A importância de oferecer intervalos de vazio e inactividade ao intestino

«A Semana da Digestão» continua, com Frank Laporte-Adamski , autor do livro «A Dieta Purificadora – Purificar os intestinos sem sacrifícios», editado pela Arena, a explicar quanto tempo as refeições ficam no nosso corpo. Mais de um dia…

 

Da teoria à prática

Agora que explicámos como funciona o tubo digestivo, o que o impede de trabalhar da melhor forma e quais os danos que provoca à saúde o «correr mal» na casa de banho, chegou o momento de ir ao âmago da questão. O seu intestino está asfixiado por depósitos, esmagado por camadas e camadas de material tóxico acumulado no decorrer de muitos anos de alimentação errada; nenhuma das dietas famosas «detox» publicitadas por esta ou por aquela revista de bem-estar produz os resultados esperados. Precisa de uma resposta, concreta e definitiva. Mas para encontrar a resposta certa, digo eu, é fundamental colocar a pergunta correcta. E se o objectivo final é evacuar bem, a primeira pergunta a colocar só pode ser a seguinte: o que significa evacuar bem?

Quando se pode dizer que o trânsito intestinal é regular?

Esta é uma boa pergunta que, ao contrário de qualquer lógica, foi ignorada durante décadas pela literatura médica.
A confusão a este respeito é enorme, a ignorância sobre o tema é abissal. Tente fazer uma pequena pesquisa e verá: deparar-se-á com as respostas mais díspares, muitas delas privadas de qualquer fundamento científico. Alguns agentes de Ayurveda, só para dar um exemplo, afirmam que para termos o trânsito intestinal correcto, devemos evacuar depois de cada refeição. Como se fôssemos um cesto de basquetebol e nos bastasse engolir uma bola para expeli-la um segundo depois!

Dada a escassez de informação sobre o assunto, decidi avançar sozinho. Estudei a fundo as diversas velocidades de queda dos alimentos, e assim consegui estabelecer a duração ideal do trânsito digestivo, isto é, o tempo que os alimentos demoram a percorrer o tubo digestivo (ver fig. 3). A seguir, conto o que acontece às refeições no interior do tubo digestivo quando os alimentos são associados correctamente.

O trânsito intestinal ideal

Comecemos pelo início: são oito horas da manhã e vai tomar o seu belo pequeno-almoço. Quatro ou cinco horas depois, a primeira refeição do dia sai do estômago e chega ao duodeno, isto é, a primeira paragem da sua viagem digestiva ao longo do intestino delgado, que durará mais quatro ou cinco horas.

Às 13h00, o estômago recebe o almoço. Quatro ou cinco horas depois, também ele chega ao duodeno e depois continua ao longo do intestino delgado.

Às 18h00, chega o momento do lanche. Entretanto, o pequeno-almoço já terá terminado o seu percurso ao longo do intestino delgado e terá entrado na última parte do tubo digestivo, o intestino
grosso, mais especificamente na sua parte inicial, o cego.

Às 20h00 chega a última refeição do dia, o jantar. O almoço já terá percorrido todo o intestino delgado e ter-se-á juntado ao pequeno-almoço no cego, aonde em breve chegará também o lanche (idealmente composto por alimentos rápidos, logo, com uma maior velocidade de queda do que as outras refeições).

Agora, o pequeno-almoço, o almoço e o lanche estão todos no cego e esperam que o jantar se junte a eles: tal como todas as refeições lentas, demorará cerca de quatro a cinco horas a chegar ao intestino grosso depois de ser consumido. 

Nesta altura, o cego é como um reservatório cheio: as fezes estão prontas para percorrer o resto do intestino grosso graças ao peristaltismo, uma contracção muscular necessária para impeli-las para cima no cólon ascendente e dali para o cólon transverso, para depois caírem no cólon descendente, no sigma, e serem finalmente expulsas pelo ânus através do esfíncter.

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Por fim, as refeições de um dia acabam na sanita. E sabe quantas horas passaram desde o pequeno-almoço? Quarenta! Isto significa que cada um de nós, quando come correctamente, tem habitualmente no abdómen cinco ou seis refeições. 

