Consegue ficar uma semana sem falar?

«A Semana do Silêncio» entra no seu quarto dia. Em «A Magia do Silêncio», livro editado pela Arena, a autora Kankyo Tannier revela que, todos os anos, faz um retiro de uma semana sem falar. Conseguiria?

 

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis (Heterónimo de Fernando Pessoa), excerto do poema «Segue o teu destino»

APRENDERMOS A CALAR-NOS

«As palavras que não são ditas são as flores do silêncio.»
Provérbio japonês

Por que razão é tão difícil

Depois da poesia, passemos às coisas sérias. Leu o título desta secção e o melhor é preparar-se para as profundas transformações que serão necessárias. O acesso à calma e ao silêncio tem este preço. Mas sossegue, o resultado compensa o «sacrifício». Porque, para alguns de nós, é realmente de um sacrifício que se trata, como se sofrêssemos uma amputação, nós que estamos habituados a comentar, entre colegas, vizinhos, amigos, o mínimo pormenor da nossa vida… ou da meteorologia! 

Os mosteiros zen não escapam à regra. Embora concebidos como espaços dedicados ao silêncio e à meditação, são habitados por pessoas como nós. Alguns residentes têm um gosto natural pelo silêncio, outros adquiriram-no aos poucos, outros ainda vivem-no como uma tortura. Todas as manhãs, antes da meditação, dispomos de vinte minutos para procedermos a uma higiene básica e beber um pequeno chá na sala comum. Desde a noite da véspera que a regra do silêncio está em vigor. Mas alguns praticantes têm muita dificuldade em estar na companhia de outras
pessoas, a tomar um chá, sem trocarem olhares de conivência ou pequenas palavras matutinas. Como é mais ou menos «proibido», fazem-no em voz baixa, sub-repticiamente. Durante muito tempo, perguntei-me: Mas porque é que o silêncio completo é impossível? Porque parece ser absolutamente essencial entrar em contacto com um «outro»?

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Na verdade, a palavra social parece, muitas vezes, um exercício de restabelecimento da autoconfiança: olho para o outro, cumprimento-o, ele cumprimenta-me, oferece-me algumas palavras e confirma assim a minha existência. Ou, para o dizer de outro modo, o olhar e a palavra do outro fazem-me existir. Quererá isso dizer que de outra forma não existo? Um livro inteiro não bastaria para explorar este tema! Quem sou eu? O que é a realidade? As relações sociais são essenciais à sobrevivência? Filósofos e cineastas (ver o filme Matrix) regozijaram-se a confundir as pistas e a instilar fragmentos de incerteza nas nossas vidas bem ordenadas. O budismo não lhes ficou atrás, mas, também aí, silêncio.

A prática do silêncio das palavras opõe-se violentamente à nossa necessidade de sermos vistos, e ouvidos. É por isso que algumas pessoas — certamente mais sensíveis ao olhar do outro — se sentem desconfortáveis quando têm de se calar. 

As vantagens do silêncio das palavras

Apaziguar a mente

No budismo, chamamos a esta prática «Nobre Silêncio». Consiste em calarmo-nos e em deixarmos passar as palavras que nos ocorrem, sem as dizer. Decidir, consciente e voluntariamente, não falar. As vantagens são numerosas. E em poucas horas, ou alguns dias, a mente acalma-se.

Uma vez por ano, realizamos um retiro de uma semana em silêncio, no coração do Inverno. Além do cenário feérico, sob a neve, é um momento privilegiado para nos entregarmos de corpo e alma a esta prática. Este retiro, essencialmente dedicado à meditação, tem o nome de rôhatsu. Realiza-se em homenagem à iluminação de Buda há 2600 anos, a 8 de Dezembro (a data não está confirmada, não tiraram selfie nesse dia…). Uma semana sem falar: as condições ideais! Todos os anos (é o meu décimo segundo rôhatsu), comprovo com um espanto renovado o efeito singular que este silêncio tem sobre a minha actividade mental. Ao fim de algumas horas, o meu estado de espírito é de tranquilidade, até de felicidade, ao contemplar uma série de dias numa calma salutar.

De um modo geral, temos ideias, vontades, comentários a exprimir sobre os assuntos do dia-a-dia: o trabalho, os transportes em comum, a política, etc. Mesmo sem nos «esquecermos» de os formular, estes temas perdem rapidamente a importância. Um conflito com um colega, não verbalizado e, sobretudo, não comentado com toda a nossa rede profissional, acabará por se esfiapar como uma camisola velha, revelando o sumptuoso brocado que está por trás. Claro que tudo depende do conflito em questão — a regra não é absoluta —, mas o silêncio criará certamente o espaço necessário à resolução do problema. Prova disso é o reflexo que muitas pessoas têm de ir fazer jogging para «mudarem de ideias». Fazer jogging em silêncio — o fôlego a isso obriga — liberta a mente do burburinho interior. Ao ritmo dos passos, as palavras vão-se apagando, cada perna como o pincel de um pintor que faz aparecer o horizonte. Dizem os mais sábios de entre nós que o horizonte — a calma — está sempre presente, por trás das aparências. Um nada basta para o redescobrir.

Evidentemente, de forma pragmática, nem sempre é possível libertar uma semana para um retiro de meditação em silêncio. Pelo menos da primeira vez, porque depois de se ter experimentado as alegrias de uma outra forma de estar, os participantes esperam muitas vezes com impaciência a sessão seguinte e programam as suas férias de modo a acomodá-lo. De qualquer modo, se a agenda estiver decididamente sobrelotada, encontrará aqui algumas pistas para experimentar o silêncio das palavras no seu quotidiano, sem esperar.

