Conheça exercícios para controlar as oscilações do seu ritmo

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Após três artigos, Belino Coelho, diretor técnico da Elite Assessoria Esportiva, do Brasil, responsável pelo treino e orientação de mais de 150 atletas, chega ao fim da sua série, que mostrou como preparou um corredor para a Maratona de Blumenau (leia aqui a primeira, a segunda e a terceira partes). O triunfo não surgiu, muito devido a dificuldade do seu atleta em controlar o ritmo de corrida, mas isso não impediu a vivência de uma experiência única, inclusive após a corrida, com um gesto que surpreendeu os presentes. Saiba qual é e aproveite para conhecer exercícios para controlar o ritmo da sua passada.

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Correr uma Maratona não é difícil, desde que você esteja bem treinado. O difícil é saber como corrê-la! Essa foi uma das minhas preocupações com o meu atleta durante a sua preparação para a prova de Blumenau. Analisando os seus resultados em Maratonas, principalmente os segundos lugares, todas tinham um ponto em comum: a liderança da prova até a parte final e a vitória a escapar no fim.

Uma das hipóteses que havia pensado dos motivos de tal acontecer era que ele não conseguia controlar o ritmo de corrida, ou seja, não tinha a percepção do ritmo que corria. Isso explicaria o fato de sempre perder na parte final, onde estaria em processo de fadiga crônica e sem condições de reagir perante o adversário.

Para ter a certeza de que a minha hipótese estava correta (ou não…), apliquei um teste: 18 km de ritmo, num percurso plano e com controle a cada um km.

No final constatei de que eu estava certo: o meu atleta oscilava muito o seu ritmo e essa oscilação fazia com que a corrida não fosse nada econômica, ou seja, gastava energia de forma desnecessária e, na parte final, essa falta de energia, somada ao processo de fadiga que se  havia instalado, fazia com que ele não conseguisse reagir a um ataque de um adversário, acabando por terminar a prova em segundo lugar ou, às vezes, como aconteceu na Maratona de Miami de 2005, na quinta posição, com o tempo de 2h17m45 (depois de liderar durante mais de 38 km…).

Para melhorar essa deficiência adotamos a seguinte estratégia:

  • Treinos intervalados longos e treinos de ritmo constante sem relógio, mas com o tempo de passagem “cantado” em alguns momentos para que ele se concentrasse no nível de esforço;

  • Treinos com variação de ritmo;

  • Treino intervalado curto ou longo, sem relógio, com o atleta a dizer o tempo que fez baseado na sua própria percepção de esforço e a correção sendo feita logo em seguida;

  • Participação em provas para averiguação do ritmo;

Em cinco meses a melhora dessa percepção foi muito pouca, já que é uma variável que requer mais tempo de treinamento e a qual exige, também, um acompanhamento psicológico e concentração por parte do atleta durante o treino.

O DIA DA MARATONA

A nossa maior preocupação para o dia da Maratona era justamente a questão da oscilação do ritmo durante a prova. Sendo assim, decidimos que o melhor era permanecer o maior tempo possível correndo dentro do bloco de atletas que provavelmente ganharia a prova, evitando acompanhar um possível “coelho” e a inevitável oscilação do ritmo,  que poderia colocar novamente em xeque a vitória na Maratona, uma vez que ele estava muito bem preparado, haja vista os resultados nos treinos e nas competições preparatórias.

Pela sua condição e característica da prova, o tempo previsto estava entre 2h17 e 2h19. A Maratona ainda premiava em dinheiro o atleta que passasse em primeiro na marca da Meia-maratona.

No dia da prova recebemos a primeira surpresa: por falta de liberação por parte dos órgãos governamentais para a utilização da rodovia no período noturno, a Maratona foi adiada para o dia seguinte às 6h00. Para piorar, naquela madrugada haveria a mudança do Horário de Verão, ou seja, os relógios deveriam ser adiantados em uma hora, o que implicaria levantar às 3h00, o que no horário normal seria às 2h00.

A grande maioria dos atletas nem sequer conseguiu dormir nesse dia e muitos outros tiveram problemas nos aeroportos porque tiveram de mudar o horário da passagem. Essa mudança repentina, sem dúvida alguma, interferiria no rendimento de muitos atletas, principalmente dos amadores, que treinaram no horário anterior da prova (20h00). O meu atleta não teve esse problema, uma vez que treinou em dois períodos e, por vezes, até em três . O problema maior foi a hora de dormir, como acabou por acontecer, mas esse contratempo aconteceu para todos.

Não bastasse todos esses problemas, no dia da prova desabou uma chuva que acrescentou mais um fator a interferir negativamente no desempenho dos atletas em geral, principalmente do meu, que havia treinado sob o forte calor de Maringá, no Paraná.

A estratégia antes da largada permaneceu a mesma e, na parte inicial, ele manteve-se sempre presente no bloco que ganharia a prova. Cerca dos 18 km sentiu que o ritmo estava fácil e se “desgarrou” do grupo, ganhando a premiação em dinheiro por ter sido o primeiro atleta a passar pela marca da Meia-maratona, com o tempo de 1h09.

A grande preocupação agora era que, sem referência, o ritmo poderia sofrer oscilações, o que acabou por acontecer. No quilómetro 40 ele começou a sentir o cansaço e foi ultrapassado por outro maratonista, terminando a prova na segunda colocação com o tempo de 2h20m33, 56 segundos atrás do primeiro colocado.

A surpresa melhor ficou para o final: o vencedor da Maratona, Jean Carlos da Silva, foi conversar com o meu atleta e, ciente de todo o esforço que ele havia feito, sugeriu somar as premiações dos dois e depois dividir o valor pelos dois. Em termos financeiro, algo muito mais interessante para o meu atleta, que não pensou duas vezes e aceitou a proposta.

Nessa prova ficou a lição de que não era somente a questão da percepção do esforço que seria o problema, mas também o controle da ansiedade e da paciência para tomar as decisões no momento certo. Talvez se ele tivesse continuado com o grupo por mais tempo, a história poderia ter sido diferente. Além disso, a generosidade e a consideração de Jean Carlos da Silva fez valer todo esforço realizado até então!

Se você tiver dúvidas ou sugestões de outros assuntos relacionados à corrida, e gostaria de vê-lo publicado no CORREDORES ANÓNIMOS, escreva para o meu mail, abaixo indicado:

  1. Este texto é escrito em português do Brasil
  2. Contatos:
    Mailbelino.coelho@eliteesportiva.com.br
    Telefone: +55 11 5518-3409
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Pedro Alves

Pedro Alves

O futebol sempre acompanhou a minha vida, assim como a natação e o voleibol. As tardes no Estádio do Maracanã, primeiro nas arquibancadas com o meu pai e depois com a “torcida” do Flamengo, são momentos que continuam a marcar as minhas recordações, principalmente a ver Zico a jogar. Em Portugal desde 1989, aos poucos o futebol e o voleibol perderam o seu espaço de prática, mas não de interesse (nesse aspeto o futebol é insubstituível, principalmente a seleção brasileira – como “doeu” os 1-7 da Alemanha… -, o Flamengo e o Barcelona). Se no Brasil a corrida era algo supérfluo, nos últimos anos acabou por ganhar a sua devida importância, primeiro como um hábito de saúde e bem-estar, depois como um desafio pessoal, concretamente terminar uma maratona, feito alcançado no Porto, em 2011. Com mais três no curriculum (duas em Lisboa e uma no Funchal), agora o objetivo é correr a primeira maratona internacional.

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