O trânsito intestinal regular é também visível pelo aspecto das fezes. Se a sua consistência for mole e compacta, como uma banana madura, a forma e a superfície lisa como uma salsicha, e se a cor for a de um hambúrguer bem passado, tem todo o direito de exclamar: «Que belo cocó!»

3, 2, 1… Partida!

Para perceber como combinar os alimentos de modo a acelerar o mais possível o trânsito intestinal, fiz uma infinidade de experiências com o cronómetro na mão. Estou a falar a sério!

A bibliografia médica nunca abordara este aspecto da digestão até eu começar a colocar questões. E foi assim, analisando a velocidade de queda de cada alimento ao longo do tubo digestivo, que  consegui elaborar a minha famosa «Teoria dos Espaços». Não é nada de complicado, verá: aliás, posso explicá-la recorrendo a um exemplo simples e eficaz.

Desimpeçam as linhas!

Imagine: são oito horas da manhã. Um comboio parte de Roma para Milão e viaja à velocidade de 80 quilómetros por hora. A chegada está prevista para as 15h00. Paciência! É um comboio de mercadorias: não foi construído para andar mais depressa!

Contudo, ao fim de cinco minutos, da mesma linha de Roma parte outro comboio, também com destino a Milão. É um comboio de última geração e viaja a 300 quilómetros por hora. Assim disparado, dá vontade de dizer, chegará a Milão num par de horas!

Mas não. Nenhum dos dois comboios chegará ao destino no horário previsto e o motivo é muito simples: viajam na mesma linha! Meia hora depois da partida, o comboio super-rápido já terá alcançado o de mercadorias: os dois terão de parar, provavelmente acordar quem deve ter a precedência, e, entretanto, já terão bloqueado toda a linha e provocado mais atrasos nos transportes.

Não é possível colocar na mesma linha dois comboios que viajam a velocidades diferentes sem provocar danos à circulação: do mesmo modo, não é possível colocar no tubo digestivo alimentos que viajam a velocidades diferentes sem provocar danos à digestão. Todo o trânsito intestinal será abrandado; os alimentos fermentados colar-se-ão às paredes do intestino, estreitando-o e impedindo o desgaste de toxinas. As refeições ingeridas começarão a acumular-se umas sobre as outras no interior do tubo digestivo, que será assim obrigado a trabalhar 24 horas sobre 24 horas para «mandá-las para baixo». Isto significa, basicamente, negar ao intestino os seus «espaços», isto é, os intervalos de vazio e inactividade necessários à autolimpeza. Constantemente cheio e ocupado a processar os alimentos, o tubo digestivo fica bloqueado em qualquer tipo de trânsito, deixa de conseguir autolimpar-se e fica cada vez mais cansado: os alimentos ficam a fermentar e a putrefazer-se no interior do tubo digestivo durante 12, 24, 36 horas. É uma situação desastrosa, um círculo vicioso que só pode ser interrompido com uma mudança radical de rumo. Ou,
para falar correctamente, com uma melhor organização das partidas e das chegadas!

Partida!

Contudo, não basta começar a alimentar-se respeitando as associações correctas; nenhum expediente benéfico será eficaz se o tubo digestivo não for primeiro capaz de funcionar correctamente. Basicamente, a situação não pode voltar à normalidade antes de este «trânsito» intestinal ser digerido.

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Mas como se limpa um tubo digestivo que já está cheio de depósitos «agarrados» às paredes? Não é preciso fazer uma dieta drástica: quando os depósitos se soltassem, não encontrariam espaço livre para transitar com as fezes e acabariam por utilizar «vias de escape» indesejadas: a pele, com dermatites e herpes; os pulmões, com asma e alergias; garganta e ouvidos, com sinusite e dor de cabeça; as pobres costas ou os rins, com lombalgias e
cistites.

Não, uma dieta hipocalórica é decididamente demasiado agressiva para um tubo digestivo obstruído. A primeira coisa a fazer é permitir que o intestino reencontre os «espaços» perdidos. Em poucas palavras, é preciso colocá-lo em condições de gozar de intervalos de pelo menos quatro horas entre as refeições, durante as quais pode descansar e voltar gradualmente a ficar em condições de se autolimpar. Deste modo, os depósitos soltam-se e, ao encontrarem o tubo digestivo vazio, terão o espaço suficiente para atravessá-lo e sair do corpo de modo natural através das fezes.

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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