A crise da meia-idade e as corridas de longa distância

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No segundo dia d´«A Semana de “Correr com a Matilha”», obra editada pela Lua de Papel, Mark Rowlands aborda o “bichinho” da corrida que assolou milhões de pessoas nos últimos anos. O autor vai mais longe e analisa «o quarentão ou quarentona que começa a ficar obcecado por testar os limites da sua resistência». Uma crise de meia-idade?

 

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«Assim, vou participar nesta maratona talvez porque algumas histórias de terror são verdadeiras.

Há uma parte de mim que gosta desta explicação. Há uma certa familiaridade reconfortante – talvez até uma certa nostalgia – que a acompanha. As circunstâncias fizeram com que eu vivesse a maior parte da minha vida adulta fora da Grã-Bretanha, mas continuo a ter o sangue britânico que me permite reconhecer a velha tradição de pegar numa atividade que alguém tem e encontrar maneiras de a denegrir – de preferência atirando calúnias acerca dos motivos ou do caráter da pessoa que pratica essa atividade. Aprecio esta tradição pelo seu caráter cultural – mesmo quando sou eu o caluniado. Agora já sei por que razão vou participar na maratona. É a crise da meia-idade, amigo.

Ainda assim, estou longe de ser o único a ter este novo passatempo.

Faço parte de um fenómeno cultural que cresce rapidamente – o quarentão ou quarentona que começa a ficar obcecado por testar os limites da sua resistência. Neste sentido, os meus esforços são embaraçosamente fracos. Esqueçam as maratonas: as corridas radicais – como as corridas de 80 quilómetros, 160 ou mais – andam a aparecer por todo o lado. Talvez a mais difícil seja a Badwater, uma corrida de 217 quilómetros que se estende por uma grande parte da Califórnia. Começa em Death Valley, 86 metros abaixo do nível do mar, e acaba a um nível bem mais alto, a 2,6 quilómetros, em White Portal, no terminal ferroviário de Mount Whitney, o ponto mais alto daquele estado. Nas primeiras etapas da corrida, as temperaturas chegam aos 54°C. Se expusermos pão ao ar livre, a esta temperatura, ele começa a tostar. O alcatrão está tão quente que a sola das sapatilhas começa a derreter, por isso, temos de correr em cima do traço branco à beira da estrada – que está menos quente porque reflete o calor. Depois, há ainda a Marathon des Sables, uma corrida de seis dias e 243 quilómetros pelo Deserto do Sahara. Os atletas têm de levar seringas com antiofídico por causa da enorme quantidade de cobras que se lhes atravessam no caminho. Para quem está farto do calor, há também Hardrock – 160 quilómetros, a altitudes superiores a 4 270 metros pelas Colorado Rockies (Rockie Mountains, Colorado, EUA) – uma corrida lenta e difícil que implica subidas e descidas impossíveis por montes escarpados, cujos principais problemas físicos podem ser um edema cerebral de grande altitude. Muitos destes atletas demoram 48 horas a chegar ao fim da corrida, o que significa – dado que a partida é antes do amanhecer – que irão assistir ao nascer do dia três vezes ao longo da corrida. Depois, há Leadville, mais uma corrida pelas Colorado Rockies, a 4 268 metros e com 160 quilómetros, que se realiza na cidade mais alta dos EUA, e em que a taxa de finalização é menor do que a de Hardrock.

Tenho de admitir: fui mordido pelo bichinho.

Aquelas corridas são monstros que me hão de transcender sempre. Mas, se conseguir curar o meu gémeo, tenho na mira uma corrida mais branda, talvez de uns 80 quilómetros, lá para o fim do ano. Será que nós, os malucos da resistência, sofremos com as nossas crises de meia-idade?

Segundo a caricatura das crises de meia-idade, os homens ficavam obcecados por carros desportivos e por mulheres muito mais novas.

E agora, é pela Badwater ou pela Marathon des Sables?

Suponho que, se a minha interpretação estiver correta, devíamos alargar a ideia de crise da meia-idade, tornando-a mais inclusiva e não sexista. Esta “crise” está longe de ser uma coisa própria dos homens. Existem tantas mulheres como homens com o bichinho da resistência. E as mulheres competem com os homens mais ao menos em pé de igualdade. Aparentemente, nenhuma mulher supera o Usain Bolt, mas quanto mais longa for a corrida, menor é a distância entre mulheres e homens. A Ann Trason consegue vencer a ultramaratona dos 160 quilómetros sem qualquer problema, ou pelo menos costumava vencer. Pois é, eu acredito que as mulheres também têm crises de meia-idade, mas o maior problema é partir do princípio que o rótulo de “crise de meia-idade” explica tudo e mais alguma coisa.

