Correr com sapatilhas ou descalço?

O brasileiro Edilson Saraiva de Mesquita correu a Maratona de Buenos Aires com uns… chinelos! O especialista Filipe Duarte aborda o tema. Correr descalço evita ou não evita lesões?

 

Atualmente, estima-se que metade dos praticantes de corrida irão sofrer uma lesão do aparelho músculo-esquelético e, nestes corredores, a probabilidade de nova lesão será cerca de 50%. Consequentemente, manter os atletas saudáveis e a prevenção de lesões tornaram-se motivo de estudos e um objetivo a alcançar a curto prazo, dado o aumento exponencial da prática amadora de corrida.

Tradicionalmente, os ténis de corrida eram concebidos de forma a dar suporte, estabilidade, amortização e absorção de choque. Mais recentemente, assistimos ao desenvolvimento de modelos adaptados às necessidades individuais em função da passada e biomecânica própria de cada um.

Não satisfeitos, a indústria ambiciona agora algo ainda mais invulgar: uns ténis capazes de alterar a marcha e induzir uma passada com apoio do médio-pé ou do ante-pé no primeiro contacto com o solo. Esta ideia surge após a crescente popularidade da corrida em “barefoot”, que é como quem diz, descalço. A divulgação e propagação deste conceito pelos mídia levou à sua globalização, sendo comum e genericamente relacionado com melhor performance e diminuição do risco de lesão.

E agora é que são elas…

As alterações associadas ao “barefoot running” incluem diminuição do tempo de apoio, diminuição da força aplicada ao solo e melhor distribuição/absorção do choque. Isto porque barefoot, em termos teóricos, obriga ou pressupõe um apoio no médio ou ante-pé, alterando, por exemplo, a passada de quem faz apoio em calcanhar. E aí está o primeiro ponto importante: 75 a 98% dos corredores usa naturalmente um apoio em calcanhar no primeiro contacto com o solo.

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Portanto, continuando num mundo teórico e matemático, usar um modelo de corrida em barefoot significa que a grande maioria dos corredores passaria a ter um apoio no médio-pé ou ante-pé. Por conseguinte, todos nós iríamos ter melhor performance e um risco diminuído de lesão. Pergunta da comunidade científica: diminuíram as lesões? Não!

Segundo ponto: correr em barefoot não significa obrigatoriamente mudar de apoio. Já foram publicados trabalhos que mostraram precisamente isso: nem sempre o corredor passa a ter um apoio do médio ou ante-pé e, nestes casos, esta alteração torna-se contraproducente. O apoio continua a ser feito no calcanhar e aumenta dramaticamente o risco de lesão, dada a falta de amortização pela sola e, por isso, maior impacto do calcanhar diretamente no solo.

Correr “descalço” trás vantagens biomecânicas e melhoria da performance

Fugindo à esfera matemática e de causa-efeito (raramente apoiada em Medicina), reconhecem-se várias vantagens na corrida em barefoot. Maior arco de amplitude do tornozelo, maior força de flexão plantar do pé e maior amplitude necessária de flexão do joelho e anca são propriedades cinéticas associadas ao barefoot. Mas estas propriedades implicam alterar um processo biomecânico individual e adaptativo próprio de quem corre – estando ainda por esclarecer se essa alteração estará associada efetivamente a diminuição de lesões ou, se pelo contrário, ao alterarmos os mecanismos individuais não iremos, por isso mesmo, causar maior risco de lesão!

Quer isto dizer: correr “descalço” trás vantagens biomecânicas e melhoria da performance. Mas deve-se ressalvar que a diminuição do risco de lesão ainda não está totalmente comprovada. No entanto, o corredor que não altera o seu apoio inicial ao solo – ou seja, apoio do calcanhar -, mesmo em barefoot ou com ténis minimalistas (mesmo princípio), terá maior risco de lesão, pelo que deverá ser evitado.

À pergunta: correr descalço é sensato? É! Desde que se tenha um apoio inicial no médio ou ante-pé! Caso contrário, vale mais manter os ténis clássicos com amortizadores.

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Pedro Alves

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