A boa saúde passa inevitavelmente pelo intestino

No primeiro dia d´«A Semana da Digestão», que tem como base o livro «A Dieta Purificadora – Purificar os intestinos sem sacrifícios», de Frank Laporte-Adamski e editado pela Arena, o autor explica o princípio base da sua metodologia, «muito simples: quem come bem terá uma boa digestão. E uma boa digestão é o segredo para uma vida melhor».

 

A origem do Método Adamski

Firme nas minhas convicções, iniciei uma longa fase de investigação. Parti de uma base complementar experimental: há vinte anos, de facto, o nosso conhecimento sobre o intestino era escasso e vago.

Foi para mim de uma enorme utilidade os estudos de Bernard Jensen, um dos maiores especialistas mundiais no sector da gastroenterologia e incansável defensor da hidroterapia do cólon, uma lavagem do cólon com vista a uma desintoxicação. Jensen foi dos primeiros a «ver de perto» a parte final do tubo digestivo recorrendo a radiografias abdominais. Foi a partir dos seus resultados que fiquei com uma ideia mais precisa do que acontece a um alimento após ser ingerido: que percurso segue, como se transforma durante a sua «viagem» e, acima de tudo, a que velocidade se move. E aqui chegamos ao âmago da questão! Porque é precisamente na velocidade de queda dos alimentos ingeridos que consiste o princípio basilar do Método Adamski: aprender a delinear a alimentação com base na divisão racional entre os alimentos de queda rápida (isto é, alimentos «ácidos») e os alimentos de queda lenta (os chamados «alimentos não ácidos»), e assim nutrir-se da forma mais adequada para não sobrecarregar
e obstruir o intestino.

Antes de mim, ninguém aprofundara este aspecto da digestão. Apenas podia contar com as provas estabelecidas pelas radiografias de Jensen. Assim, tomando como base aqueles poucos dados e as minhas deduções, consegui atribuir uma velocidade de «queda» de quatro ou cinco horas a determinados alimentos (que defini como «alimentos lentos») e de trinta minutos a outros alimentos (que defini como «alimentos rápidos»), e avaliar os efeitos das associações entre os alimentos pertencentes às duas categorias.

Diz-me quantas vezes vais…

Foi assim que descobri que juntar alimentos lentos e alimentos rápidos abranda excessivamente o trânsito digestivo (em até 18 horas!), bloqueia o intestino e impede uma evacuação regular, a principal condição para ter uma boa saúde.

Mas o que se entende por «evacuação regular»? Uma vez por dia? Uma vez de dois em dois dias? Depois de todas as refeições? Experimente perguntar a várias pessoas: ninguém lhe saberá dizer com certeza. O único dado certo a este respeito parece estar relacionado com a obstipação: quando uma pessoa vai à casa de banho menos de três vezes por semana. Já da regra, por algum motivo misterioso, não se fala de todo.

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Pois bem, chegou o momento de falar! Na minha opinião, o seu tubo digestivo está em boas condições se evacuar uma vez por dia, todos os dias. Mas esta não é a única condição necessária para a saúde do tubo digestivo (e a sua): é fundamental que aquilo que evacua uma vez por dia não seja aquilo que comeu, por exemplo, quatro dias antes.

Os meus estudos revelaram, de facto, que todas as más associações de alimentos originam o aumento dos processos de fermentação e putrefacção a nível intestinal, com a produção de venenos dez vezes superiores ao que é normal! Quando o trânsito intestinal de um alimento é excessivamente lento, tem muito mais tempo para fermentar, intoxicar-se e colar-se às paredes do tubo digestivo, como uma camada de estuque. Evitar estes danos não só é possível como também é simples. Não existe de facto nenhum motivo para não o fazer.

O Método Adamski é um conceito global de saúde centrado precisamente no tubo digestivo. Segui-lo significa garantir a absorção máxima de todos os princípios nutritivos benéficos facultados pelos alimentos e, igualmente importante, reduzir para zero o depósito de toxinas e escórias produzidas por um intestino «desgastado» por maus hábitos alimentares.