O facto de se rotular uma coisa é, frequentemente, para evitar que se pense sobre esse assunto, no exato momento em que devíamos começar a refletir. Temos de ir ao fundo da questão. O que é a crise da meia-idade? Qual a sua essência? Especificamente, será que o tipo de crise da meia-idade com a Hardrock ou a Marathon des Sables tem algo em comum com o cliché clássico de mulheres mais novas e carros desportivos? Talvez haja algo em comum entre as duas alegadas crises, mas até eu conseguir identificar exatamente o que é, o rótulo “crise da meia-idade” não significa nada.

Há uma forma de encarar a crise da meia-idade associada à ideia de realização. A crise da meia-idade é o resultado da perceção de que as nossas capacidades estão em declínio e, consequentemente, que o que podemos alcançar está, a partir daí, condenado por uma margem cada vez maior e, até mesmo, embaraçosa.

A mulher mais nova ou o carro desportivo são uma tentativa de reafirmar o poder de controlo sobre o que se pode alcançar. Será disto que se trata?

matilhaClaro que só posso falar por mim. Mas a hipótese de se tratar de uma reafirmação do poder de controlo sobre o que se pode alcançar – a ideia de que a corrida tem que ver com a realização – não me convence. Acho que uma das coisas que percebi rapidamente com a corrida foi a futilidade da realização. Na maior parte das vezes que fiz corridas, não pensei na questão da realização, pelo menos que me tenha apercebido. Tratava-se apenas de uma coisa que fazia, por variados motivos. Suponho que o facto de participar nesta corrida junta um certo sentimento de realização a esses motivos.

Mas, ainda assim, o tipo de realização em causa tem que ver com uma estranha autossubestimação. Quando comecei a treinar para esta maratona, dez quilómetros sob o calor de fim de verão de Miami quase me matavam. Fui aumentando a distância progressivamente. Nas noites que antecediam as minhas corridas de fundo, mal conseguia dormir e estava deserto para ver se conseguia correr distâncias maiores.

Mas assim que o fazia, aquele sentimento imediato de satisfação dava lugar ao desassossego. Fazer 20 quilómetros não é mau, mas na próxima semana faço 21. Para se conseguir aumentar as distâncias, é necessário traçar objetivos semanais concretizáveis – objetivos que conseguiremos atingir, se nos esforçarmos – e alcançá-los. Parece ser uma questão de trabalho árduo e de alcançar objetivos: uma das premissas do Sonho Americano. Mas para mim – não sei como é com as outras pessoas –, trata-se de um ciclo trabalho-realização muito especial. Um ciclo trabalho-realização que revela a futilidade de todos os ciclos trabalho-realização. Correr longas distâncias é um tipo de realização baseada em objetivos, que revela o fracasso da realização por objetivos.

Imagine que é uma criança e que está à porta de uma loja de doces, sem dinheiro, a olhar para os doces que não pode comprar. Deus aparece-lhe e diz:

– Sabes, miúdo, um dia hás de poder comprar tudo o que há nesta loja.
– A sério, Deus?
– Sim. E sabes que mais? Quando o puderes fazer, já não te vai apetecer. A vida é mesmo assim, miúdo!

Acho que qualquer tipo de realização que valha a pena muda-nos de tal maneira que o que almejávamos deixa de ser importante.

Se por milagre eu acabar esta maratona, vou fazer um lanche ajantarado para celebrar – ou seja, uma litrada de mojitos – em South Beach. Mas garanto-vos que, pela hora de jantar, o meu surto de satisfação já terá dado lugar à insatisfação. A primeira coisa em que vou pensar vai ser: bem, afinal consegui, e ainda por cima, com um treino bastante limitado. Não é assim tão difícil. Depois, vou começar a pensar na Keys 100 – uma ultramaratona (de 80 ou 160 quilómetros, é só escolher) de Key Largo até Key West, que tem lugar em maio. Em seguida, vou começar a pensar em desafios ainda maiores que estão projetados para 2011 e 2012. Mas o objetivo não é alcançar o que quer que seja. Pensar que sim seria distorcer tudo. Não quero uma pilha de certificados para pendurar na parede da sala, nem medalhas, nem fivelas que mostrem às pessoas que corri esta e aquela prova. E o sentimento de satisfação por saber que cheguei ao fim de uma corrida?

Nem isso me importa. Para mim, o sentimento de realização é o processo de fazer com que os sucessos que obtive deixem de ter importância. Claro que tenho de obter sucessos para fazer com que estes sejam alterados pelo próprio processo de os alcançar. Mas alcançá-los é apenas um meio para atingir um fim. Eu corro porque quero mudar. Claro que a questão é: como?»

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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