Uma outra língua

Há alguns anos, em 2008, viajei para o Japão para um retiro tradicional (ver capítulo 3). As monjas que ensinavam no mosteiro eram bastante tradicionalistas e algumas tinham dificuldade em aceitar que o budismo zen pudesse ser praticado no «estrangeiro» por pessoas que não fossem japonesas. Assim, quando cheguei, foi-me explicado que a língua inglesa estava interdita e que tudo se fazia no idioma local, o japonês. Como muitas vezes no Japão, as mensagens têm «gavetas secretas»: há o dito e o não dito, a aparência e a realidade. Assim, a abadessa e uma das suas maravilhosas assistentes tinham organizado as coisas de tal forma que, no meu dormitório, estavam reunidas todas as monjas que falavam ou arranhavam algumas palavras de inglês. Havia, assim, a mensagem oficial, «Falar inglês é proibido», e a delicadeza subjacente, «Vamos fazer tudo para que ela se sinta integrada». Uma cultura subtil e muito interessante, que continuo a explorar deliciada.

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Mas porquê esta pequena história? Durante os três meses que durou aquele retiro, acabei por ter muito poucos contactos verbais com as monjas. As instruções eram dadas em japonês, com pequenas traduções por atenção para comigo. Apenas o suficiente para sobreviver sem estar demasiado perdida. Na maior parte do tempo, elas falavam animadamente entre si, sem que eu pudesse aceder ao conteúdo do discurso. No início, tentava, sem qualquer método linguístico, reconhecer as estruturas de frase ou as entoações, mas não resultava: o japonês era chinês! Então, não tardei a parar de escutar. A conversa delas era como um burburinho familiar que embalava os dias e lhes conferia uma espontaneidade alegre: as monjas tagarelavam muito, exclamavam, riam, numa atmosfera refrescante. Eu não percebia nada! 

Os benefícios foram enormes. Todas as minhas habituais cismas, perdendo o seu terreno de expressão favorito, dissiparam-se como neve ao sol. O silêncio forçado queimava pela raiz as minhas veleidades de cólera ou ressentimento. Não tinha ninguém com quem resmungar ou ralhar, não tinha público para exprimir a minha opinião sobre tudo e mais alguma coisa: eram as condições ideais para pôr em prática uma nova forma de pensar, convidando o silêncio. Resumindo, a música interior continuou, mas… em japonês! Habituada durante tantos anos ao meu diálogo interior, não era agora possível impor-lhe silêncio, ou pelo menos nem encarei essa possibilidade. Precisava de alguma coisa, de um pequeno ruído interior reconfortante. De súbito, uma nova língua surgiu: fragmentos de frases em japonês, cantos e sutras budistas… Uma música mental do quotidiano, à margem de todo o sentido lógico. Eu gostava bastante daquela música. E sentia-me, de dia para dia, mais tranquila e concentrada.

Escutar mais coisas, abrir as portas da percepção

«Se as portas da percepção fossem purificadas, as coisas revelar-se-iam ao homem tal como são, infinitas.»
William Blake

Quando a nossa pequena voz interior ressoa, há um som. Forte ou fraco, agudo, médio ou grave, etc. Geralmente, este som ocupa espaço suficiente para nos isolar do universo sonoro que nos rodeia. Por outras palavras, não podemos «dar à língua na nossa cabeça» e ouvir, ao mesmo tempo, os sons do mundo. E é pena! Assim, muitas pessoas que vão passear pela floresta com amigos não escutam, por um instante sequer, a melodia das árvores, o pequeno arquejo de uma folha de Outono que se desprende do ramo, o ranger dos troncos sob o vento… E, de repente, como por magia, a boca faz silêncio e a cabeça também! De súbito, estamos novamente a escutar! Caminhamos, os nossos passos martelam o chão e esse som trespassa o momento. A sensação de Presença será, por vezes, fugaz, depressa esquecida, e outras vezes marcará profundamente a pessoa que a experimenta.

Conhece aquela impressão de imensidade que por vezes nos surge a meio de uma caminhada? Uma espécie de vertigem perante a grandeza, quando sentimos o coração bater mais forte, em harmonia com o ritmo do universo. Alguns exprimem esta sensação como «Não estamos sozinhos», outros ajoelham-se para rezar a Deus, outros ainda aceitam o mistério tal como ele é, sem erguer o véu, concedendo às suas vidas a aventura do desconhecido.

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Mas seja na cidade ou no campo, o homem que se cala apercebe-se de um outro mundo: uma suspensão, uma pausa, uma energia que se liberta. Esse mundo esteve sempre ali ou apareceu graças à nossa observação? É difícil sabê-lo, mas é como se os sons, dos mais próximos aos mais distantes, se oferecessem agora ao nosso ouvido.

No budismo, umas das figuras preferidas dos praticantes é Kannon, ainda chamada de Avalokiteshvara ou Chenrezi: Buda da compaixão. É muitas vezes representada sob a forma de uma deusa, com mil braços ou quase. Algumas tradições utilizam esta imagem e este arquétipo para encontrar inspiração no quotidiano. Imaginando todas as qualidades deste Buda, convidamos o espírito a encaminhar-se para elas. O outro nome de Kannon é «Aquela que ouve os sons do mundo», e evoco-a muitas vezes ao receber os iniciantes. A sua mensagem é, com efeito, de uma
ternura singular! Kannon ouve tudo, conhece todos os habitantes deste mundo — a sua vida, as suas qualidades, os seus defeitos, os seus desejos — e contempla tudo com uma compaixão infinita. Tendo ouvido tantas coisas, durante tantos anos, a única emoção que persistiu nela foi uma ternura benévola pela natureza humana. E se o seu exemplo nos convidasse simplesmente a «fazer amizade com nós próprios»? (É esse, aliás, o título de uma obra esplêndida da monja tibetana Pema Chödrön5, leitura que recomendo vivamente!).

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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