«Ui, quebrei…»

 

quebrar

O especialista Belino Coelho, diretor técnico da Elite Assessoria Esportiva, do Brasil, responsável pelo treino e orientação de mais de 150 atletas, aborda esta semana um tema que aflige muitos corredores: o medo de “quebrar”, seja nos treinos ou nas provas, o que faz com que muitos desistem inclusive da corrida. Não é caso para tanto, embora seja imprescindível conhecermos os nossos limites. Diríamos mesmo essencial…

 

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Muitos corredores, principalmente iniciantes mas também aqueles que já correm há muito tempo, são acometidos pelo medo de “quebrar” em treinos e em provas.

Mas o que é “quebrar” em treino ou em competição? 

Podemos dizer que é o mesmo que você não conseguir mais manter aquele ritmo que estava no início; é o momento onde você faz força para manter o ritmo inicial mas percebe que o ritmo continua a cair; é quando a sua frequência cardíaca fica mais alta e, a cada segundo e minuto que passa, você percebe que a respiração fica mais ofegante e é mais difícil continuar a correr.

Evidentemente, o psicológico também começa a conspirar contra: o atleta começa a pensar em quanto tempo – ou distância – falta para completar o treino ou a competição; o pensamento em desistir começa a ficar mais forte e constante, ao mesmo tempo que a frustração e a vontade de pelo menos completar o desafio proposto travam uma briga interessante  para ver quem vai se sobressair .

Nesse momento, é evidente que o atleta está, provavelmente, sentindo dores provenientes de todo o esforço empreendido e o sofrimento torna-se mais forte a cada momento. 

Desistir ou continuar vai depender muito do objetivo final e, principalmente, se o atleta está suficientemente treinado para aguentar tal sofrimento.

Podemos dizer, em termos fisiológicos, que um dos fatores para esta “quebra” é o atleta ter entrado em “acidose metabólica”, ou seja, começou  a existir o acúmulo de ácido láctico dentro da célula muscular. Assim, as enzimas responsáveis pela contração (que geram a continuação do movimento) ficam inibidas de atuarem e, com isso, a contração começa a diminuir. Consequentemente, a repetição do movimento fica comprometida,  gerando uma queda no ritmo da corrida.

Muitos atletas, em função desse “medo” adquirido, terminam treinos ou competições com a sensação de que poderiam ter tido um rendimento ainda melhor. Há ainda aqueles que, ao olhar para o relógio, reduzem drasticamente o ritmo por acharem que não vão aguentar o mesmo até o final. E esse treino ou competição, no qual perceberam que o rendimento poderia ter sido melhor, acaba por virar uma frustração e a sua repetição a longo prazo pode levar a casos graves, onde o atleta pode começar a fugir dos treinos fortes e de competições.

Como treinador já vi várias situações. Em uma delas, numa competição de 5 km, um atleta estava a correr muitíssimo bem mas, ao olhar para o relógio, no terceiro quilômetro, decidiu parar por achar que não aguentaria o ritmo até o final. O semblante desse atleta, nesse momento, era de tristeza e frustração e a vontade de parar com o esporte em questão ficou mais forte. A fala mais comum nesses casos é: «Eu não nasci para isto!».

Como contornar ou prevenir essa situação?

  • Use os treinos fortes para testar a sua condição e não se preocupe em “ quebrar”, isso faz parte do aprendizado. Com os treinos você vai começar a adquirir uma noção de qual será o seu ritmo ideal para aquela distância ou aquele tempo. Desenvolver a percepção de esforço requer tempo de treino e conhecimento real das suas limitações;
  • Nos treinos, mesmo que seja somente de trote, mas principalmente os treinos fortes, evite fazê-los ouvindo música porque isso influenciará negativamente no desenvolvimento dessa percepção, já que desvia a sua concentração e o ritmo sofre variação de acordo com a música;
  • Use algumas competições para testar suas estratégias e percepção de esforço. Se “quebrar” você pode literalmente interromper a corrida sem culpa e frustração, isso vai ajudar a desenvolver e adotar , futuramente, a melhor estratégia, além de desenvolver a sua percepção de esforço em competições. Com o passar do tempo você vai tirar de letra qual ritmo correr as competições nas mais variadas distâncias;
  • Procure usar alguns treinos ou competições para correr sem relógio. Peça para alguém cronometrar o seu tempo e “cantar” o tempo de forma parcial, por exemplo, dizendo o tempo de sua passagem nos 400 metros ou ao quilómetro, etc… Ou somente no final, a depender do seu caso.

A percepção do esforço é uma das habilidades mais marcantes em atletas de elite amador ou profissional. Mesmo sem relógio sabem o ritmo que estão a correr e qual será o ritmo adotado em competições, em quaisquer distâncias. O desenvolvimento dessa percepção  requer paciência, concentração, orientação e tempo de treinamento. É o melhor antídoto contra o medo de “quebrar” em treinos ou competições.

  1. Este texto é escrito em português do Brasil
  2. Contatos:
    Mailbelino.coelho@eliteesportiva.com.br
    Telefone: +55 11 5518-3409
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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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