Um só grande juiz

A maior parte das dietas e sugestões dos nutricionistas concentram-se nas qualidades benéficas deste ou daquele alimento. Quantas vezes ouvimos dizer que temos de comer mirtilos para melhorar a vista? Quantas pessoas conhece que bebem, de manhã, um copo de água quente com sumo de limão para «desintoxicar o fígado»? Eu digo-lhe quantas: muitas. Imensas! Mas o que estas dietas não dizem é que não basta ingerir um alimento saudável para que este tenha efeitos benéficos. Não somos nós que decidimos o que faz bem ao nosso organismo e aquilo que não faz bem. Existe apenas um grande juiz: o tubo digestivo! Se estiver obstruído e funcionar mal, nenhum dos remédios mais ou menos comuns que povoam a Internet ou as revistas de saúde e bem-estar pode ter o efeito desejado.

A capa da nova aposta da Arena
A capa da nova aposta da Arena

Dou um exemplo: o mirtilo pode fazer bem à vista, porque contém antioxidantes que melhoram os níveis de vitamina C no sangue. Tudo perfeito. Mas se o tubo digestivo estiver obstruído, nenhum dos preciosos antioxidantes contidos no mirtilo poderá alguma vez chegar ao sangue e fazer bem ao organismo! Na verdade, o mirtilo ficará demasiado tempo no intestino a fermentar, depois entra em putrefacção, contribuindo assim, também ele, para obstruir ainda mais o tubo digestivo, um círculo vicioso que, com o avançar da idade, piora a saúde cada vez mais.

Outro exemplo, «ao contrário»: é opinião comum que a couve-flor «enche» a barriga de ar, logo, será pouco indicada para quem sofre de aerofagia. Nada mais errado. Não é a couve-flor que provoca flatulência! Ou melhor, não é a couve-flor em si; mais uma vez, tudo depende do tubo digestivo. Num tubo digestivo desgastado e bloqueado, a couve-flor entra em putrescência e enche a barriga de ar malcheiroso. Num tubo digestivo livre e limpo, a pobre e inocente couve-flor deslizará sem nenhum problema desde a boca até ao intestino delgado e, durante o percurso que a transforma em fezes, contribuirá para a sua saúde com a sua fantástica provisão de vitaminas, fibras e sais minerais.

Eu disse fezes?

Sim, disse fezes. A palavra (paradoxalmente!) menos pronunciada por dietistas, nutricionistas e naturopatas é, na verdade, o conceito-chave que deve ser aprofundado para se viver bem. E, contudo, fala-se pouquíssimo delas. Porquê? O que há de tão escandaloso em concentrar-se nos materiais de descarga? As fezes são o resultado do processamento que o intestino faz da comida que ingerimos. Precisamente por isso, são um espelho da nossa saúde. É importante observá-las, percebê-las e melhorá-las, e não fingir que não existem com uma simples descarga do autoclismo.

A escassa difusão de informações concretas sobre o tubo digestivo, sobre a sua actividade e importância (mas também, por incrível que pareça, sobre a sua configuração!) nunca deixa de me espantar. Que comprimento tem o intestino? Onde começa, onde acaba, quanto dura o trânsito digestivo deste ou daquele alimento? Quando podemos dizer que uma evacuação é regular? Tome atenção: as respostas a estas simples perguntas são sempre algo vagas. E, contudo, teoricamente sabemos tudo, por exemplo: que a cor das fezes, a consistência ou o odor «invulgar» são o sinal de alarme de uma condição física não ideal. Quando o nosso filho faz um «cocó feio», qual é a nossa primeira reacção? Consultar o pediatra antes que a situação piore! Quando o elefante defeca montanhas e montanhas de fezes, o que faz o empregado do jardim zoológico? Chama o veterinário antes de ser submergido! E quando uma diarreia incómoda torna complicadas as banais actividades diárias, não procuramos imediatamente o «culpado» entre os alimentos ingeridos?

Inconscientemente, damos por comprovado que o intestino é o motor principal da vida. Apesar disso, atribuímos pouquíssima importância à quantidade e à qualidade das fezes que produzimos: e basta dar atenção a algumas regras simples para garantir uma evacuação regular, saudável e satisfatória.

Lento… como um berlinde!

