É benéfico o treino mental com o treinador?

Na semana passada, Jorge Boim abordou a dificuldade de abordarmos o treino mental sozinhos. Na segunda parte do tema, o nosso especialista escreve como o treino mental com o treinador também pode ser limitativo.

 

Outra forma comum de realizar o treino mental é com ajuda do treinador. Neste caso, o treinador faz o papel de treinador e preparador mental. Neste caso, para mim, há 2 ou 3 grandes limitações.

Normalmente, o treinador não tem a formação necessária para a realização do trabalho. Logo, o que o técnico irá dizer ou sugerir tem muito mais a ver com a sua própria experiência do que com as questões de fundo que devem ser trabalhadas. Voltamos aqui à situação do mesmo fato para todos. A experiência do treinador é uma, a sua própria, e é daí que ele recolhe os ensinamentos que propaga. No entanto, o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para a outra.

Mesmo partindo do mesmo sintoma, por exemplo a ansiedade, a origem pode ser diferente. Para uns, devido a importância da prova; para outros, devido ao medo da água; para os restantes, nunca terem alcançado bons resultados na prova em que vão participar. Cada caso tem origens diferentes e é trabalhado de forma diferente, mesmo que, como referi, o sintoma, a forma como a causa se manifesta, seja semelhante.

Mais, e continuando com o exemplo da ansiedade: para uns pode representar não dormir na semana antes da prova; para outros pode significar não ter fome no dia do evento; e, para os restantes, pode ser um desarranjo intestinal. Cada situação tem o seu método de tratamento.

As inevitáveis barreiras de comunicação no treino mental

Outra situação, no caso do trabalho com o treinador, tem a ver com as barreiras de comunicação. Por mais confiança que se tenha com o treinador, dificilmente um atleta irá ser total e completamente honesto com aquele. Isto prende-se não só com a imagem que achamos que o treinador tem de nós, como também com o que não queremos mostrar, concretamente uma parte “fraca” de nós mesmos. Estas imagens podem ser reais ou não, podem ser imagens que “achamos” que existem mas, na verdade, não são nada assim. Mas, como o que conta é a nossa perceção, agimos em conformidade com ela.

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Vejamos a coisa de outra forma.

Temos, com a nossa companheira ou o nosso companheiro, além de uma relação amorosa, uma relação de amizade e partilha, algo que é muito bom e positivo. No entanto, contamos mesmo tudo à nossa companheira ou ao nosso companheiro? Se calhar… não! Muitas podem ser as razões, mas o princípio aqui é o mesmo.

A terceira questão prende-se com a normal ausência de conhecimentos específicos no campo do treino mental. Por regra, e é natural que assim seja, a formação do treinador é no campo do treino físico, razão pela qual a quantidade de técnicas ao dispor do treinador para trabalhar o lado mental do atleta, a fundo, é relativamente reduzida.

Assim, o sintoma até pode ser corretamente identificado (normalmente é o atleta que o identifica), mas a origem, a causa, não o é. Por esta razão, e mesmo que funcione o que o treinador diz, estamos apenas a trabalhar o sintoma e não a causa. É como se tivéssemos uma dor de cabeça originada por uma pressão da coluna e, de cada vez que essa dor aparece, tomássemos um comprimido. A dor desaparece no momento, mas o problema de fundo mantém-se até irmos ao osteopata, por exemplo.

 

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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