88 – Seul, 2 h 25.28 s (Campeã Olímpica);
28/1/90 – Osaka, 2 h 27.47 s;
16/4/90 – Boston, 2 h 25.24 s;
27/8/90 – Split, 2 h 31.27 s, (Campeã da Europa);
21/4/91 – Londres, 2 h 26.14 s (Taça do Mundo).

Só de dizer este seu palmarés, fiquei cansado…»

FC: «E eu também, de ouvir e escrever.»

MP: «De notar que, tal como Carlos Lopes, Rosa Mota deu sempre a sua colaboração às equipas nacionais de corta-mato e de pista, o que só lhes foi benéfico. Nos mundiais de crosse, participou em sete: Madrid (81), Roma (82), Gateshead (83), Nova Iorque (84), Lisboa (85), Neuchatel (86) e Varsóvia (87) e, na pista, as sua melhores marcas foram: 800 m: 2,10.76 s (85); 1000 m: 2,51.8 s (81); 1500 m: 4,19.53 s (83); 5000 m: 15,22.97 s (85); 10 000 m: 32,33.51 s (85). É mais um grande exemplo para aqueles que, actualmente, se dedicam exclusivamente à maratona e desprezam as provas de pista e crosse.»

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Até sempre, Moniz Pereira!

A medalha de ouro de Carlos Lopes segundo Moniz Pereira

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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