Para ter uma ideia do que acontece durante a «viagem» dos alimentos ao longo do tubo digestivo, partimos de um caso extremo. Digamos que uma criança engole sem querer um berlinde: o que acontece, onde vai parar o berlinde? À sanita, naturalmente! Não logo de seguida, claro: ao fim de três ou quatro dias, se não mesmo uma semana. Um trânsito intestinal muito longo se comparado com o dos alimentos, que depende, obviamente, do facto de que o tubo digestivo não está concebido para gerir e «processar» objectos, apenas e exclusivamente alimentos. Para «processar» a digestão de um berlinde, o intestino demorará muito mais tempo do que com uma cenoura. Os tempos de digestão dependem sempre de uma única variante, ou seja, a velocidade dos alimentos ingeridos. Existem alimentos rápidos que demoram apenas trinta minutos a realizar o percurso que os leva da boca ao intestino delgado, e alimentos lentos que, pelo contrário, precisam de várias horas para levar a bom termo a sua viagem no nosso corpo.

O que acontece quando os alimentos lentos e os alimentos rápidos são associados sem um critério adequado? É muito simples: no tubo digestivo acontece uma reacção química específica — a chamada fermentação — que abranda muito o trânsito intestinal e que, com o tempo, acaba por criar depósitos que o entopem, acarretando um número infinito de problemas funcionais, dos quais falaremos com mais profundidade no capítulo seguinte.

Prontos para a revolução!

Foi assim que estabeleci as bases de uma nova dieta alimentar pensada para garantir a saúde do organismo, que em 1992 conheceu o seu primeiro «manifesto» no meu livro La Révolution Alimentaire. E foi de facto uma revolução: o meu método subverteu muitas convicções sobre o intestino que nunca haviam sido discutidas. Por exemplo, era do consenso geral que todas as leis físicas válidas para os outros órgãos eram também válidas para o tubo digestivo. Mas não é assim! O meu livro foi o primeiro a explicar que o tubo digestivo funciona como se estivesse «fora do corpo». E sabe porquê? Porque é oco e abre-se para o exterior, quer numa extremidade (a boca) quer na outra (o ânus). Então, no intestino, valem as regras da aerodinâmica: no seu interior, os alimentos caem para baixo e se encontrarem obstáculos, abrandam ou, num caso ainda pior, param.

Mas não é tudo! O meu livro foi o primeiro texto a reconhecer ao intestino o seu papel crucial na prevenção de doenças. Não só o tubo digestivo facilita a passagem no sangue das substâncias nutritivas contidas nos alimentos, como também nestas estão concentradas 80% das defesas imunitárias do nosso organismo! Um tubo digestivo limpo e a funcionar perfeitamente é a condição essencial para prevenir todos os tipos de doenças.

As confirmações, o sucesso

Em mais de vinte anos desde a sua «estreia», o Método Adamski fez eco em inúmeros estudos e práticas. Antes de mais, na chamada «cápsula endoscópica», um exame capaz de determinar a funcionalidade intestinal com base em informações recolhidas por uma cápsula que, equipada com uma câmara microscópica, atravessa o tubo digestivo e vai até à válvula ileocecal em quatro horas e quarenta e sete minutos. Repare que há vinte e quatro anos, quando a cápsula endoscópica era praticamente ficção científica, eu já fixara o tempo de queda dos alimentos lentos em
quatro ou cinco horas! 

Diversas foram também as publicações que, a partir desta «redescoberta» do papel crucial do intestino, aprofundaram a pesquisa sobre as melhores formas de mantê-lo saudável. Entre elas, conta-se o livro The Second Brain, de Michael Gershon, que corroborou a minha tese segundo a qual o intestino está «fora do corpo», e A Vida Secreta dos Intestinos, de Giulia Enders, que considera o intestino como a principal «base de defesa» na guerra contra as doenças.

Resumindo, o nosso conhecimento neste campo é hoje notoriamente mais amplo do que há algumas décadas. O segredo da saúde, como descobrirá mais à frente, está precisamente na sua correcta aplicação. Com o meu método, pretendo divulgar o mais possível os hábitos fundamentais a respeitar para estabelecer as bases de uma nova higiene de vida: para eliminar pela raiz a causa dos problemas que nos afligem e para nos sentirmos sempre activos, motivados e eficientes. Mas acima de tudo felizes!

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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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