Costuma ser um parceiro ouvinte quando correr? Tem a certeza?…

Correr em companhia não é uma tarefa fácil. Além do ritmo semelhante, há também a relação entre os corredores, que deve ser quase perfeita. Em «Corra pela sua Felicidade – Corrida ao ar livre e mindfulness: a equação perfeita para uma vida saudável e equilibrada», editado pela Casa das Letras, William Pullen revela o segredo para nós sermos um “parceiro ouvinte” perfeito.

 

Como Ser o Parceiro Ouvinte

Geralmente, a regra do papel de ouvinte é que menos é mais. Com isto quero dizer que, se tem dúvidas quanto a dizer algo enquanto é o ouvinte, decida não o dizer. Se o seu parceiro escolhe parar ou está a mover-se em silêncio, use isto como uma oportunidade para praticar o estar presente e em silêncio. Esteja consciente do seu próprio impulso para intervir. Tente não agir segundo uma vontade de preencher o silêncio. Não tenha medo de não saber como reagir ou o que fazer. A sua mera presença pode ser altamente terapêutica para o seu parceiro e para si. Lembre-se, não precisa de o salvar, de o curar, nem nada disso, apenas fique ao lado dele. Ele saberá que você não está lá para o salvar ou a fazer sentir-se melhor. O seu papel é apenas acompanhá-lo.

Há três condições essenciais para se ser o ouvinte na TCD. São simples – fáceis de alcançar e fáceis de lembrar. O seu objetivo é incorporar estas três condições quando ouve o seu parceiro de corrida.

1. OIÇA SEM JULGAR

Ofereça ao seu parceiro um lugar seguro para partilhar. Onde se sinta livre para explorar e aprender a aceitar as partes dele mesmo que sejam menos nobres ou que ele considere vergonhosas. Não é necessário mostrar aprovação ou desaprovação, surpresa ou acordo. Apenas oiça. 

2. OIÇA COM EMPATIA

O seu papel é verdadeiramente ouvir o que a outra pessoa está a dizer. Isto não significa construir teorias indesejadas da sua autoria sobre o que pode estar por trás dos problemas do seu parceiro ou arranjar uma boa solução para ele. Significa absorver o que ouve e empatizar, sem interpretar. De vez em quando, você pode refletir qualquer simpatia apropriada que possa sentir, mas mantenha-a esporádica a não ser que esteja certo de que a desejam. A ideia é que você está presente, não totalmente calado, mas na maioria do tempo em silêncio. É a altura dele de falar – a sua altura há de chegar. 

3. ESTEJA PRESENTE

Seja o mais presente e disponível possível para com o seu parceiro durante o tempo que passarem juntos. Isto requer que você se relacione com ele de uma forma genuína, não obscurecida por necessidades pessoais de parecer carinhoso, interessado, atraente, inteligente ou bem-sucedido. Por isso, seja verdadeiro com quem você realmente é e deixe que isso o guie.

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Se o seu parceiro se for abaixo emocionalmente, é importante saber como reagir. Deviam ter discutido esta eventualidade antes de partirem para a vossa corrida e decidido o que fazer. Algumas pessoas preferem correr sem parar, outras querem parar por um momento. Siga a liderança dele. A sua posição, por defeito, é de companheiro – não curandeiro, nem mãe ou pai, nem melhor amigo. A raiva e a tristeza são naturais; deixe que seja a altura para o seu parceiro ser quem é completamente e desabafar tudo. Na minha experiência, a camaradagem de se moverem juntos, de partilharem esta empresa emocional, cria um porto seguro em que as palavras não são necessárias. O seu parceiro aceita a sua quietude porque você deu todos os passos com ele, assegurando-o do seu carinho.

Tenha fé no método da TCD. A oxitocina, a «hormona do amor», gerada pela partilha das nossas histórias desempenha um papel importante nas ligações sociais, produzindo uma sensação calmante e sentimentos fortes de proximidade. Por causa deste fenómeno, não há necessidade de você fazer alguma coisa. O processo funciona sem a sua contribuição. Lembre-se, quando as pessoas estão perturbadas, o melhor que tem a fazer é apenas estar presente; não tente oferecer soluções ao problema delas. Apenas reconheça o momento com a sua presença.

A única altura em que precisa de falar é quando começa pela primeira vez a exercitar com o seu parceiro e o estimula durante o processo de ancoramento. O incentivo é opcional, mas pode ser calmante e útil. Guie-o por cada um dos quatro passos do processo de ancoramento (ver páginas 31-36). Será você a decidir as palavras que irá usar – o seu papel é apenas lembrá-lo de cada passo.

Como Ser o Parceiro Falante

Se está a usar um dos exercícios da TCD deste livro, então vai querer levar uma pergunta consigo para a corrida. Como alternativa, pode ter algo diferente em mente, ou talvez queira continuar a partir de uma sessão anterior. Por vezes, vai apenas querer continuar e ver o que acontece. Outras vezes, vai querer correr em silêncio. Se nada lhe vier à cabeça, sente-se lá ou comece a caminhar ou correr – a escolha é sempre sua.

Pode querer ir devagar ao início. Tem imenso tempo. Sinta o seu parceiro e saiba o que se sente confortável em lhe dizer. Há imensas histórias que contamos uns aos outros sobre o que as outras pessoas pensam de nós ou como somos vistos. Tente pô-las de lado. Aqui estão algumas coisas que não deve fazer: 

não tente parecer inteligente. A inteligência não tem nada a ver com a expressão de sentimentos. De facto, na maioria das vezes, apenas atrapalha. Seja você mesmo, seja recetivo. Tenha fé que as pessoas o vão aceitar tal como é.

não tente ser engraçado. A chacota é muitas vezes usada como uma reflexão nervosa durante momentos desconfortáveis – é melhor tentar manter o desconforto do que afastá-lo. Esse é o propósito da TCD.

não se sinta obrigado a falar. Mais uma vez, falar desnecessariamente é, muitas vezes, uma forma de evitar exprimir genuinamente os sentimentos. Se nada tem a dizer, sinta-se bem quanto a isso. Se, por outro lado, tem muito que precisa de dizer, deixe fluir livremente. 

não tente desabafar tudo numa sessão. Um objetivo que é tão inatingível como contraproducente. Demore o seu tempo, respire. Pode muito bem descobrir que a história que pensa que precisa de contar é muito diferente da que realmente precisa de contar. Deixe que ela se revele a si com o tempo.

não se preocupe com as expectativas do seu parceiro. Esta é a sua sessão – faça o que lhe parece ser certo.Oiça o seu corpo. Oiça os seus pensamentos. Oiça os seus sentimentos. Expresse-os da forma que for preciso. Preocupe-se consigo mesmo e com mais ninguém.

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Após algumas corridas, a vossa parceria deve começar a fluir. Um sentimento de confiança deve desenvolver-se entre vocês. Tal como com qualquer percurso, o caminho é muitas vezes pouco claro e o destino desconhecido. Haverá alturas em que se irá debater – não faz mal, apenas tente reconhecer a sua insegurança e siga em frente. Não há forma certa ou errada – apenas a sua forma.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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